Criança
envolvida totalmente pelo telefone celular. Uma lástima.
Numa das mãos, uma lata de
graxa Nugget; na outra, uma escova e um par de sapatos Vulcabrás. Era a
continuidade dos preparativos para a “Noite de Natal”, sempre comemorada no dia
25, antes da Missa do Galo. Nos dias atuais, o capitalismo transformou uma
festa religiosa numa festa pagã. E se comemora no dia 24, quando,
historicamente, Jesus ainda não nasceu.
Depois de engraxar os
sapatos, sentar na frente da casa esperando os demais familiares para assistir
a Missa do Galo, na Igreja Nossa Senhora da Salete, na Bela Vista, em
Fortaleza. A ceia, somente após a “missa” – e muitas vezes parecia mais um café
da manhã, em virtude do horário.
Hora de abrir os presentes
– porque ninguém era mais inocente a ponto de acreditar em Papai Noel e todos
já sabiam “quem” comprava e oferecia aqueles pacotes. Era, claro, o “Papai”.
Papai sem Noel.
Os filhos nunca estavam
todos em casa, pois alguns já namoravam e estavam participando de comemorações
em outros locais. E, eis que recebi meu primeiro presente de Natal pós-era
Papai Noel: um livro. O primeiro livro.
Pacote feito em papel de
presente, mandado caprichar na livraria. “Capitães da Areia” – Jorge Amado.
Detalhe: autografado pelo próprio autor (mantive esse livro por exatos 40 anos
até que a traça e o cupim comeram) e li pelo menos umas cinco vezes.
Como se deu o autógrafo:
meu pai foi comunista na clandestinidade e teria se encontrado com Jorge e
demais camaradas numa reunião, também clandestina. Antes, fora numa livraria e
comprara o livro, pois sabia que se encontraria com o autor baiano. Sugeriu o
autógrafo e voltou no seguinte à mesma livraria, onde pediu para embrulhar o
livro para presente. Já não tenho sequer o que sobrou das páginas.
Noutros natais ganhei
outros livros e sempre os li, principalmente pelo respeito e admiração que
tinha por quem me presenteava. Criei em mim o hábito de dar livros de presente,
independentemente de ser Natal ou não.
Desenvolvi em mim um novo
hábito: doar o livro que acabei de ler.
Para que serve um livro,
depois de lido? Para acontecer o que aconteceu com o “meu” Capitães da Areia?
Mas, infelizmente, percebo
que, 60 anos depois, esse bom hábito só permanece em algumas mentes bem
conservadas como a minha. Os pais são outros – e seria idiotice querer que
fossem iguais a mim.
Eu mesmo parei de dar
livros aos meus cinco filhos (quatro moças e um rapaz) ao perceber que eles não
os leem – já tive a perspicácia de anotar títulos sugeridos por eles,
compra-los e dar de presente. Eles simplesmente não leem.
E, com as mais
estapafúrdias mudanças no nosso mundo, mudaram juntos os pais e mais ainda os
filhos. Ninguém quer mais ganhar livros de presente de Natal. E ninguém tem
mais sensatez para compreender que um livro será sempre um bom e útil presente.
Mil vezes melhor que os celulares e os tablets
de hoje.
E o resultado dos
presentes modernos que os pais de hoje oferecem mais do que os filhos pedem é
uma mudança quase total na forma de escrever palavras, que acabam sendo
prejudiciais no futuro – vestibulares, por exemplo.
De repente, provavelmente pelo pequeno espaço, o
“porque” ou o “por que” viraram “pq”. O “também” virou “tbm”. E, com certeza,
vai chegar o dia que não se conseguirá mudar nada disso.
Quem não lê, jamais saberá escrever, e ainda terá
dificuldades para ouvir e aprender.
Feliz Natal!
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