Estou sofrendo. Minhas forças diminuem a cada segundo –
muitos ainda desconhecem minha utilidade, minha importância e minha força,
embora todos os anos, no Brasil, eu volte a lembrar-lhes que ainda existo.
Onde nasço – e em quase todas as minhas nascentes – sou
apenas um fiozinho de nada. Um veio fraco que toma forma e força no contato com
a minha mãe Natureza. Escolho meus caminhos, meus leitos. A partir daí, todos
passam a me conhecer pelo nome:
- Rio!
Eu sou o rio, e levo vida por onde passo. Levo a
beleza, a alegria, o progresso e minhas águas até conduzem barcos, navios,
canoas e lanchas.
No meu caminhar divido lugares e municípios, estados e
países. Cedo minhas margens e até meus leitos para lazer, para plantio e até
para mau uso (esse, na maioria das vezes) pelo homem. Eu sou o rio.
Rio isso, rio aquilo. Rio santo esse, rio santo aquilo.
Onde o homem permite minha perenidade, sirvo para
produzir o peixe que alimenta o homem que tanto me maltrata. Não é meu direito
julgar. Nada me impedirá de servir ao meu Criador. Nem mesmo quando, olvidado,
perco o controle e destruo algo. Isso não faz parte de mim. É apenas uma
resposta e um aviso para que me deixem livre para servir.
Minhas águas são boas e servíveis. Minha potabilidade
valoriza minha existência e me faz servir à comunidade para fins que nem sempre
me são úteis.
Quando sou Ganges, não me tratam como deveriam. No
passado já me chamaram Vermelho, Mississipi, Nilo, mas sou sempre o mesmo: rio.
A serviço da humanidade.
Não sou tolo para desconhecer a importância do meu
irmão maior, o mar. Juntos, formamos quase tudo que existe de bom e útil na
Terra. Nos nossos leitos mantemos outras vidas ainda desconhecidas para o homem
– esse que não dá conta do que tem em mãos, e se aventura na procura de outros
planetas. Será que pensa que não vai nos encontrar também por lá?
Se lá houver vida, essa não será sem nós. Estaremos
sempre aqui e acolá. Nós somos a água da vida. A água do rio e do mar.
Foto
3 – A navegabilidade das águas profundas do Amazonas
Meu caminho é longo e indefinido. Sou largo quando
resolvo me impor e estreito quando tentam me tolher as ações – que, ao final,
só têm o objetivo de servir.
Produzo alimentos no meu leito e fora dele. As espécies
piscosas que em mim habitam, se agigantam e se tornam disformes sem jamais
perder a qualidade e o sabor, como o pirarucu, o tucunaré, a tilápia, a traíra,
a pescada ou o pintado (surubim).
Sei que, em alguns lugares não sou perene, mas isso não
depende apenas de mim. Minhas margens desmatadas pelo homem, levam ao meu
assoreamento e a uma irritação que sou obrigado a responder com catástrofes.
Não tentem me prender, pois não nasci para viver assim.
Ficarei grato e servirei sempre, quando acordarem para a preservação do meu
entorno, plantando ou evitando cortar as árvores que ajudam na minha
sustentação.
Por séculos e séculos, meus aparentados Nilo, Ganges,
Mississipi, Parnaíba, Paraíba, Amazonas, Negro, Tocantins e Solimões sustentam
o mundo e servem como fontes de quase tudo – alimento, navegação, irrigação e,
agora, o Paraná se transformou na maior fonte de energia elétrica do mundo.
Faço questão de repetir meu nome: rio!
Sou fonte da vida. Sou a artéria da vida que Deus
colocou na Terra.
Nenhum homem me construiu e, assim, ninguém está
autorizado a cobrar pedágio para que naveguem no meu leito. Essa é uma das
muitas violências que me impõem – infelizmente as respostas acabam punindo
inocentes.
Eu sou o rio. Deixe que eu corra livre pelos caminhos
que escolho e lhes serei eternamente grato, e servil.
Riacho
do Navio
(Luiz Gonzaga)
Riacho do Navio
Corre pro Pajeú
O rio Pajeú vai despejar
No São Francisco
O rio São Francisco
Vai bater no "mei" do mar
O rio São Francisco
Vai bater no "mei" do mar (Bis)
Ah! se eu fosse um peixe
Ao contrário do rio
Nadava contra as águas
E nesse desafio
Saía lá do mar pro
Riacho do Navio
Eu ia direitinho pro
Riacho do Navio
Pra ver o meu brejinho
Fazer umas caçada
Ver as "pegá" de boi
Andar nas vaquejada
Dormir ao som do chocalho
E acordar com a passarada
Sem rádio e nem notícia
Das terra civilizada
Sem rádio e nem notícia
Das Terra civilizada.
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