segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Engenho da vida





Engenho Central construído pelos ingleses foi o coração de Pindaré-Mirim até 1910.

 

Tem coisas na vida que a gente precisa contar. Contar bem direitinho para que pessoas da geração atual consigam compreender e fiquem registradas para os que ficarão e até para os que um dia virão. Brincando, eu diria até que, imitando os atuais, “tem coisas que a gente precisa até desenhar”.

Faz muito tempo que os filmes americanos mostravam aquelas confusões todas, quando, no faroeste estavam sendo construídas ferrovias, cidades e outros, para impulsionar o desenvolvimento. Aquela balbúrdia desorganizada (perdoem a redundância, mas ela é necessária, aqui) aparentando um descontrole total nas ações do trabalho.

Imagine um porto sem a estrutura mecanizada de hoje, com estivadores se atropelando (eles ganhavam por volumes carregados), se encontrando em meio às necessidades de descarregar trens, botes e navios e carregar outros tantos.

Os locais cobertos pela fumaça, animais transportando cargas e aquela barafunda que, para alguns, significava “desenvolvimento” na produção de alimentos e na forma de resolver muitas coisas. Como se fazia antigamente.

Assim, hoje, escolhemos falar não dessa desorganização de trabalhadores. Queremos falar da importância que teve para o Maranhão, nos áureos tempos, o Engenho Central, local onde a vida era impulsionada como se fora a artéria aorta dos seres humanos.

Pois, conforme dados encontrados em pesquisa, o Engenho Central de Pindaré-Mirim foi “criado” em 1880, através do Decreto-Lei 7.811 do dia 31 de agosto daquele ano. Foi construído à margem do rio Pindaré num terreno que, antes, pertencera à Colônia de São Pedro, naqueles anos habitada pelos índios Guajajaras. O Engenho Central também era conhecido como Companhia Progresso Agrícola.

O projeto e comando da obra estiveram a cargo do técnico inglês Robert Collond, que, na época trabalhava para a empresa inglesa Fawcet Preston & Cia., que fixou também em solo maranhense os trilhos da primeira ferrovia do Estado, o que auxiliaria no transporte dos produtos beneficiados no Engenho – que receberia posterior apoio da navegação fluvial via rio Pindaré.

Todo o maquinário e aparelhagem necessários à instalação e funcionamento do Engenho Central foram importados da Inglaterra pela quantia de 28$000 réis.
Em 1888, ainda por iniciativa da mesma empresa, foi instalado em Pindaré-Mirim o sistema de iluminação elétrica, conferindo ao município um pioneirismo no gênero em todo o Brasil - pois, somente em 1892 foi que a cidade fluminense de Campos foi dotada de energia elétrica.
O Engenho Central, um dos melhores do Brasil, possuía 500 carros de boi, 35 carroças, cerca de 50 casas de madeira, três léguas de terra apta à lavoura e 10 km de via férrea. Hoje, este secular monumento, com sua tradicional chaminé, seus paredões em alvenaria, seu teto laminado sobre custosa estrutura de ferro, é um dos últimos representantes do sistema de engenhos centrais instalados no Brasil durante o Império. Ainda é localizado na Avenida Elias Haickel, esquina com Praça São Pedro, Centro, em Pindaré-Mirim.
Nos dias atuais, fora de atividade há muitos anos, o Engenho Central continua sendo uma referência no município que foi de grande importância para o crescimento da agricultura do Estado e de quase tudo que se dispunha naqueles tempos.
 
Foi na efervescência dos anos 60, mais precisamente em 1967, que Pindaré-Mirim e por consequência o Engenho Central entrou numa fase decadente na dependência do beneficiamento e exportação dos produtos que ali chegavam (cana-de-açúcar, algodão, arroz, milho e mandioca), quando, no dia 14 de março foi criado o município de Santa Inês, antes conhecido apenas como “Ponta de Linha”, pois era ali que terminava a linha férrea do ramal. Santa Inês foi parte de Pindaré-Mirim.

Com o encerramento das atividades produtivas do Engenho Central, por volta de 1910, a população de “Ponta da Linha” passou a dedicar-se à cultura de algodão, arroz, milho e mandioca, porém continuou dependendo de Pindaré-Mirim, a quem era subordinada administrativamente e por onde sua produção era escoada.

Muito procurado por famílias nordestinas, que constituem atualmente, com seus descendentes, mais da metade da população local, o povoado cresceu rapidamente, a ponto de, no início da década de 60, tornar-se mais importante, em termos demográficos e econômicos, do que a sede do município a que pertencia.

Hoje, de acordo com o IBGE, pelo censo de 2014, Santa Inês tem 82.680 habitantes, enquanto Pindaré-Mirim conta com apenas 32.236.

Inacreditavelmente, a partir da emancipação de Santa Inês, Pindaré-Mirim – ainda que menos populoso, mas nem menos importante – começou a aproveitar o que o horizonte da vida lhe oferecia. E desabrochou, culturalmente.

Não imagine que o Engenho Central não tem nenhuma relação com a cultura que desabrochou em Pindaré-Mirim. Foi ali, exatamente na área interna desocupada do Engenho Central, que surgiram os primeiros “urros do boi” Mimoso, prosa e magia cultural de Coxinho.

“Lá vem meu boi urrando,
subindo o vaquejador,
deu um urro na porteira,
meu vaqueiro se espantou,
o gado da fazenda
com isso se levantou.
Urrou, urrou, urrou, urrou
meu novilho brasileiro
que a natureza criou...”

 

Da mesma forma, foi exatamente no dia 10 de fevereiro daquele ano de 1910 – quando o Engenho Central parou de funcionar e beneficiar produtos da agricultura maranhense – que em Pindaré-Mirim nasceu Maria José Camargo Aragão, que se tornaria médica e conhecida Brasil à fora.

A médica Maria Aragão iniciou sua carreira como pediatra, mas fez carreira como ginecologista. Formou-se em medicina pela Universidade do Brasil, do Rio de Janeiro. Sua história tem origem na extrema pobreza, mas ela logo parte em busca da superação da fome, do preconceito (por ser negra e mulher no inicio do seculo passado), da agressão e da perseguição do sonho de ajudar a humanidade. Dotada de um grande senso de liderança, enfrentou as oligarquias políticas, em pleno regime militar na década de 60, e sofreu as perseguições promovidas pela ditadura.

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