sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O Papai Noel de Luluco e a esperança de Ciça

 

O meu “Natal” já passou. Felizmente!

É uma festa que dificilmente me alegra e já me fez muito sofrer. Por anos, dominei a vontade de mijar na rede, na noite de Natal. Minha mãe (que está sentada de qualquer lado do Pai) tinha o hábito de colocar uma bacia grande debaixo da rede para aparar a urina e não dar tanto trabalho para limpar na manhã seguinte.

O “fundo” da rede, sempre cortado pelo sal e pela amônia da urina, precisava ser trocado todos os anos. O lençol que protegia dos respingos das chuvas raras, cheirava muito. Cheirava a carinho e a proteção. Cheirava a amor, cuidado. E como cheirava mais quando ela lavado e colocado durante a noite.

E, naquele tempo, eu acreditava em Papai Noel. Toda criança acredita. Quem diz que nunca acreditou, também nunca foi criança. Meus pais saíam por volta da meia-noite, dizendo que iam assistir a “Missa do Galo” e nos deixavam em casa, a sós.

- Daqui a cinco minutos quero ouvir o “ronco” de todo mundo! Era a ordem da Mãe que ninguém ousava desobedecer.

Dormíamos pesado. Havia o hábito de acordar cedo para a preparação para a escola. Mas, dezembro sempre foi o mês das férias – e na noite do dia 24 era obrigatório dormir cedo para acordar mais cedo ainda e desembrulhar o presente deixado debaixo da rede por Papai Noel.

As meninas ganhavam bonecas de pano, minicozinhas para a casa das bonecas, meias e/ou sapatos. Os meninos, quase sempre ganhavam uma bola de borracha, peteca, caminhões e latas de bolas de gude.

Luluco nunca ganhou isso. Nada disso. Os pais de Luluco, desde cedo tiraram da cabeça dele a ilusão do “Papai Noel”. Como convencer Luluco que Papai Noel trouxera uma cadelinha que ele chamava de “Dona Flor”, se ele próprio vira a cadela “engatada” com o cachorro da vizinhança?

Luluco, que na verdade atendia pelo nome de Lúcio, morreu muito antes de se começar a falar em shopping, em lojas de presentes, em ceia de Natal, em confraternização natalina ou até mesmo em “amigo oculto” ou “amigo invisível”. Quando Luluco viajou num envelope de madeira, ainda não havia sido aprovado o décimo-terceiro salário – seu velho Pai nem tinha emprego formal.

Eis que, ainda criança, beirando os 10 anos de idade, Luluco ganhou em verdadeiro presente de Papai Noel: seu pai lhe presenteou com uma saca de sabugos de milho. Matéria prima com a qual fabricava seus próprios brinquedos. Luluco era um artista, um artesão. Certa vez fabricou um “tanque de guerra” só de sabugos. Viu uma foto e a reproduziu. Dava pena brincar com o brinquedo. Uma obra de arte.

Foi a “arte” de Luluco que, anos depois, ajudaria o pai a arar a roça e a facilitar o plantio de sementes. Luluco fabricou um arado puxado a jumento. Provou admiração da vizinhança.

Quando Luluco partiu para outro plano, os pais e os irmãos fizeram questão de colocar sobre o caixão, alguns dos mais importantes brinquedos fabricados por ele. E lá estava o “tanque de guerra” – numa solenidade de Paz, levando Luluco para o lado do Pai.

A alegria de Ciça

Ninguém jamais debulhará feijão mais rápido que Ciça. Ninguém jamais abaterá mais rápido e de forma menos violenta uma galinha, tanto quanto o fazia Ciça.

Ora, e quem é Ciça?

Ciça foi um “Anjo” que Deus encaminhou para proteger alguém na Terra, e se fazendo de esquecido, resolveu deixa-lo entre nós. Faze3ndo só o bem. Nos protegendo de dia e de noite. Certa vez, todos que conheceram Ciça ficaram na dúvida se ela, a Ciça, dormia. Um sorriso eterno, sempre aberto e espontâneo, além de simples como o poema de Drummond.



“O melhor remédio contra a saudade é a falta de memória.” (Carlos Drummond de Andrade)



Há aproximadamente 15 anos, no dia 25 de dezembro, quando era mais latente a minha sensibilidade e incontrolável a minha preocupação com o bem-estar de outrem – principalmente dos esquecidos e desassistidos – visitei por uma tarde inteira um Recanto de Idosos que fica próximo da minha casa. Foi ali que conheci Ciça, com certeza o “Anjo” que Deus colocou naquele lugar para assistir a vida dos semelhantes que estavam assistidos pelo Estado e desassistidos pelos familiares.

Ao me despedir, agindo como Repórter, indaguei:

- Ciça, você tem familiares? Eles não te visitam?

No que ela respondeu, com um sorriso contagiante repleto de amor e de humildade:

- Sabe... eu nem lembro mais!

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