terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O tempo do vinil



Moncho era um grande amigo. Faleceu quando tinha pouco mais de 40 anos de idade. Nunca ninguém gostou mais de ouvir música que ele – mereceria qualquer prêmio instituído por qualquer gravadora. Colecionava vinis de forma alucinada, e muitas vezes, por conta da quantidade que possuía, comprava sem que tivesse tempo para ouvir.



Sim, porque Moncho trabalhava. Trabalhava duro – e era assim que comprava seus vinis. Quem lhe presenteasse com o long-play em qualquer ocasião, comprava a sua alma. Mas, havia quem lhe presenteasse com aquelas escovas aveludadas e óleos especiais para limpeza dos vinis. Ele vibrava.

Qualquer coisa da casa de Moncho podia dar algum problema. Menos a vitrola que, para garantir que só ele manuseava, mandou construir uma redoma e pôs um cadeado com as chaves guardadas em cofres de alta segurança.  Moncho era, por assim dizer, um tarado. Tarado por música e por vinis.



Moncho era um inveterado colecionador, e tinha o hábito de passar as manhãs de domingo limpando e ouvindo seus discos. Fanático pelas músicas de Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Miltinho, Orlando Silva. Era apaixonado por Emilinha Borba, de quem possuía todos os discos – e, nesse particular, a cantora não gravara tantos vinis assim.



Moncho chegou a comprar dicionários e livros que ensinavam o idioma inglês, apenas para destrinchar o que diziam as letras das músicas das terras de Tio Sam e da Rainha Elizabeth. Moncho tinha verdadeira alucinação por essa música que segue:



Não, não pense que Moncho era alguém com problemas mentais. Moncho era aquele homem de meia idade que sabia o que queria. Trabalhava, produzia algo útil e relevante. Tinha uma vida normal e, se é que isso pode ser considerado defeito, seu maior “defeito” era gostar de música. De ouvir música, diga-se.

Nas manhãs de domingos, ouvia música na radiola enquanto limpava os já muito limpos e conservados discos de vinil – fazia isso, sempre, depois que regressava da missa matinal e enquanto esperava o almoço.

No começo das noites de sábado Moncho se preparava para sair de casa. Dar uma volta e espairecer – e até “procurar” uma namorada que o aceitasse com suas manias. Vestido de forma esmerada com uma calça de gabardine cinza-escuro e uma camisa de cambraia de linho de um amarelo suave, “engomada” com grude leve e colarinho impecável. No cabelo penteado com esmero e paciência com aquele pente Flamengo, a brilhantina Glostora.

Como ainda não haviam inventado o desodorante, nas axilas usava talco Cashemere Bouquet e perlo corpo usava o perfume francês Ramage.

Destino: buates da cidade, para escutar discos de Vicente Celestino, Ângela Maria, Carlos Alberto, Miltinho (... você mulher, que já viveu, que já sofreu, não minta!...) e Nelson Gonçalves, o seu favorito.

Quando menos se esperava, numa manhã de domingo, depois de regressar da costumeira missa matinal, Moncho entrou no “estúdio” e ligou a radiola. Pôs a tocar o long play que costumava escutar apenas nas horas de muita alegria ou muita tristeza. Moncho era, também, fã incondicional de Frank Sinatra e parava de fazer qualquer coisa que lhe tomasse o tempo, para ouvir os graves do cantor americano na música New York, New York.

Entretanto, naquela manhã, o som que vinha do “estúdio” era o de violinos. Alguém resolveu abrir a porta do “estúdio” de Moncho e percebeu que, em vez de continuar limpando os discos, ele estava sentado na cadeira de palhinha, com os dois braços abertos – um para cada lado – e a escovinha que usava para a limpeza dos vinis, jogada ao chão.

Moncho jazia. Um infarto fulminante e musicado o levou para junto de Frank Sinatra.




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