segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A picanha argentina e a bunda brasileira

                                                                                                          


Picanha argentina, servida nos melhores restaurantes brasileiros.

 


Bunda genuinamente brasileira.                                     

 

 

 

Arroz de cuxá, bode ao leite de coco, baião-de-dois com farofa de pirarucu misturada com cebola roxa, tutu a mineira, arroz de capote, cavala ao molho de camarão, carne de sol de carneiro, peixe a escabeche... e por aí vai.

Essas são algumas comidas típicas da culinária regional brasileira. E não falamos em galinha caipira a cabidela, sarapatel, sarrabulho, buchada de carneiro e de bode, arroz a carreteiro e muito menos de feijoada, que é algo que se come em qualquer lugar do Brasil – diferenciando apenas na forma de preparar e servir.

Também não podemos esquecer a costeleta de porco, o cupim de boi, a dobradinha (que é uma comida tipicamente portuguesa, embora com outro nome), o bacalhau preparado de várias formas, nem o tradicional churrasco.

Entretanto, capítulo à parte para a picanha. E, sobe ao pódio para ocupar lugar de destaque, a picanha argentina que, quando é preparada, assada e servida por quem sabe o que faz, se torna algo imbatível.

Quem come carne, sabe que picanha não é uma carne simples, tampouco popular. Picanha argentina, então, é algo “top” – para usar uma linguagem mais jovial e atualizada

Mas, seguramente, o segredo para a boa qualidade da picanha argentina é o pasto que alimenta o bovino. Pampa é um nome de origem dado à região pastoril de planícies com coxilhas. Abrange a metade meridional do estado do Rio Grande do Sul, ocupando 63% do território gaúcho. Estende-se pelos territórios do Uruguai e pelas províncias argentinas de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Entre Rios e Corrientes.

Nessas áreas a pastagem é melhor e os animais não tem que fazer muito esforço para caminhar, possibilitando que seus músculos não enrijeçam.

A picanha é um tipo de corte de carne bovina tipicamente brasileira. A origem do nome picanha vem do talhante italiano, nomeado do corte picatta . Esta vara, chamada picana (em espanhol), possuía um ferrão na ponta e servia para picar o gado na parte posterior da sua região lombar. Com o passar do tempo esta região do animal passou a ser chamada picana e posteriormente picanha. Recentemente, o aumento da variedade de cortes de carnes suínas originado de ações promovidas pelos suinucultores fez surgir um novo corte para os admiradores deste tipo de carne, que recebeu o nome de picanha suína.

A Argentina produz as melhores picanhas do mundo.

Mas... e a bunda?

Bem, “na bunda”, a Argentina perde e é longe!

Certa vez, vendo uma peça teatral não lembro mais aonde, a atriz na cena se apalpava toda e dizia a fala:

- Brasileiro gosta mesmo é de peitos grandes, coxas grossas e bunda grande!

Nem tanto. Eu – falo por mim – acho que brasileiro gosta mesmo é dessas coisas aí de cima, mas que sejam também bonitas. Veja que bunda bonita esta que ilustra esta matéria. E nem é tão grande assim. É “apenas” mediana, durinha e muito bem cuidada e, com certeza, adorada pelos sofás, cadeiras e vasos sanitários e pelos homens que gostam.

Veja o que diz Gilberto Freyre a respeito da bunda brasileira.  De onde vem o encanto do brasileiro pela bunda? O professor Gilberto Freyre, que estudou nossas raízes sociológicas em Casa-Grande & Senzala, aceitou o desafio de investigar as origens dessa magnífica preferência num ensaio. Por motivos de espaço, transcrevemos os principais trechos e resumimos algumas partes do estudo, erudito, de 26 páginas. Erudito, mas que nem por isso evita a ressonante palavra. Lembra alguns sinônimos, principalmente nordestinos, como bagageiro, balaio, banjo, bomba, bubu, além dos tradicionais rabo, traseiro, pop, rabic bumbum, tralal e outros.

Gilberto faz uma análise e tira conclusões: o brasileiro tem suas razões para gostar de bunda.  Pode não saber quais, mas tem.  Vamos a elas.

“Do andar afrodisíaco das bundas ondulantes - E aqui observação de Havelock Ellis, quanto a uma das superioridades da mulher ibérica sobre as ortodoxamente europeias estar na assimilação, pela ibérica, de remota influência africana do andar, como se dançasse. Um movimento de bundas bastante amplas para permitirem essa ondulação como que afrodisíaca de andar.

A grande número de mulheres brasileiras, a miscigenação pode-se sugerir ter dado ritmos de andar e, portanto, de flexões de nádegas, susceptíveis de ser considerados afrodisíacos. Atente-se nesses ritmos, em cariocas miscigenadas, em confronto com as beldades argentinas que o observador tenha acabado de admirar. Os ritmos de andar da miscigenada brasileira chegam a ser musicais, na sua dependência de bundas moderadamente ondulantes. Para Havelock Ellis, o andar da mulher mais tipicamente ibérica, em contraste com a da ortodoxamente europeia teria alguma coisa de graciosa qualidade de um corpo felino inteiramente vivo.

O homem médio brasileiro não pode deixar de ser sensível pela imensidade de provocações que o rodeiam. Não tanto ao vivo, como por meio de anúncios de revistas ilustradas, que se vêm esmerando na utilização de reproduções coloridas de bundas nuas, como atrativos para uma diversidade de artigos. No Brasil de hoje, uma enorme comercialização da imagem da bunda de mulher em anúncios atraentes. Estéticos uns, alguns lúbricos. Também se vem fazendo esse uso na televisão. E, sonoramente, em músicas apologéticas da beleza da bunda de mulher. O sexo da mulher vem, através dessa comercialização da bunda em anúncios, quase perdendo, em publicidade apologética, para esse nada insignificante rival, no Brasil. – Gilberto Freyre”.

 

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