Engenho Central construído pelos ingleses foi o coração
de Pindaré-Mirim até 1910.
Tem coisas na vida que a gente precisa contar. Contar
bem direitinho para que pessoas da geração atual consigam compreender e fiquem
registradas para os que ficarão e até para os que um dia virão. Brincando, eu
diria até que, imitando os atuais, “tem coisas que a gente precisa até
desenhar”.
Faz muito tempo que os filmes americanos mostravam
aquelas confusões todas, quando, no faroeste estavam sendo construídas
ferrovias, cidades e outros, para impulsionar o desenvolvimento. Aquela
balbúrdia desorganizada (perdoem a redundância, mas ela é necessária, aqui)
aparentando um descontrole total nas ações do trabalho.
Imagine um porto sem a estrutura mecanizada de hoje,
com estivadores se atropelando (eles ganhavam por volumes carregados), se
encontrando em meio às necessidades de descarregar trens, botes e navios e carregar
outros tantos.
Os locais cobertos pela fumaça, animais transportando cargas
e aquela barafunda que, para alguns, significava “desenvolvimento” na produção
de alimentos e na forma de resolver muitas coisas. Como se fazia antigamente.
Assim, hoje, escolhemos falar não dessa desorganização
de trabalhadores. Queremos falar da importância que teve para o Maranhão, nos
áureos tempos, o Engenho Central, local onde a vida era impulsionada como se
fora a artéria aorta dos seres humanos.
Pois, conforme dados encontrados em pesquisa, o Engenho
Central de Pindaré-Mirim foi “criado” em 1880, através do Decreto-Lei 7.811 do
dia 31 de agosto daquele ano. Foi construído à margem do rio Pindaré num
terreno que, antes, pertencera à Colônia de São Pedro, naqueles anos habitada
pelos índios Guajajaras. O Engenho Central também era conhecido como Companhia
Progresso Agrícola.
O projeto e comando da obra estiveram a cargo do
técnico inglês Robert Collond, que, na época trabalhava para a empresa inglesa
Fawcet Preston & Cia., que fixou também em solo maranhense os trilhos da
primeira ferrovia do Estado, o que auxiliaria no transporte dos produtos
beneficiados no Engenho – que receberia posterior apoio da navegação fluvial
via rio Pindaré.
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Todo o maquinário e aparelhagem
necessários à instalação e funcionamento do Engenho Central foram importados
da Inglaterra pela quantia de 28$000 réis.
Em 1888, ainda por iniciativa da
mesma empresa, foi instalado em Pindaré-Mirim o sistema de iluminação
elétrica, conferindo ao município um pioneirismo no gênero em todo o Brasil -
pois, somente em 1892 foi que a cidade fluminense de Campos foi dotada de
energia elétrica.
O Engenho Central, um dos melhores do
Brasil, possuía 500 carros de boi, 35 carroças, cerca de 50 casas de madeira,
três léguas de terra apta à lavoura e 10 km de via férrea. Hoje, este secular
monumento, com sua tradicional chaminé, seus paredões em alvenaria, seu teto
laminado sobre custosa estrutura de ferro, é um dos últimos representantes do
sistema de engenhos centrais instalados no Brasil durante o Império. Ainda é
localizado na Avenida Elias Haickel, esquina com Praça São Pedro, Centro, em
Pindaré-Mirim.
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Nos dias atuais, fora de atividade há
muitos anos, o Engenho Central continua sendo uma referência no município que
foi de grande importância para o crescimento da agricultura do Estado e de
quase tudo que se dispunha naqueles tempos.
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Foi na efervescência dos anos 60,
mais precisamente em 1967, que Pindaré-Mirim e por consequência o Engenho Central
entrou numa fase decadente na dependência do beneficiamento e exportação dos
produtos que ali chegavam (cana-de-açúcar, algodão, arroz, milho e mandioca),
quando, no dia 14 de março foi criado o município de Santa Inês, antes
conhecido apenas como “Ponta de Linha”, pois era ali que terminava a linha
férrea do ramal. Santa Inês foi parte de Pindaré-Mirim.
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Com o encerramento das atividades produtivas do Engenho Central, por volta de 1910, a população de “Ponta da Linha” passou a dedicar-se à cultura de algodão, arroz, milho e mandioca, porém continuou dependendo de Pindaré-Mirim, a quem era subordinada administrativamente e por onde sua produção era escoada.
Muito procurado por famílias nordestinas, que constituem atualmente, com seus descendentes, mais da metade da população local, o povoado cresceu rapidamente, a ponto de, no início da década de 60, tornar-se mais importante, em termos demográficos e econômicos, do que a sede do município a que pertencia.
Hoje, de acordo com o
IBGE, pelo censo de 2014, Santa Inês tem 82.680 habitantes, enquanto
Pindaré-Mirim conta com apenas 32.236.
Inacreditavelmente, a partir da emancipação de Santa
Inês, Pindaré-Mirim – ainda que menos populoso, mas nem menos importante –
começou a aproveitar o que o horizonte da vida lhe oferecia. E desabrochou,
culturalmente.
Não imagine que o Engenho Central não tem nenhuma
relação com a cultura que desabrochou em Pindaré-Mirim. Foi ali, exatamente na
área interna desocupada do Engenho Central, que surgiram os primeiros “urros do
boi” Mimoso, prosa e magia cultural de Coxinho.
“Lá
vem meu boi urrando,
subindo o vaquejador,
deu um urro na porteira,
meu vaqueiro se espantou,
o gado da fazenda
com isso se levantou.
Urrou, urrou, urrou, urrou
meu novilho brasileiro
que a natureza criou...”
subindo o vaquejador,
deu um urro na porteira,
meu vaqueiro se espantou,
o gado da fazenda
com isso se levantou.
Urrou, urrou, urrou, urrou
meu novilho brasileiro
que a natureza criou...”
Da mesma forma, foi exatamente no dia 10 de fevereiro
daquele ano de 1910 – quando o Engenho Central parou de funcionar e beneficiar
produtos da agricultura maranhense – que em Pindaré-Mirim nasceu Maria José
Camargo Aragão, que se tornaria médica e conhecida Brasil à fora.
A médica Maria Aragão iniciou sua carreira como pediatra, mas fez carreira como ginecologista. Formou-se em medicina pela Universidade do Brasil, do Rio de Janeiro. Sua história tem origem na extrema pobreza, mas ela logo parte em busca da superação da fome, do preconceito (por ser negra e mulher no inicio do seculo passado), da agressão e da perseguição do sonho de ajudar a humanidade. Dotada de um grande senso de liderança, enfrentou as oligarquias políticas, em pleno regime militar na década de 60, e sofreu as perseguições promovidas pela ditadura.
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