Faltam apenas quinze dias para acabar a Primavera. Hoje
eu queria ser um poeta para te transformar numa abelha e ser carregado por ti
como o pólen, para o mais doce recôndito da nossa colmeia.
Eu queria ser um poeta para aproveitar a Primavera e te
transformar numa leve e suave ventania para me tanger para o desfolhado parque
onde as folhas se transformam em húmus e recondicionam a relva que vai
alimentar ad eternum as nossas floridas árvores.
Hoje eu ainda queria me transformar num poeta para
produzir um texto capaz de adoçar ainda mais a tua ternura, beijar teus lábios
angelicais que emolduram tua boca em forma de vida.
Eu queria ser um poeta para versificar o firmamento e
as mais belas e admiráveis estrelas numa noite em que só nós nos envolveríamos,
nos amaríamos e produziríamos mais estrelinhas, abominando os ditames e os céus
chineses que dominam a multiplicação.
Hoje eu queria ser um poeta para contar e dar nomes aos
mais de cinco milhões de girassóis, russos ou não, e poder transformar aquele
amarelo vivo no sangue que corre nas tuas entranhas e produz vida a cada nove
meses.
Eu queria ser um poeta para entender o cantar dos
pássaros e, ao raiar do sol que pinta a claridade, dizer, cantando para João,
que a mais bela sonata passeriforme, aos tímpanos de quem compreende é uma
transfusão de humildade e sabedoria.
Hoje eu queria ser poeta para voar sem ser avião ou
pássaro; para lacrimejar de alegria; para sorrir sem sentir qualquer tristeza e
para amar, independentemente de ser amado, ou não.
Sei, eu não sou poeta - e a Primavera está terminando!
– mas tu és mel; tu és rosa; tu és girassol; tu és folha e a mais bela cantata
de pássaros.
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