sábado, 15 de novembro de 2014

Série "Religiosidades" tenta desmistificar cultos e crenças

 

coroa

Maria Cleide Pinheiro é mãe de santo

 

Diário do Nordeste Plus

A primeira reportagem mostra as diferenças entre umbanda e candomblé e explica que o termo "Macumba" é usado de forma preconceituosa.

Macumba, terreiro, gira, Exu. Palavras simples, mas carregadas de preconceito por estarem diretamente relacionadas a religiões de origem africana. Macumba é um termo pejorativo criado no início do século XX, no Rio de Janeiro, usado para denominar as religiões de matriz africana. Na verdade, a macumba nada mais é do que um instrumento de percussão confeccionado com a madeira da árvore de mesmo nome. Terreiro pode ser definido como um centro espiritual onde acontecem as giras, as cerimônias de Candomblé e Umbanda. Exu, por sua vez, é o nome dado às dividades dessas culturas religiosa.

Embora marginalizada por parte da sociedade, as tradições africanas já fazem parte da cultura brasileira. Mesmo sem um mapeamento oficial sobre a religião, estima-se que existam mais de 10 mil terreiros, com aproximadamente 60 frequentadores em cada, apenas no Ceará. Uma prática tão popular como essas, merece ser mais conhecida. Confira a história de alguns seguidores dessas religiões.

Um cachimbo - O mecânico Ricardo de Mendonça Rodrigues, 35, é católico de batismo. Aos 16 anos de idade, começou a questionar a religião e passou a frequentar várias igrejas evangélicas em busca de alguma identificação religiosa, mas algo sempre o chamava para os terreiros. Há 6 anos, quando estava morando em Brasília, Ricardo conheceu o Terreiro de Jurema, onde encontrou um lugar para exercer sua fé.

O Terreiro de Jurema é uma linha de umbanda derivada da cultura indígena, na qual tem o uso do cachimbo como uma de suas características. Cada integrante tem um tipo de fumo autorizado por uma entidade para uso individual; o de Ricardo é à base de alecrim, erva-doce e fumo branco, cuja anuência foi dada, através de um médium, por seu Curisco, antigo membro do bando de Lampião.

De volta à Fortaleza, o mecânico passou a frequentar o terreiro de umbanda de Zé Pilintra das Almas, seu exú protetor. “Na umbanda existem os orixás e os exús, que muita gente acha que é uma entidade do mal e, na realidade, eles funcionam como ‘a polícia’ da umbanda”, explica. De acordo com Ricardo, a umbanda acredita que os orixás são as entidades divinizadas, vindas das crenças africanas responsáveis pela promoção do crescimento humano. Já os exús foram pessoas que pecaram muito em vida que passaram para o lado negativo como penitência e, ao se arrependerem, fizeram uma transição para o lado positivo e entram em um processo evolutivo. 

Ao mudarem de caminho, essas entidades recebem a função de proteger os humanos e, por isso, realizam trabalhos para guiar o caminho das pessoas. Eles acreditam também na lei do retorno, que prega que as pessoas recebem de volta, ainda em vida, as consequências daquilo o que elas pediram às entidades.

Um tambor - Leno Faria, 42, ou mais precisamente, Ogan Otun Alagbê Leno Faria é candomblecista e historiador. Na academia, ele estuda cultura e religião popular, mas no candomblé, ele é ogan, pessoa responsável por cuidar dos orixás e chamá-los através do toque do tambor e do canto.

O historiador conta que a tradição religiosa africana na família vem desde o bisavô, que era mestre curador, passando pela mãe, uma sacerdotisa de catimbó, chegando a ele e ao irmão que ingressaram no candomblé  juntamente com a esposa e os filhos. “Eu sou de alaketu, minha raiz é cantuá e sou filho de Ilê Axé Omindá [casa de força por onde passam as águas que Oxum me deu]”, conta Leno que também explica que na religião a questão da tradição é muito forte, bem como a ancestralidade e o processo hierárquico. “Por isso de matriz africana, porque a gente tem uma referência que vem da África”, esclarece.

Segundo o ogan, as religiões de tradição africana, embora preguem o respeito a todas as formas de crenças, constantemente são alvos de preconceito gerados, principalmente, pela falta de informação e informações errôneas, como na questão do “sacrifício” animal. “Nós não sacrificamos, nós sacralizamos a vida daquele animal para transmitir o elemento vital para o divino, que é a terra e alimentar a comunidade com a carne dele. Tiramos a vida do animal porque ele nos permite, dentro da nossa cosmovisão [mediante permissão do oráculo], e nos alimentamos dela”, justifica.

Uma coroa - Maria Cleide Pinheiro, 68, mais conhecida como Cleide Ogum é mãe de santo. Apesar dos 52 anos dedicados à umbanda, ela fala que nem sempre acreditou na religião. “Eu tinha um cunhado umbandista e zombava dele e não acreditava em nada disso; eu dizia que só acreditaria se um dia eu dormisse boa e acordasse louca. 3 dias depois, foi o que aconteceu”, lembra. 

Aos 17 anos, dona Cleide passou 3 meses fora de si, apenas retomando os sentidos quando incorporou uma entidade pela primeira vez, a preta velha de cura dona Maria Conga. “Depois disso eu entreguei a minha coroa [aceitação da mediunidade para receber as entidades], me batizei, consagrei e virei mãe de santo”, revela.

Atualmente a mãe de santo comanda a baia [trabalhos]  do Terreiro de Mãe Cassiana de Pemba, um centro espiritual localizado em sua casa, no Parque Araxá. Cleide, que também é católica, diz receber pessoas de todas as religiões no terreiro. “Até os crentes vem aqui para rezar”, conta.

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