O brasileiro tem alguns hábitos muito saudáveis, que
acabam produzindo uma forma diferenciada de fazer amigos e amizades. A
conversa, o bate-papo, a resenha, na maioria das vezes numa mesa de bar, ou num
balcão de cafezinho. É brasileiríssimo, isso.
Esse, sabemos, é um hábito que ainda perdura no ambiente
masculino. As mulheres de diferentes classes sociais preferem o chá e suas
chávenas eslovacas ou inglesas. Outras também já se aproximam do chopinho
gelado, e de reuniões nas noites das sextas-feiras – mas, algumas, quase sempre
acompanhadas de namorados e/ou maridos.
É comum, no Rio de Janeiro, empresas disponibilizarem
15 minutos para o café. Café que pode ser acompanhado de um lanche ou, em
outras situações, um lanche em que o café nem entra. Mas, isso não retira o
rótulo dos “15 minutos para o café”.
Nos anos 70/80, conheci em Ribeirão Preto, progressista
município do Estado de São Paulo, na sua área central e na mesma rua onde
funciona o Bar Pinguim, um Café famoso que funcionava no mesmo lugar há dezenas
de anos – desde o áureo tempo do alto prestígio dos cafeicultores. Ali era
servido café de vários tons e sabores, arábicos ou não.
O que chamava a atenção naquele aprazível ponto de
encontro era a quantidade de paredes e colunas rabiscadas com assinaturas e
autógrafos de pessoas consideradas famosas. De Getúlio Vargas a Sócrates
(ex-Jogador); de Pelé a Elis Regina e Xuxa. Por muito tempo essa
particularidade funcionou como “marketing” do lugar e do próprio café.
Longe de Ribeirão Preto, mais propriamente no Café
Cearazinho – era tão procurado e frequentado, que o proprietário foi induzido a
abrir três pontos do serviço, todos na Rua Guilherme Rocha, no Centro de
Fortaleza – era o local preferido para conversas, bate-papos, apresentações pessoais
e muitas discussões futebolísticas.
Servido desde o tempo da esterilização da xícara em
água fervente, o café do Cearazinho sempre foi puro e forte, sem exigir ser
“expresso” e servido em xícaras apropriadas com o nome do estabelecimento
gravado (e isso acabou gerando prejuízo ao proprietário, pelo hábito que
visitantes tinham de roubar as xícaras) e em pires aluminizados.
Mas, o bom mesmo daquele momento era a conversa fluente
e os assuntos diversificados, variando entre a política e os noticiários das
emissoras de rádios ou manchetes de jornais. Era no cafezinho que muitos tomavam
conhecimentos de alguns fatos ocorridos na cidade.
Havia quem tomasse mais de um café, tamanha a
necessidade momentânea de continuar ouvindo e participando da conversa.
Açucareiro de alumínio (ainda não havia sido descoberto o adoçante), venda de
cigarros, água mineral e charutos. Todos precisavam comprar “a ficha”, antes de
se servir do café.
Uma viva lembrança de um falecido irmão (Francisco de
Oliveira Ramos – Advogado, Jornalista, Radialista e ex-Superintendente Estadual
do INSS), que transportou para São Luís a memória e, agindo como Publicitário,
criou um slogan para o café (produto) de um amigo pessoal, que dizia:
- “Café Caravelas, o único capaz de fazer amigos”!
No Ceará, o Café Cearazinho marcou época. Nos primeiros
anos da ditadura militar, qualquer pessoa diferente que aparecesse para tomar
um café, passava a ser suspeito ou era visto como algum “Agente Secreto” que
pretendia escutar os bate-papos e tentar tirar dali alguma informação.
O local mais frequentado ficava numa das quatro
esquinas da Rua Guilherme Rocha com Avenida Barão do Rio Branco – ao lado do
espaço fotográfico Aba Film. Naquele tempo Fortaleza não era a metrópole em que
está transformada hoje. Depois do café muitos voltavam ao batente, mas, uma
grande maioria se deslocava mesmo era para a frente do Cine São Luiz para
elogiar o maravilhoso trabalho do vento na descoberta de belas coxas e bundas
femininas.
Foi no Cearazinho que escutei pela primeira vez:
- Lamarca foi preso!
Mas, era comum, no dia 1 de abril, alguém espalhar logo
no café da manhã, por volta das 9/10 horas:
- Mataram o Cordeiro Neto!
Essa era uma das formas de protesto do povão que não
afinava pontas com Cordeiro Neto, então Prefeito de Fortaleza, e queria vê-lo o
mais distante possível.
Com certeza, se hoje o Café Cearazinho ainda estiver
funcionando, já tem alguém afirmando e espalhando:
- O japonês da Federal vai algemar o “Nove Dedos”!
EM TEMPO: Enquanto a conversa, mentira ou verdade, rola
durante o cafezinho no Cearazinho, abro espaço para render homenagem a São
Sebastião, Padroeiro da maravilhosa cidade do Rio de Janeiro.
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