Fim
de tarde, noite se aproximando e entrando sem precisar pedir licença. Longe,
mas ainda bem audível, o berrante anuncia a aproximação da boiada para o curral
e o descanso – naquele caso, uma preparação para a morte no dia seguinte.
O
aboio se confunde com a apresentação envolvente da “Sinfônica Estadual” no
palco montado da fazenda – onde a peça orquestral é montada pelo produtor
(fazendeiro) e pelo maestro (comprador para o abate). O boi e o público, como
sempre acontece na vida comum, ficam de fora. São apenas números que não somam
na conta.
O
pasto, o sal e a ração já estão no passado. O astro, agora, é o abate – que
produzirá filé, alcatra, maminha, fraldinha, tripas, miúdos, picanhas. É o boi,
abatido. Os urros calaram, substituídos não faz tanto tempo, pelas sinfonias
dos berrantes em avisos que pretendiam dizer: “estamos chegando” mas, na
verdade, traduziam fielmente um anúncio de morte, pelo abate.
Faces
e nuances do sul, centro-oeste e nordeste, mostram as diferenças e as
diferentes ações e entendimentos do criar, tratar e transportar para abater, o
bovino – elemento importante no alimento do brasileiro.
É o pasto que influencia na qualidade da carne bovina –
afirmam os que entendem disso. E, sabe-se agora (e sempre) que o pasto do sul,
incluindo o campo aberto uruguaio e argentino, por ter um pasto de qualidade
diferenciada sem as precipitações do terreno que acabam exigindo esforço maior
do animal, produz uma carne melhor.
“Picanha argentina” para o nortista e nordestino, é o
manjar dos deuses. Não se diz a mesma coisa da “picanha nordestina” – por conta
do pasto oferecido ao bovino e, também por conta do esforço dispendido pelo
mesmo para conseguir se alimentar. O esforço produz o músculo e esse prejudica
a qualidade da carne.
Mas, se assim for a verdade, o que dizer da tão
musculosa carne caprina?
As carnes caprinas e ovinas do sul (entrando pelo
espaço argentino e uruguaio) são de qualidades superiores aos bodes, cabras,
ovelhas e carneiros do Norte/Nordeste?
Há controvérsias. E, se o pasto do sul é melhor para o
bovino, garantindo a produção de uma carne de qualidade superior, por que o
sabor das carnes ovinas e caprinas não acompanha o sabor da carne bovina?
Carne de bode, de ovelha ou de carneiro do Piauí e do
interior do Ceará, em sabor e textura (provavelmente por conta do que esses
animais têm como pasto), bate de goleada essa mesma carne produzida no sul.
Diferente dos belos e verdes campos do sul, o boi e o
vaqueiro nordestinos vivem numa inóspita caatinga formada pelo acinzentado da
ressequida folhagem entremeada por espinhos e terrenos irregulares que também
tem como habitantes, cascavéis, escorpiões, aranhas caranguejeiras, morcegos e
outros de igual veneno.
Isso, sem contar o pior dos adversários: a seca.
Acreditem: diz o sertanejo que é a seca nordestina que “melhora” e “dignifica”
a carne do bode. Pode ser verdade – tanto que, sabe-se, a melhor carne caprina
é a do Piauí. E, entre todos os estados brasileiros, não existe Estado mais
inóspito que o Piauí.
Esse estado de sofrimento do vaqueiro nordestino – sem
pretender perpetuar essa desigualdade mas, ao contrário, reconhece-la como
conquista, é comemorando e celebrado anualmente no Maranhão, mais propriamente
no município de Vargem Grande, com a realização dos Festejos de São Raimundo
Nonato dos Mulundus. Voltaremos a falar nesses festejos noutra oportunidade.
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