sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O cântico e o canto das patativas



Quase meio-dia. O sol inclemente queima o quengo e faz evaporar até o suor que corre pela face. O chapéu de palha ameniza e filtra os raios infravermelhos mas não impede que que o juízo do matuto cozinhe como se estivesse numa panela sobre trempes com o fogo inclemente. É o sertão e o seu sol – para purificar e dignificar o trabalho manual do sertanejo.

Não tão longe dali – a alguns dias de viagem de ônibus; outros tantos de viagem de carro de passeio; poucas horas de viagem de avião; e a apenas alguns segundos de viagem no pensamento – está Brasília, o Centro das Decisões que, todos os dias perde identidade e vira o Centro das Indecisões.

Da comodidade e do conforto do ar refrigerado, dá perfeitamente para escutar o barulho do gume da enxada no chão:

- Roc, roc, roc, insiste o homem em preparar a terra para lhe servir de apoio na produção de alimento, mas, certamente um dia vai lhe servir de última moradia.

E a enxada continua no seu roc, roc, roc.

Uma das mãos ajuda a apoiar o anoréxico corpo no cabo da enxada, enquanto a outra retira o chapéu da cabeça e permite um olhar profético para as nuvens claras que os ventos carregam com força de tempestade.

- Deus, tende piedade de nós! Mande uma chuvinha pra molhar o meu chão para que eu possa alimentar a família. É a única coisa que lhe peço, porque é a única coisa que tenho.

E a enxada volta ao roc, roc, roc. Uma parada repentina para enxugar o suor, propicia escutar em algum canto próximo dali, o cântico da patativa.

Sporophila leucoptera - Vulgarmente conhecido como patativa chorona é um pássaro da Amazônia. Aparece em outras regiões e também em alguns países da América do Sul. É um pássaro de porte pequeno (12,5 cm) e de cores branca (parte da asa e toda a parte inferior, indo da base inferior do bica até as penas iniciais da cauda) e preto-cinza sobre o resto do corpo; tem o bico de cor preta, mas há espécies com cores e canto diferentes como a Sporophila plumbea (em inglês: Plumbeous Seedeater). As fêmeas tem a coloração parda. O seu canto é triste e melódico, apresentando-se em diferentes notas antes do canto base, que se apresenta em duas notas suaves e tristes. (Transcrito do Wikipédia)

A sabedoria matuta proveniente do sertão nordestino vive assegurando que a seca que provoca o êxodo rural nada mais é que um “bumerangue”. E, até em letras de músicas já foi dito que, um dia “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Será?

Pois, cantadores e repentistas, sem querer pregar pabulagem vivem afirmando isso. Rogaciano Leite, Oliveira de Panelas, Antônio Conselheiro, Virgulino Lampião e até Patativa do Assaré já cantaram versos que dão esse vaticínio como certeza – será que vai demorar?

Pois, Patativa, cante lá que eu canto cá.

 “Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré nasceu no Município cearense de Assaré, a 5 de março de 1909 e, após pregar sabedoria instintiva, voltou para morrer no Assaré, a 8 de julho de 2002.

Uma das principais figuras da música nordestina do século XX. Segundo filho de uma família pobre que vivia da agricultura de subsistência, cedo ficou cego do olho direito por causa de uma doença. Com a morte de seu pai, quando tinha oito anos de idade, passou a ajudar sua família no cultivo das terras. Aos doze anos, frequentava a escola local, em qual foi alfabetizado, por apenas alguns meses. A partir dessa época, começou a fazer repentes e a se apresentar em festas e ocasiões importantes. Por volta dos vinte anos recebeu o pseudônimo de Patativa, por ser sua poesia comparável à beleza do canto dessa ave.

Indo constantemente à Feira do Crato onde participava do programa da Rádio Araripe, declamando seus poemas. Numa destas ocasiões é ouvido por José Arraes de Alencar que, convencido de seu potencial, lhe dá o apoio e o incentivo para a publicação de seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, de 1956.

Este livro teria uma segunda edição com acréscimos em 1967, passando a se chamar Cantos do Patativa. Em 1970 é lançada nova coletânea de poemas, Patativa do Assaré: novos poemas comentados, e em 1978 foi lançado Cante lá que eu canto cá. Os outros dois livros, Ispinho e Fulô e Aqui tem coisa, foram lançados respectivamente nos anos de 1988 e 1994. Foi casado com Belinha, com quem teve nove filhos. Faleceu na mesma cidade onde nasceu.

Obteve popularidade a nível nacional, possuindo diversas premiações, títulos e homenagens (tendo sido nomeado por cinco vezes Doutor Honoris Causa). No entanto, afirmava nunca ter buscado a fama, bem como nunca ter tido a intenção de fazer profissão de seus versos. Patativa nunca deixou de ser agricultor e de morar na mesma região onde se criou (Cariri) no interior do Ceará. Seu trabalho se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos e guardados na memória, para depois serem recitados. Daí o impressionante poder de memória de Patativa, capaz de recitar qualquer um de seus poemas, mesmo após os noventa anos de idade.” (Transcrito do Wikipédia)

Ora, qual a valia da riqueza, se o povo é miserável e está faminto?

O que motiva a ida à Lua, se, na Terra, o homem morre de fome – o que se pretende descobrir, afinal?

Enquanto Brasília virou o Centro das Indecisões; enquanto emprestam nosso dinheiro a Cuba; enquanto constroem porto em Havana e “compramos” serviços médicos do exterior, o sertão que viraria mar está virando é deserto; nossos salários são corroídos pela inflação galopante; nossos portos essenciais se deterioram e nossos doentes morrem, ainda que medicamentos sejam jogados fora por esgotamento de prazos de validade.

E, no sertão, a enxada continua o seu roc, roc, roc. A chuva não chega, a transposição não chega, a vida não chega – mas chegam a fome, a doença, a velhice e a morte.

E com o sol batendo no quengo, cozinhando os miolos do agricultor que produz nossos alimentos, a enxada continua o seu roc, roc, roc e, bem pertinho dali, a patativa entristece mais ainda o sol do meio dia com o seu cântico desafiador e Patativa do Assaré passa a sua tristeza e indignação (de onde estiver).



O QUE MAIS DÓI

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.
Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.
O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.


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