quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

No cafezinho

 

O brasileiro tem alguns hábitos muito saudáveis, que acabam produzindo uma forma diferenciada de fazer amigos e amizades. A conversa, o bate-papo, a resenha, na maioria das vezes numa mesa de bar, ou num balcão de cafezinho. É brasileiríssimo, isso.

Esse, sabemos, é um hábito que ainda perdura no ambiente masculino. As mulheres de diferentes classes sociais preferem o chá e suas chávenas eslovacas ou inglesas. Outras também já se aproximam do chopinho gelado, e de reuniões nas noites das sextas-feiras – mas, algumas, quase sempre acompanhadas de namorados e/ou maridos.

É comum, no Rio de Janeiro, empresas disponibilizarem 15 minutos para o café. Café que pode ser acompanhado de um lanche ou, em outras situações, um lanche em que o café nem entra. Mas, isso não retira o rótulo dos “15 minutos para o café”.

Nos anos 70/80, conheci em Ribeirão Preto, progressista município do Estado de São Paulo, na sua área central e na mesma rua onde funciona o Bar Pinguim, um Café famoso que funcionava no mesmo lugar há dezenas de anos – desde o áureo tempo do alto prestígio dos cafeicultores. Ali era servido café de vários tons e sabores, arábicos ou não.

O que chamava a atenção naquele aprazível ponto de encontro era a quantidade de paredes e colunas rabiscadas com assinaturas e autógrafos de pessoas consideradas famosas. De Getúlio Vargas a Sócrates (ex-Jogador); de Pelé a Elis Regina e Xuxa. Por muito tempo essa particularidade funcionou como “marketing” do lugar e do próprio café.

Longe de Ribeirão Preto, mais propriamente no Café Cearazinho – era tão procurado e frequentado, que o proprietário foi induzido a abrir três pontos do serviço, todos na Rua Guilherme Rocha, no Centro de Fortaleza – era o local preferido para conversas, bate-papos, apresentações pessoais e muitas discussões futebolísticas.

Servido desde o tempo da esterilização da xícara em água fervente, o café do Cearazinho sempre foi puro e forte, sem exigir ser “expresso” e servido em xícaras apropriadas com o nome do estabelecimento gravado (e isso acabou gerando prejuízo ao proprietário, pelo hábito que visitantes tinham de roubar as xícaras) e em pires aluminizados.

Mas, o bom mesmo daquele momento era a conversa fluente e os assuntos diversificados, variando entre a política e os noticiários das emissoras de rádios ou manchetes de jornais. Era no cafezinho que muitos tomavam conhecimentos de alguns fatos ocorridos na cidade.

Havia quem tomasse mais de um café, tamanha a necessidade momentânea de continuar ouvindo e participando da conversa. Açucareiro de alumínio (ainda não havia sido descoberto o adoçante), venda de cigarros, água mineral e charutos. Todos precisavam comprar “a ficha”, antes de se servir do café.

Uma viva lembrança de um falecido irmão (Francisco de Oliveira Ramos – Advogado, Jornalista, Radialista e ex-Superintendente Estadual do INSS), que transportou para São Luís a memória e, agindo como Publicitário, criou um slogan para o café (produto) de um amigo pessoal, que dizia:

- “Café Caravelas, o único capaz de fazer amigos”!

No Ceará, o Café Cearazinho marcou época. Nos primeiros anos da ditadura militar, qualquer pessoa diferente que aparecesse para tomar um café, passava a ser suspeito ou era visto como algum “Agente Secreto” que pretendia escutar os bate-papos e tentar tirar dali alguma informação.

O local mais frequentado ficava numa das quatro esquinas da Rua Guilherme Rocha com Avenida Barão do Rio Branco – ao lado do espaço fotográfico Aba Film. Naquele tempo Fortaleza não era a metrópole em que está transformada hoje. Depois do café muitos voltavam ao batente, mas, uma grande maioria se deslocava mesmo era para a frente do Cine São Luiz para elogiar o maravilhoso trabalho do vento na descoberta de belas coxas e bundas femininas.

Foi no Cearazinho que escutei pela primeira vez:

- Lamarca foi preso!

Mas, era comum, no dia 1 de abril, alguém espalhar logo no café da manhã, por volta das 9/10 horas:

- Mataram o Cordeiro Neto!

Essa era uma das formas de protesto do povão que não afinava pontas com Cordeiro Neto, então Prefeito de Fortaleza, e queria vê-lo o mais distante possível.

Com certeza, se hoje o Café Cearazinho ainda estiver funcionando, já tem alguém afirmando e espalhando:

- O japonês da Federal vai algemar o “Nove Dedos”!

EM TEMPO: Enquanto a conversa, mentira ou verdade, rola durante o cafezinho no Cearazinho, abro espaço para render homenagem a São Sebastião, Padroeiro da maravilhosa cidade do Rio de Janeiro.




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