Moncho
era um grande amigo. Faleceu quando tinha pouco mais de 40 anos de idade. Nunca
ninguém gostou mais de ouvir música que ele – mereceria qualquer prêmio
instituído por qualquer gravadora. Colecionava vinis de forma alucinada, e
muitas vezes, por conta da quantidade que possuía, comprava sem que tivesse
tempo para ouvir.
Sim,
porque Moncho trabalhava. Trabalhava duro – e era assim que comprava seus
vinis. Quem lhe presenteasse com o long-play em qualquer ocasião, comprava a
sua alma. Mas, havia quem lhe presenteasse com aquelas escovas aveludadas e
óleos especiais para limpeza dos vinis. Ele vibrava.
Qualquer
coisa da casa de Moncho podia dar algum problema. Menos a vitrola que, para
garantir que só ele manuseava, mandou construir uma redoma e pôs um cadeado com
as chaves guardadas em cofres de alta segurança. Moncho era, por assim dizer, um tarado.
Tarado por música e por vinis.
Moncho
era um inveterado colecionador, e tinha o hábito de passar as manhãs de domingo
limpando e ouvindo seus discos. Fanático pelas músicas de Nelson Gonçalves,
Altemar Dutra, Miltinho, Orlando Silva. Era apaixonado por Emilinha Borba, de
quem possuía todos os discos – e, nesse particular, a cantora não gravara
tantos vinis assim.
Moncho
chegou a comprar dicionários e livros que ensinavam o idioma inglês, apenas
para destrinchar o que diziam as letras das músicas das terras de Tio Sam e da
Rainha Elizabeth. Moncho tinha verdadeira alucinação por essa música que segue:
Não,
não pense que Moncho era alguém com problemas mentais. Moncho era aquele homem
de meia idade que sabia o que queria. Trabalhava, produzia algo útil e
relevante. Tinha uma vida normal e, se é que isso pode ser considerado defeito,
seu maior “defeito” era gostar de música. De ouvir música, diga-se.
Nas manhãs de domingos, ouvia música na radiola
enquanto limpava os já muito limpos e conservados discos de vinil – fazia isso,
sempre, depois que regressava da missa matinal e enquanto esperava o almoço.
No começo das noites de sábado Moncho se preparava para
sair de casa. Dar uma volta e espairecer – e até “procurar” uma namorada que o
aceitasse com suas manias. Vestido de forma esmerada com uma calça de gabardine
cinza-escuro e uma camisa de cambraia de linho de um amarelo suave, “engomada”
com grude leve e colarinho impecável. No cabelo penteado com esmero e paciência
com aquele pente Flamengo, a brilhantina Glostora.
Como ainda não haviam inventado o desodorante, nas
axilas usava talco Cashemere Bouquet e perlo corpo usava o perfume francês
Ramage.
Destino: buates da cidade, para escutar discos de
Vicente Celestino, Ângela Maria, Carlos Alberto, Miltinho (... você mulher, que
já viveu, que já sofreu, não minta!...) e Nelson Gonçalves, o seu favorito.
Quando menos se esperava,
numa manhã de domingo, depois de regressar da costumeira missa matinal, Moncho
entrou no “estúdio” e ligou a radiola. Pôs a tocar o long play que costumava
escutar apenas nas horas de muita alegria ou muita tristeza. Moncho era,
também, fã incondicional de Frank Sinatra e parava de fazer qualquer coisa que
lhe tomasse o tempo, para ouvir os graves do cantor americano na música New
York, New York.
Entretanto, naquela
manhã, o som que vinha do “estúdio” era o de violinos. Alguém resolveu abrir a
porta do “estúdio” de Moncho e percebeu que, em vez de continuar limpando os
discos, ele estava sentado na cadeira de palhinha, com os dois braços abertos –
um para cada lado – e a escovinha que usava para a limpeza dos vinis, jogada ao
chão.
Moncho jazia. Um
infarto fulminante e musicado o levou para junto de Frank Sinatra.
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