Joelhos dobrados
cobertos pelos trapos velhos e macios do dormir, sentada na cadeira velha de
palhinha que herdou da avó Emerenciana, Alice – para a casa, “Alicinha” – sorve
os últimos goles do café torrado e pilado em casa pela mãe Dona Alice Maria,
enquanto, tentando se proteger de um frio apenas imaginário, observa Nonato
arrumar as tralhas para sair para mais um dia de labuta na roça. É rotina.
Só que essa rotina,
hoje, foi emoldurada por uma insistente neblina que mais tarde pode se
transformar numa boa chuva. Queira Deus!
E a rotina mostra a
parentada de Nonato (cunhados, filhos, sobrinhos e agregados – entre eles o
jovem marido de Alicinha) caminhando para a carpina e a preparação da terra
que, graças às chuvas que vão cair, produzirá o básico da agricultura familiar
para o sustento: milho, feijão, mandioca, batata, maxixe, quiabo e melancia.
Tudo faz parecer um filme em repetição na televisão.
A caminhada para a roça é longa, mas rápida. Um
silêncio absoluto domina a fila indiana, onde, quase hábito natural, o primeiro
da fila “conversa” com o último e os entremeados apenas escutam. Parece algo
combinado – mas não é. Isso faz com que a caminhada pareça diminuta, para um
percurso de quatro a cinco quilômetros.
No outro cenário – o da casa – Alice Maria já está no
meio da jornada, que agora conta com a participação mais ativa de Licinha. A
panela de feijão ferve no fogão tocado a lenha. O tempero, por hora, é apenas
sal e banha de porco e alguns nacos da carne de boi separados e salgados para
essa finalidade.
Licinha pegou na despensa dois generosos pedaços de
camurupim (um peixe do mar que habita o mar profundo da costa nordestina do
Brasil) salgado e os transformou em pedaços menores para facilitar o cozimento
e a liberação da quantidade exacerbada do sal, enquanto assa as castanhas de
caju que comporão a moqueca.
Depois de assadas, as castanhas serrão socadas no pilão
(monjolo – para outros), peneiradas e postas de lado para receber o coentro e a
cebolinha com tomates picados.
Observação:
como hoje é domingo, vou parar por aqui com a preparação, para evitar
atrapalhar o almoço de alguns amigos.
No roçado, a neblina
continua caindo sem atrapalhar o trabalho. Linhas de roça são limpas em poucas
horas, enquanto uma dupla prepara as “covas” para o plantio da batata doce e da
mandioca, ao mesmo tempo, que, com dois bornais (um de cada lado) Manim vai
“semeando” para o plantio das manivas e das rodelas da batata.
Nonato pára para dar
uma olhada no que já está pronto e aproveita para limpar o suór salgado que lhe
corre pela face. Aproveita para dar um comando:
- Vamo atochar,
cabrada, prumode a gente terminar esse seuviço hoje!
O sol está quente.
Muito quente. Alguns param para pegar um gole d´água e molhar a garganta – e só
aí percebem que o tempo está passando e a hora do “de comer” está se
aproximando.
Durante o dia, em
casa, ninguém para de trabalhar. Todos têm suas tarefas e as procura executar
com a perfeição rotineira e a filosofia do “é bom para uns e para todos”.
Para apressar o
esfriamento das cascas das castanhas, Licinha cobre com uma leve camada de
terra, pega uma cuia, um pedaço de madeira e um caco de telha quebrada e começa
a “descascar” as castanhas, uma atividade que, pela prática dela, não demora
muito.
Nisso, Alice Maria já
começa a pilar as castanhas assadas, numa forma de apressar o preparo do almoço
do “trabaiadores no roçado”. O almoço logo fica pronto: moqueca de camurupim,
feijão de corda, farofa de cuscuz de milho, pedaços de rapadura e duas cabaças
com água fresca.
Licinha prepara tudo
num caçuá, põe nos cambitos colocados na égua Bonita e parte para a roça, onde
os “trabaiadores” a esperam atônitos e já com as tripas roncando. A chegada
dela é uma festa. Todos param de trabalhar e caminham para uma sombra que serve
de refeitório.
Colheres, pratos de
ágata, farinha e o aviso forte de Licinha:
- Essa moqueca tem que
dá pra todos!
A sobremesa, pedaços
de rapadura. Caneca d´água e o direito a um rápido descanso na sombra que
serviu de refeitório, enquanto chega a hora do segundo expediente da jornada repetitiva
de todos os dias.
Na casa, Alice Maria
espera o retorno de Licinha para a refeição das duas, sentadas no chão da “sala
de jantar” sobre um surrão de palha. A mesa é posta nas próprias panelas e a
comida servida com colheres de pau. Diferentemente dos “trabaiadores” na roça,
a sobremesa das duas é o caldo da moqueca misturado a uma poaca de farinha
seca.
Depois, em vez do
descanso de direito, a limpeza das panelas e pratos e a preparação para a noite
que chegará, e o dia seguinte.
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