Chica e a xícara
(quebrada).
Esmeralda da
Anunciação Ferreira Borges, nascida em Lugo, Portugal, veio para o Brasil ainda
criança. Seus pais resolveram uma questão de herança familiar naquele país, e
resolveram mudar em definitivo para o Brasil, onde acreditavam ser melhor para
tocar a vida.
Antes da mudança
definitiva para o Brasil, o pai de Esmeralda veio a passeio, mas limitou-se
apenas ao sudeste. Conheceu Minas Gerais e, ali, teve conhecimento de que
algumas colonias portuguesas chegaram ao Estado, mais precisamente a Alterosa,
município distante da capital 324 km.
A escolha não demorou
muito nem foi tão difícil. A família resolveu fixar-se em Alterosa, iniciando
ali a atividade comercial de padaria. Montou o comércio e, para não ficar
totalmente desligado das terras lusas, mandou pintar uma placa vistosa que foi
colocada na frente da padaria: “Panificadora Luguense”.
Os dias se passaram, também
passaram meses e anos, e a família de Esmeralda, acrescida de filhos e netos,
começou a atingir percepção social por conta da presteza e da simpatia
oferecida à população, indistintamente freguês ou não.
Temos quase certeza
que, quem está lendo agora este texto, viu o filme americano “A cor púrpura”.
Deve lembrar, também, da personagem serviçal e submissa por demais (na trama)
representada pela atriz Whoopi Goldberg, na realidade, nascida Caryn Elaine
Johnson, que veio ao mundo no bairro Manhattan, em Nova Iorque no dia 13 de
novembro de 1955.
Pois, daquele mesmo
jeito era Francisca, a Chica, “levada” não se sabe por quem, para trabalhar
como doméstica na casa de Esmeralda. Ninguém sabia de onde viera Chica, muito
menos seus pais ou outros parentes. Nem ela mesma sabia se seu nome tinha outro
nome além de “Francisca”. E, até mesmo esse “Francisca” mexia um pouco com os
brios dela. Ela se realizava mesmo era com o “Chica”.
Chica era a primeira a
acordar e levantar todos os dias e, com cerrteza, a última a deitar e a dormir.
Antes de ir ao catre que ela chamava de cama, a obrigação de verficar se todos
os ferrolhos da casa estavam trancados e se não havia nenhuma janela ou porta
abertas. Transformou isso numa rotina diária.
Era, também, a
“confeiteira” da Panificadora Luguense nas horas de folga (???!!), tão logo
depois de servir o café matinal para os da casa.
Chica tinha apenas
dois privilégios com a patroa: comer a mesma comida que servia aos patrões; e,
um quarto de dormir só para si. Com direito a banheiro só seu. Era ali que ela
se olhava de cima a baixo. Dentes mais alvos que de qualquer publicidade
dentifrícia, boca pequena, lábios grossos e “esfolados” como os de Angelina
Jolie e olhos que em nada diferençavam de duas pérolas negras.
O corpo esbelto,
parecia um desenho caprichado. Seios pequenos, rijos, mamilos enegrecidos que
pareciam querer “furar” qualquer roupa que ela pusesse. Corpo esbelto e longo,
fazia inveja aos malhadores das academias. Uma “deusa” com cheiro e
descendência do Ébano.
Chica gostava de se
entregar aos próprios carinhos, quando desfrutava da solidão, no esquecimento
do quarto com paredes forradas de cortinas brancas que cobriam também as
janelas. À noite, apenas o vento vagabundo e safado invadia janelas à dentro...
quando o galo do vizinho cantava, e anunciava a hora de levantar para cuidar do
café dos patrões.
Esmeralda tinha duas
admirações na vida. A louça chinesa que ganhara do marido no dia que
completaram 30 anos de casados, e o cheiro inconfundível dos lençóis e toalhas
de banho da casa. Beirando os 60 anos, a louça chinesa já completara 30 em suas
mãos. Era usada apenas nas ocasiões especiais. Mas, dessa louça, uma xícara ela
usava diariamente, todas as tardes, para sorver o chá de camomila que lhe
garantia a diminuição do stress diário.
Mas, como mulher é
sempre mulher, e todas elas só vivem “muito bem” 27 dias num mês de 30 ou 31,
Chica não podia ser diferente. E só era realmente diferente no desenho que já
fizemos acima. O primeiro dia desses três, Chica enfrentava garbosa, serelepe,
até. Mas, o segundo, era um verdadeiro “Deus nos acuda”, e as cólicas mudavam o
seu reconhecido bom humor. Fraquejava. Ficava irritada e, de noite, mandava o
vento voltar pelo caminho mais curto, quando esse teimava em entrar nos seus
aposentos pelas janelas abertas.
Um dia, tardinha,
chegara a hora sagra do chá de Esmeralda. Abancada na cabeceira da mesa, com
ares solenes de rainha, a patroa espiava Chica caminhando faceira com a bandeja
prateada e, nela, a xícara chinesa com o chá fumegante de camomila. Calçada –
porque estava naqueles dias – Chica tropeçou no tapete da sala, caiu e derrubou
bandeja, xícara, chá e, parte da sua vida.
Chica se transformou
em lágrimas. Não pela xícara e muito menos por Esmeralda. Não recebeu nada
pelos anos após ser demitida, “por justa causa”. Chica se derretia em lágrimas
porque, demitida, perdera também o privilégio do quarto só seu e, pior ainda, o
seu aprofundado envolvimento notuno com o vento que lhe invadia os aposentos e
as entranhas ainda virgens.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Por favor. Não aceitaremos palavras indecorosas nem comentários que atinjam a honra dos demais comentaristas.