O meu “Natal” já passou. Felizmente!
É uma festa que dificilmente me alegra e já me fez
muito sofrer. Por anos, dominei a vontade de mijar na rede, na noite de Natal.
Minha mãe (que está sentada de qualquer lado do Pai) tinha o hábito de colocar
uma bacia grande debaixo da rede para aparar a urina e não dar tanto trabalho
para limpar na manhã seguinte.
O “fundo” da rede, sempre cortado pelo sal e pela
amônia da urina, precisava ser trocado todos os anos. O lençol que protegia dos
respingos das chuvas raras, cheirava muito. Cheirava a carinho e a proteção.
Cheirava a amor, cuidado. E como cheirava mais quando ela lavado e colocado
durante a noite.
E, naquele tempo, eu acreditava em Papai Noel. Toda criança
acredita. Quem diz que nunca acreditou, também nunca foi criança. Meus pais
saíam por volta da meia-noite, dizendo que iam assistir a “Missa do Galo” e nos
deixavam em casa, a sós.
- Daqui a cinco minutos quero ouvir o “ronco” de todo
mundo! Era a ordem da Mãe que ninguém ousava desobedecer.
Dormíamos pesado. Havia o hábito de acordar cedo para a
preparação para a escola. Mas, dezembro sempre foi o mês das férias – e na
noite do dia 24 era obrigatório dormir cedo para acordar mais cedo ainda e
desembrulhar o presente deixado debaixo da rede por Papai Noel.
As meninas ganhavam bonecas de pano, minicozinhas para
a casa das bonecas, meias e/ou sapatos. Os meninos, quase sempre ganhavam uma
bola de borracha, peteca, caminhões e latas de bolas de gude.
Luluco nunca ganhou isso. Nada disso. Os pais de
Luluco, desde cedo tiraram da cabeça dele a ilusão do “Papai Noel”. Como
convencer Luluco que Papai Noel trouxera uma cadelinha que ele chamava de “Dona
Flor”, se ele próprio vira a cadela “engatada” com o cachorro da vizinhança?
Luluco, que na verdade atendia pelo nome de Lúcio,
morreu muito antes de se começar a falar em shopping, em lojas de presentes, em
ceia de Natal, em confraternização natalina ou até mesmo em “amigo oculto” ou
“amigo invisível”. Quando Luluco viajou num envelope de madeira, ainda não
havia sido aprovado o décimo-terceiro salário – seu velho Pai nem tinha emprego
formal.
Eis que, ainda criança, beirando os 10 anos de idade,
Luluco ganhou em verdadeiro presente de Papai Noel: seu pai lhe presenteou com
uma saca de sabugos de milho. Matéria prima com a qual fabricava seus próprios
brinquedos. Luluco era um artista, um artesão. Certa vez fabricou um “tanque de
guerra” só de sabugos. Viu uma foto e a reproduziu. Dava pena brincar com o
brinquedo. Uma obra de arte.
Foi a “arte” de Luluco que, anos depois, ajudaria o pai
a arar a roça e a facilitar o plantio de sementes. Luluco fabricou um arado
puxado a jumento. Provou admiração da vizinhança.
Quando Luluco partiu para outro plano, os pais e os
irmãos fizeram questão de colocar sobre o caixão, alguns dos mais importantes
brinquedos fabricados por ele. E lá estava o “tanque de guerra” – numa
solenidade de Paz, levando Luluco para o lado do Pai.
A alegria de Ciça
Ninguém jamais debulhará feijão mais rápido que Ciça.
Ninguém jamais abaterá mais rápido e de forma menos violenta uma galinha, tanto
quanto o fazia Ciça.
Ora, e quem é Ciça?
Ciça foi um “Anjo” que Deus encaminhou para proteger
alguém na Terra, e se fazendo de esquecido, resolveu deixa-lo entre nós.
Faze3ndo só o bem. Nos protegendo de dia e de noite. Certa vez, todos que
conheceram Ciça ficaram na dúvida se ela, a Ciça, dormia. Um sorriso eterno,
sempre aberto e espontâneo, além de simples como o poema de Drummond.
“O melhor remédio contra a saudade é a falta de
memória.” (Carlos Drummond de Andrade)
Há aproximadamente 15 anos, no dia 25 de dezembro,
quando era mais latente a minha sensibilidade e incontrolável a minha
preocupação com o bem-estar de outrem – principalmente dos esquecidos e
desassistidos – visitei por uma tarde inteira um Recanto de Idosos que fica
próximo da minha casa. Foi ali que conheci Ciça, com certeza o “Anjo” que Deus
colocou naquele lugar para assistir a vida dos semelhantes que estavam
assistidos pelo Estado e desassistidos pelos familiares.
Ao me despedir, agindo como Repórter, indaguei:
- Ciça, você tem familiares? Eles não te visitam?
No que ela respondeu, com um sorriso contagiante repleto
de amor e de humildade:
- Sabe... eu nem lembro mais!
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