Hoje cedo, quando abri os olhos e me dei conta da
necessidade de ser eu mesmo, pus os pés no chão e forcei a panturrilha – não a
senti rija como sempre. Senti em mim, naquele momento, uma leveza ímpar,
desconhecida. Se tivesse asas, me sentiria
leve para voar, como os balões nos cânions da Capadócia.
Percebi tanta leveza em mim que, qualquer sopro – nem
precisava ser um vento forte, claro – me levaria a caminhar na areia da praia
banhada pela espuma vinda dos mares da vida e de oceanos mil. Quanta leveza!
Me senti como aquele breve e derradeiro soneto da mais
bela poesia que diz do amor, da vida, da Natureza e da delicadeza do “sim”
saído dos teus lábios, como o pássaro mavioso que acaba de sair janela da
gaiola à fora, voando para repetir o percurso da águia que, na parábola, vivera
como galinha e, assim, no mesmo passo de leveza, reencontrou as asas que lhe
mostraram o caminho da liberdade e da vida.
Estou tão leve, que posso carregar a mim mesmo, e a
tantos “eus” quantos se fizerem necessários.
Me vi pássaro alçando voo, me vi folha seca carregada
pelo vento, me vi ternura pousando no teu ombro desnudo e passeando pelo teu
colo, como se uma carícia de brandura fosse – a leveza em mim mesmo!
Nada me preocupava nem me fazia perceber dia ou noite. Nada me perturbava. Só a leveza – leveza de
mim mesmo.
Longe dali – e eu fazendo da folha carregada pelo vento
um tapete persa voador – me via transportado na leva, semeando bondade, carinho
e minando a vida doutros com a experiência que Deus e a leveza de sentimentos
me auferiram.
Consegues ver a leveza da Vitória-Régia sobre o
profundo lago?
Pois, ali, é o meu assento. Sento, pela leveza de mim e
do acordar e levantar despretensioso. Como a poesia marcante e leve da Cecília.
Veja:
Leveza
(Cecília Meireles)
Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
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