quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Feliz Natal!

 


Criança envolvida totalmente pelo telefone celular. Uma lástima.      

Numa das mãos, uma lata de graxa Nugget; na outra, uma escova e um par de sapatos Vulcabrás. Era a continuidade dos preparativos para a “Noite de Natal”, sempre comemorada no dia 25, antes da Missa do Galo. Nos dias atuais, o capitalismo transformou uma festa religiosa numa festa pagã. E se comemora no dia 24, quando, historicamente, Jesus ainda não nasceu.

Depois de engraxar os sapatos, sentar na frente da casa esperando os demais familiares para assistir a Missa do Galo, na Igreja Nossa Senhora da Salete, na Bela Vista, em Fortaleza. A ceia, somente após a “missa” – e muitas vezes parecia mais um café da manhã, em virtude do horário.

Hora de abrir os presentes – porque ninguém era mais inocente a ponto de acreditar em Papai Noel e todos já sabiam “quem” comprava e oferecia aqueles pacotes. Era, claro, o “Papai”. Papai sem Noel.

Os filhos nunca estavam todos em casa, pois alguns já namoravam e estavam participando de comemorações em outros locais. E, eis que recebi meu primeiro presente de Natal pós-era Papai Noel: um livro. O primeiro livro.

Pacote feito em papel de presente, mandado caprichar na livraria. “Capitães da Areia” – Jorge Amado. Detalhe: autografado pelo próprio autor (mantive esse livro por exatos 40 anos até que a traça e o cupim comeram) e li pelo menos umas cinco vezes.

Como se deu o autógrafo: meu pai foi comunista na clandestinidade e teria se encontrado com Jorge e demais camaradas numa reunião, também clandestina. Antes, fora numa livraria e comprara o livro, pois sabia que se encontraria com o autor baiano. Sugeriu o autógrafo e voltou no seguinte à mesma livraria, onde pediu para embrulhar o livro para presente. Já não tenho sequer o que sobrou das páginas.

Noutros natais ganhei outros livros e sempre os li, principalmente pelo respeito e admiração que tinha por quem me presenteava. Criei em mim o hábito de dar livros de presente, independentemente de ser Natal ou não.

Desenvolvi em mim um novo hábito: doar o livro que acabei de ler.

Para que serve um livro, depois de lido? Para acontecer o que aconteceu com o “meu” Capitães da Areia?

Mas, infelizmente, percebo que, 60 anos depois, esse bom hábito só permanece em algumas mentes bem conservadas como a minha. Os pais são outros – e seria idiotice querer que fossem iguais a mim.

Eu mesmo parei de dar livros aos meus cinco filhos (quatro moças e um rapaz) ao perceber que eles não os leem – já tive a perspicácia de anotar títulos sugeridos por eles, compra-los e dar de presente. Eles simplesmente não leem.

E, com as mais estapafúrdias mudanças no nosso mundo, mudaram juntos os pais e mais ainda os filhos. Ninguém quer mais ganhar livros de presente de Natal. E ninguém tem mais sensatez para compreender que um livro será sempre um bom e útil presente. Mil vezes melhor que os celulares e os tablets de hoje.

E o resultado dos presentes modernos que os pais de hoje oferecem mais do que os filhos pedem é uma mudança quase total na forma de escrever palavras, que acabam sendo prejudiciais no futuro – vestibulares, por exemplo.

De repente, provavelmente pelo pequeno espaço, o “porque” ou o “por que” viraram “pq”. O “também” virou “tbm”. E, com certeza, vai chegar o dia que não se conseguirá mudar nada disso.

Quem não lê, jamais saberá escrever, e ainda terá dificuldades para ouvir e aprender.

Feliz Natal!

 

 

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