Cordel de Abraão Batista
Escrito em
abril de 1985
A
existência na terra
É mistério
impensável
Nasce um, e
morre outro
No sofrível
ou insuportável
Uns
sorrindo, outros cantando;
Uns da vida
se lastimando
Por ser
esta muito instável.
Uns sobem e
descem a ladeira
Com rara
naturalidade
Outros não
querem aceitar
Da vida a
realidade
Por isso,
esses se estrepam
E as dores
neles se trepam
Com toda a
velocidade.
E é
justamente por isso
Que
escrevo, eu dessa vez
Buscando a
vida passada
Em
território chinês;
Não sei se
pra lá ou pra cá
Mas foi
numa cidade Chambá
No ano um,
dois ou três...
Nessa
cidade Chambá
Existia um
fazendeiro
Poderoso,
bom e valente
Dono de
muito dinheiro
Tinha gado
e tinha terras
Sete açudes
e duas serras
E por cima,
hospitaleiro.
Esse
fazendeiro possuía
Um
excelente coração
Sua casa da
fazenda
Era como a
de Salomão
E o povo da
redondeza,
Disse a
minha certeza:
O queria
como irmão.
Na fazenda
ele tinha
No
serviço um capataz
Que o
atendia muito bem,
Um belo e
moço rapaz
Com 18 anos
de idade
Por isso
até na cidade
Se expandia
o seu cartaz.
Esse rapaz,
do fazendeiro
É quem
fazia todo recado
Na cidade
de manhãzinha
Ele ia para
o mercado
Comprar
carne e verdura
Tempero e
rapadura
Sem nunca
mostrar enfado.
Numa manhã
esse rapaz
No mercado,
ele avistou
Num recanto
de parede
Que quase
se assombrou
A morte bem
pensativa
Olhando-o radiativa...
E depressa
se afastou.
Fugiu de
perto, com medo
O nosso
belo rapaz
Para a
fazenda do patrão
Como um
verdadeiro az
E dentro do
casario
Ele ficou
muito sombrio
O que não
era contumaz.
No outro
dia bem cedo
Ao mercado
ele voltou
Par fazer o
de costume,
As compras
todas comprou
Mas lá
estava num canto
A morte,
com olhar de espanto
Que o pobre
quase tombou.
Correndo
fez suas compras
Se
escondendo na multidão
do olhar
faminto da morte
com olhar
de escuridão,
pois
novamente correu
e nunca
mais se esqueceu
daquela
horrível visão!
No outro
dia o mesmo
Com o rapaz
aconteceu...
Fez as
compras depressa,
Para a
fazenda correu
E em casa
esse coitado
Ficou muito
assombrado
Nem sequer
água bebeu!
Os amigos
vendo aquilo
Para ele
lhe perguntaram
Mas o rapaz
muito calado
Sua
história se ignoravam;
Assim, ele
foi definhando
Consigo se
lastimando
Com os dias
que lhes restavam.
No quarto
dia, o patrão
Chegou pra
ele e indagou,
Meu rapaz
quero saber
Porque você
se reservou
Anda
triste, encabulado
Não come,
anda invocado
Quem foi
que o machucou?
Não é
nada!... Disse o rapaz
Olhando
para o patrão
O que? –
Com a sua cara
Se vê que
seu coração
Está
triste, muito confuso
E dentro
desse meu uso
Quero lhe
dar a proteção.
O rapaz
ainda quis
Esconder a
realidade
Mas devido
a insistência
Usou da
sinceridade
E foi
dizendo: meu patrão
Estou
perdido! Não sei não...
- Vou
embora dessa cidade!
Vou-me
embora, porque
A morte
quer me matar
Todo dia no
mercado
Ela está a
me esperar
E ainda não
me matou
Porque ela
não me pegou,
E caiu ele
a chorar.
O patrão
disse: não chore
Nós daremos
um jeito nisso
- pegue o
meu cavalo branco
Se apronte
e dê sumiço
Desapareça
da redondeza
Pois com
muita esperteza
Quebramos
dela o feitiço.
Desse jeito
o rapaz fez:
Se aprontou
sem dar demora
Pegou a
roupa que pode
E saiu de
mundo à fora
Com arroz,
carne e farinha
Seis
rapaduras, uma galinha
Sal, café e
boa espora.
O rapaz na
mesma hor4a
Por um
atalho seguiu
No bom
sentido contrário
O seu
trajeto ele viu
Botou um
pano no rosto
Pra ninguém
ver o seu rosto
Foi o que
se deduziu.
Sete dias e
sete noites
Ele andou
sem descançar;
Eu não sei
como o cavalo
Ainda o
podia carregar
Até que em
cidade distante
Ele entrou
triunfante
Pensando
nela ficar.
Num hotel
bem reservado
Confiante
se hospedou
E num quarto
da hospedaria
No último
andar ele ficou;
Abriu a
porta do quarto
Almoçou
ficou bem farto
Fez sua
cama e deitou.
Quando foi
no outro dia
Que o sol
apareceu
O rapaz
abriu os olhos
E veja o
que aconteceu:
A morte
estava no quarto...
E o rapaz sentindo-se
farto
Pulou da
janela e morreu!
Da janela
ele pulou
Se
esparramando no chão
Daí a cinco
minutos
Juntou
grande multidão
Uns diziam
– que mote feia!
Olhem ele
está sem meia...
Estava na
cama, o pobretão!
Por que um
rapaz desse
Toma
decisão dessa assim?
Alguém
dizia – foi empurrado
Deve haver
outro Caim!
Chamem logo
o delegado
E vamos ver
se o finado
É honesto
ou é ruim.
O delegado
chegou logo
Fez o seu
levantamento
Levou o
corpo pro necrotério
Fez
autópsia com instrumento
E disse:
não foi matado
Mandou logo
um recado
Para a
cidade de nascimento.
Mandou um
polícia avisar
Na fazenda
do ex-patrão
Que o rapaz
tinha morrido
Estatelado
no chão
E quando o
soldado chegou
Direito ele
avisou
Com
observável emoção.
O patrão,
com a notícia
Logo a morte
procurou
Onde ela
fazia ponto
E para ela
lhe perguntou –
Por que
matou o meu rapaz?
Você é
filho do satanaz!
Sorrindo, a
morte falou:
Cale a boca
ó meu senhor
Você não
sabe de nada
O patrão
disse: eu não mandei
Que ele
fosse pela estrada?
Será que você
adivinhou
Onde meu
rapaz se hospedou?!
E a morte
deu uma risada...
Ele não
disse a você
Que eu
estava pensativa
Olhando
fixa pra ele
Muito séria
e radiativa?
Pois bem,
eu estava pensando
Como
levá-lo daqui, tramando
Para a
cidade primitiva.
Pois é –
naquela cidade
É que eu
queria o encontrar
E somente
naquele local
É que eu
podia o matar!
Pois
ninguém foge da morte
E nem traça
a própria sorte
E nem bebe
água do mar.
Brasil, país sem líderes
Saído de uma Ditadura que para alguns desmiolados
começa a deixar saudades, o Brasil errou ao escolher o caminho da direita na
bifurcação – mas poderia ter errado mais ainda, se tivesse escolhido o caminho
da esquerda.
Como quase tudo que vive, o Brasil nunca esteve
preparado (há que ser educado e escolarizado – para compreender isso) para
conviver com um regime democrático, por que, desde o seu descobrimento quase
tudo aconteceu sempre por debaixo dos panos, erigido sobre mentiras. Nossos
valores morais são dúbios e inexistentes, por exemplo, se os compararmos com
Austrália, Finlândia, Canadá e Suécia – para ficarmos apenas nesses.
O Brasil saiu de um regime ditatorial e mergulhou num
lago de incompetência administrativa (que, por mais doentio que possa parecer,
levou alguns a desejarem a volta do regime dos anos de chumbo), quando o País
foi “entregue” com rédeas curtas ao José Sarney, tido por nós como
“colaborador” interesseiro do regime militar.
Vieram Collor – cassado; Fernando Henrique – que mudou
um pouco para melhor, mas não atingiu um mediano nível de satisfação ao povo;
e, finalmente esses sonhos delirantes do PT, por dois períodos com o
“inventado” Lula, um com Dilma que já bateu todos os recordes de rejeição em
que pese ter sido reeleita.
Hoje, literalmente à deriva moral e administrativa, o
Brasil tem um ex-Presidente (Lula) em vias de ser oficialmente investigado e
provavelmente punido; um presidente do Senado (Renan), investigado por
envolvimento com o mensalão, o petrolão e com o BNDES; um presidente da Câmara
(Eduardo) em palpos de aranha com provável envolvimento num cabedal incrível de
falcatruas; e, para coroar, uma presidente da República (Dilma) envolvida até o
pescoço com um processo de impedimento. Há quem afirme que, se Dilma não for
impedida por conta das pedaladas fiscais, corre o sério risco de ser cassada
perlo TSE – nesse último caso, Michel Temer iria junto, por ser o parceiro da
chapa eleita.
E, no final da semana passada, num ranking
internacional, o Brasil foi mostrado atrás (além) do Sri Lanka, um país que
ficou independente do Reino Unido a 4 de fevereiro de 1948, proclamou sua
república em 22 de maio de 1972 e tem uma população de 21.128.773, mas um PIB
de US$ 96.527 bilhões e uma Renda per capita de US$ 4.079. O Brasil já
ultrapassou os 200 milhões de habitantes, teve sua república proclamada em 15
de novembro de 1889, depois da independência adquirida no dia 7 de setembro de
1822.
Não temos um líder, e, muito menor é a nossa esperança
de tê-lo.
O que temos são pessoas interessadas em poder. Vale
lembrar a fala profética de Leonel Brizola, quando se referiu a Lula num
pronunciamento: “o Lula, para subir e pelo poder, pisa até no pescoço da
própria mãe.” Olvidaram.
Também não foram poucos os comentários odiosos e
achincalhes contra a atriz Regina Duarte, quando, perguntada sobre suas esperanças
sobre o Governo do PT, ela teria respondido que: “tinha medo. Muito medo.”
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