segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A dor da solidão e da companhia

 


Que dor sente um banco quando está sozinho?

 

“Minha casa é meu corpo, meu carro também. Moro dentro dos meus sapatos, ora! Meu nome é Pensamento!” (Mário Gomes)

 

Hoje é um dia especial. E não é apenas por ser domingo. É especial pelo simples fato de querermos que seja especial. Mas, claro, tem um motivo. Vou dar o melhor de mim para me sentir digno de oferecer essa incompleta crônica ao poeta Mário Gomes. Mário Ferreira Gomes, 67, cearense, recentemente falecido (primeiro de janeiro de 2015).

“A imagem do poeta andarilho que entrou para o imaginário coletivo de uma cidade através de seu próprio engenho, inventando para si uma errância deliberada como extensão da franca recusa ao trabalho, alinhada à também confessa vocação para a boemia sem freios, é poeira nos olhos. E colírio pingado a conta gotas. Aos 66 anos, Mário Gomes perambula pelas ruas de Fortaleza desde a juventude quando, aposentado por invalidez, após controversas internações psiquiátricas, fundou o seu “mundo”: um “escritório” ao ar livre em plena Praça do Ferreira, coração do Centro, com direito à banco preferencial e audiência fiel para poemas escritos e recitados ao sereno, a qualquer hora do dia ou da noite, em estado de graça ou embriaguez.”Ethel de Paula.

No dinâmico e com certeza virtual mundo em que vivemos nos dias atuais, onde as leis são “fabricadas” em série como se fossem garrafas pet, fica muito fácil e, inacreditavelmente mais difícil definir algo ou alguém. Como se leis fossem necessárias para isso.

Da mesma forma que outrora se definiu Machado de Assis, Jorge Amado, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e tantos outros e, mais recentemente Luiz Gonzaga, Raul Seixas ou Dalva de Oliveira, se define hoje o Santa Cruz, o Canal da Mancha ou o Caribe. Definir ficou fácil. Difícil é entender.

Mente-se quando se conceitua como esquizofrenia o comportamento introvertido de alguém. Ninguém é introvertido por ser doente. Da mesma forma, é errado definir depressão como doença. Depressão é algo momentâneo, passageiro, que muda involuntariamente de um minuto para outro. E ninguém é deprimido por querer.

Nessa reflexão fomos buscar como exemplo a escolha de vida (repetimos: a “ESCOLHA” de vida. Algo próprio.) do nem sempre bêbedo – mas sempre e definitivamente poeta – Mário Ferreira Gomes.

Assim, como poderíamos definir o momento abaixo?

Metamorfose

 

Ontem,
Ao meio- dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.

 

 

Parece coisa de Zé Limeira, o poeta do absurdo. É lúcido entendermos o “ontem” ali colocado como algo passado, o que dá um tom de veracidade ao verso-poema. Seria irreal se ele dissesse: “amanhã”, ao meio-dia, comi um prato de borboletas. O tempo do verbo nada teria com a ação.

Um sujeito como esse pode estar bêbedo, pode estar em estado de esquizofrenia, ou, simplesmente, pode estar deprimido. Ganha tons de realidade a continuidade da transformação da espécie, pois todos sabem que, antes de ser borboleta, a borboleta era lagarta.

 

Pelos idos dos anos 50 – fim da década, mais precisamente – era comum os rapazes se postarem na frente do cinema São Luiz, todas as tardes – torcendo para que aparecesse uma nova Marilyn Monroe com suas roupas leves para serem levantadas pelos ventos. Ventos muito machos, diga-se.

Talvez venha desse tempo a preferência de Mário Gomes – provavelmente um jovem daquela época – pela Praça do Ferreira, em Fortaleza considerado local de descanso e não de malandragem. Quem sabe foi ali que o poeta comeu suas primeiras lagartas e depois tenha procurado lugar não tão distante para defecar borboletas.

Sim, uma borboleta igual a essa:

 

Ação gigantesca

 

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia.

 

Mário Gomes escolheu a solidão, sem ser esquizofrênico ou sem estar deprimido. Preferiu viver o dito tão popular, que assegura: “melhor só, que mal acompanhado”.

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