Francisco Augusto de Morais Filho não era nome
conhecido na Bela Vista, bairro da periferia de Fortaleza, ali para as bandas
das Damas e do Coqueirinho. Mas, num raio de 20 mil metros, era difícil
encontrar quem não conhecesse o “Chiquinho da bodega”. Cabra dos bons, daqueles
que vendiam fiado e ainda acreditavam nos fios dos bigodes de alguns como
garantia da venda do fiado.
Na bodega do Chiquinho tinha de tudo um pouco.
Melhoral, sabão Pavão ou Omo em pó, leite Ninho, creolina, pão, rapadura,
toucinho salgado, leite de vaca vendido no copo ou no litro, purgantes, bananas
amadurecidas no carbureto, sardinhas em lata, fígado bovino fresco e até
aquelas inesquecíveis fichas para usar nos telefones orelhões da CTB.
A bodega do Chiquinho não fechava nunca e, na
madrugada, se alguém batesse na porta para comprar remédio ou querosene para a
lamparina, Chiquinho não deixava voltar sem atendimento.
Chiquinho não atendia ninguém nos dias dedicados ao
carnaval – abria apenas na tarde da quarta-feira de cinzas – nem na sexta-feira
santa. Fora disso, abria a bodega até no dia dedicado aos finados.
No balcão de cimento da bodega do Chiquinho nunca
faltavam toucinho salgado, charque, tripa de porco salgada, peixe pirarucu,
camurupim e alguns ossos suínos quebrados e salgados para temperar o feijão.
Chiquinho usava um caderno Avante para anotar os fiados
– não há como um comerciante de bairro não vender fiado. Vende aos amigos e àqueles
que confia. Um detalhe chamava a atenção nas anotações do fiado no caderno.
Chiquinho usava a última capa interna do caderno para anotar alguns nomes a
quem ele não vendia fiado. E, nessa capa do caderno estava escrito com tinta
vermelha da caneta Bic, pomposamente: “Jurubeba”.
Chiquinho tinha atendimento carinhoso e especializado
para alguns fregueses. Seu Luso, Fiscal da Prefeitura, era uma desses que nem
precisava pedir para ser atendido. Quando chegava no balcão, Chiquinho pegava
um copo já limpo, mas fazia questão de lavar (?????!!!!!) numa água que
guardava dentro de uma bacia, numa das prateleiras daquele balcão. Secava o
copo com uma toalha que carregava no ombro, e que usava também para secar o
suor que lhe corria pela face. Cortava um limão com a mesma faca que usava para
cortar o toucinho salgado e o fumo de rolo e, “limpando” na camisa que vestia
uma siriguela “de vez”, servia a dose de Seu Luso.
Como não atender bem um Fiscal da Prefeitura?
Depois que Seu Luso “pegava” aquela talagada, saía de
mansinho em direção ao trabalho. Chiquinho pegava o caderno de anotar os fiados
e lá tascava o valor do atendimento especializado. No final do mês, somava tudo
e deduzia da propina que Seu Luso recebia para fazer vistas grossas às
irregularidades do comerciante.
É assim o Brasil, e nunca deixará de ser assim. Não
adianta querer transformar o Brasil numa Finlândia ou numa Suécia. Nesses
países citados, a grade curricular não tem OSPB – ou outras siglas que designem
o país de origem – porque não há necessidade. O povo já nasce com bons sentimentos
e boas ações e até a babá sabe que, se a fralda usada por uma criança for
jogada em qualquer lugar, ela – e não o bebê mijão ou cagão – vai ser punida.
No Brasil é diferente e espalha-se merda e mijo por tudo que é lado e lago. No
lago Paranoá ou em qualquer lago.
Mas, voltemos à bodega do Chiquinho, onde também vendia
fraldas. Nas as descartáveis por que ainda não eram fabricadas. Vendia as de
pano, laváveis que se punha a secar depois de mergulhadas no anil.
E era isso que sempre me perguntei. Fralda lavada com
sabão em pó, depois fervida numa panela apropriada. Para que o anil?
Incompreensível para a bodega do Chiquinho – e quem
como o Velho Marinheiro, Orlando, Fred Monteiro, Luiz Berto, Xico Bizerra,
Cicim, Aristeu e até a Neide Santos (entregaram você, mulher!) são chegados a
uma talagada “daquela que matou o guarda” – era injustificável que as
prateleiras estivessem cheias de Ypióca, Dandiz, Redenção, Sanhaçu, Velho
Barreiro, Trinca de 3, Colonial e outras marcas conhecidas e, para servir doses
a alguém, Chiquinho recorresse sem a algumas garrafas de “cachaça da Terra – ou
especial” que guardava debaixo do balcão.
E, um dos fregueses que bebiam dessa “cachaça da Terra”,
era exatamente Jurubeba, o eternamente amargo. Jurubeba era aposentado como
Autônomo, embora nunca tivesse trabalhado em coisa alguma. Recebia dinheiro
sempre na primeira semana de cada mês – quando aproveitava para “esquecer” de
pagar algumas contas que eram tocadas para a frente, com a devida aplicação dos
juros de mora.
- Bota uma da Terra, pra eu, Chiquim! Disse Jurubeba
com muita autoridade.
- Pra tu, só pagando adiantado. Teu crédito acabou aqui
nesse mês! Respondeu Chiquinho.
- Intãosse infia essa cachaça no teu rabo,
fela-da-puta! Disse Jurubeba, saindo sem esperar a ação de Chiquinho, que
pegara no balcão o facão com o qual cortava toucinho.
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