- Par ou ímpar!?
- Par!
- Dois teu, com três meu. Ímpar! Ganhei.
- Tiro o Cotôco!
- O Cotôco era o meu preferido, mas tiro o Gabão.
- Eu tiro o Nato,
- Eu fico com o Dadá!
Era assim, todas as tardes, que começava a pelada no
campinho de terra batida, sem qualquer marcação. Os traves, uns gravetos ou
camisas e chinelos. Não tinha Árbitro nem placar e ganhava quem fizesse mais
gol quando a claridade se transformasse numa escuridão que não permitia mais
ver a bola – na verdade, um amontoado de molambos envolvendo uma bola de
borracha da marca Mercur. A envoltura
com molambos era para evitar que “ardesse” nas costas, principalmente quando
estivesse chovendo.
Era ali, naquele campinho, que nasciam os craques e se
ficava muito longe do crack. Os gestores – que certamente nunca viveram esse
tempo – precisam saber disso como caminho mais curto para acabar com a
violência entre os jovens e a preferência pelas drogas. Droga é coisa de
desocupado – de quem não tem sequer um espaço para jogar bola.
E, se o governo não olhar para isso, começa a ser rotulado
como conivente ou parceiro de quem trafica – é só o que se pode pensar de quem
não faz nada para tirar a meninada do ócio e da droga. O craque não aceita o
crack.
Quem já conseguiu olhar alguma foto das mãos do
ex-goleiro Manga, vai ver que, todos os dez dedos são quebrados. Quebrados
pelas bolas. Nos tempos em que Manga jogava, não havia luvas, os jogadores
realmente chutavam forte, e a bola era de couro. Couro de vaca.
Nessa foto que postei, do zagueiro Belini, o sangramento
não foi cotovelada, como acontece hoje. Foi uma bolada. Foi num jogo do Vasco
da Gama contra o Palmeiras e o chute foi de Jair da Rosa Pinto.
A bola de couro, quando ficava molhada, aumentava de
peso. Ficava difícil para qualquer goleiro pegar e segurar. Mas, Manga,
Barbosa, Castilho, Harry Carey, Garcia a pegavam e seguravam. Nem dá para
imaginar a violência e a força de um chute desferido por Jair da Rosa Pinto,
Rivelino, BCC, Quarentinha, Nelinho, Antonino, Mesquita.
Agora, imagine você, com essa bola de couro, alguém
conseguir dá-lhe curvas e efeitos como fazia Didi, o inventor da folha-seca. Um
Mestre no bater na bola para que elas fizessem as curvas que ele queria.
A
bola
– A bola é um instrumento de lazer. Quem a inventou não era um gênio nem tem
reconhecimento, porque isso nunca foi projeto de governo algum e provavelmente
é por conta disso que os governantes do mundo inteiro nunca lhe deram a devida
atenção e valor.
A bola não é apenas um elemento de socialização porque
em torno dela se reúnem crianças, jovens, adultos e idosos. É algo que agrega
pessoas em torno de si próprio. É um dos mais fortes instrumentos de combate à
violência, por que ocupa o espaço do ócio.
A bola é um forte repelente às drogas – é necessário
que governantes entendam isso e propiciem muito mais espaços para a prática do
futebol. Principalmente o futebol desorganizado que todos pratiquem por gostar
e jamais por obrigação.
Mas, como seria bom se voltassem os tempos da bola de
couro. Couro de vaca. Correndo firme e rasteira pela grama dos campos da vida.
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