Que
dor sente um banco quando está sozinho?
“Minha casa é meu corpo, meu carro
também. Moro dentro dos meus sapatos, ora! Meu nome é Pensamento!” (Mário Gomes)
Hoje é um dia especial. E não é apenas por ser domingo.
É especial pelo simples fato de querermos que seja especial. Mas, claro, tem um
motivo. Vou dar o melhor de mim para me sentir digno de oferecer essa incompleta
crônica ao poeta Mário Gomes. Mário Ferreira Gomes, 67, cearense, recentemente
falecido (primeiro de janeiro de 2015).
“A imagem do poeta andarilho que entrou para o imaginário
coletivo de uma cidade através de seu próprio engenho, inventando para si uma
errância deliberada como extensão da franca recusa ao trabalho, alinhada à
também confessa vocação para a boemia sem freios, é poeira nos olhos. E colírio
pingado a conta gotas. Aos 66 anos, Mário Gomes perambula pelas ruas de
Fortaleza desde a juventude quando, aposentado por invalidez, após controversas
internações psiquiátricas, fundou o seu “mundo”: um “escritório” ao ar livre em
plena Praça do Ferreira, coração do Centro, com direito à banco preferencial e
audiência fiel para poemas escritos e recitados ao sereno, a qualquer hora do
dia ou da noite, em estado de graça ou embriaguez.” – Ethel de Paula.
No dinâmico e com certeza virtual mundo
em que vivemos nos dias atuais, onde as leis são “fabricadas” em série como se
fossem garrafas pet, fica muito fácil e, inacreditavelmente mais difícil
definir algo ou alguém. Como se leis fossem necessárias para isso.
Da mesma forma que outrora se definiu
Machado de Assis, Jorge Amado, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e tantos
outros e, mais recentemente Luiz Gonzaga, Raul Seixas ou Dalva de Oliveira, se
define hoje o Santa Cruz, o Canal da Mancha ou o Caribe. Definir ficou fácil.
Difícil é entender.
Mente-se quando se conceitua como
esquizofrenia o comportamento introvertido de alguém. Ninguém é introvertido
por ser doente. Da mesma forma, é errado definir depressão como doença.
Depressão é algo momentâneo, passageiro, que muda involuntariamente de um
minuto para outro. E ninguém é deprimido por querer.
Nessa reflexão fomos buscar como exemplo
a escolha de vida (repetimos: a “ESCOLHA” de vida. Algo próprio.) do nem sempre
bêbedo – mas sempre e definitivamente poeta – Mário Ferreira Gomes.
Assim, como poderíamos definir o momento
abaixo?
Metamorfose
Ontem,
Ao meio- dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.
Ao meio- dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.
Parece coisa de Zé Limeira, o poeta
do absurdo. É lúcido entendermos o “ontem” ali colocado como algo passado, o
que dá um tom de veracidade ao verso-poema. Seria irreal se ele dissesse:
“amanhã”, ao meio-dia, comi um prato de borboletas. O tempo do verbo nada teria
com a ação.
Um sujeito como esse pode estar
bêbedo, pode estar em estado de esquizofrenia, ou, simplesmente, pode estar
deprimido. Ganha tons de realidade a continuidade da transformação da espécie,
pois todos sabem que, antes de ser borboleta, a borboleta era lagarta.
Pelos idos dos anos 50 – fim da década, mais
precisamente – era comum os rapazes se postarem na frente do cinema São Luiz,
todas as tardes – torcendo para que aparecesse uma nova Marilyn Monroe com suas
roupas leves para serem levantadas pelos ventos. Ventos muito machos, diga-se.
Talvez venha desse tempo a preferência de Mário Gomes –
provavelmente um jovem daquela época – pela Praça do Ferreira, em Fortaleza
considerado local de descanso e não de malandragem. Quem sabe foi ali que o
poeta comeu suas primeiras lagartas e depois tenha procurado lugar não tão
distante para defecar borboletas.
Sim, uma borboleta igual a essa:
Ação
gigantesca
Beijei
a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia.
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia.
Mário Gomes escolheu a solidão, sem ser esquizofrênico
ou sem estar deprimido. Preferiu viver o dito tão popular, que assegura:
“melhor só, que mal acompanhado”.
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