Maria Cleide Pinheiro é mãe de santo
Diário do
Nordeste Plus
A
primeira reportagem mostra as diferenças entre umbanda e candomblé e explica
que o termo "Macumba" é usado de forma preconceituosa.
Macumba, terreiro, gira, Exu. Palavras
simples, mas carregadas de preconceito por estarem diretamente relacionadas a
religiões de origem africana. Macumba é um termo pejorativo criado no início do
século XX, no Rio de Janeiro, usado para denominar as religiões de matriz
africana. Na verdade, a macumba nada mais é do que um instrumento de percussão
confeccionado com a madeira da árvore de mesmo nome. Terreiro pode ser definido
como um centro espiritual onde acontecem as giras, as cerimônias de Candomblé e
Umbanda. Exu, por sua vez, é o nome dado às dividades dessas culturas
religiosa.
Embora marginalizada por parte da
sociedade, as tradições africanas já fazem parte da cultura brasileira. Mesmo
sem um mapeamento oficial sobre a religião, estima-se que existam mais de 10
mil terreiros, com aproximadamente 60 frequentadores em cada, apenas no Ceará.
Uma prática tão popular como essas, merece ser mais conhecida. Confira a
história de alguns seguidores dessas religiões.
Um cachimbo - O mecânico Ricardo de Mendonça Rodrigues, 35, é
católico de batismo. Aos 16 anos de idade, começou a questionar a religião e
passou a frequentar várias igrejas evangélicas em busca de alguma identificação
religiosa, mas algo sempre o chamava para os terreiros. Há 6 anos, quando
estava morando em Brasília, Ricardo conheceu o Terreiro de Jurema, onde
encontrou um lugar para exercer sua fé.
O Terreiro de Jurema é uma linha de
umbanda derivada da cultura indígena, na qual tem o uso do cachimbo como uma de
suas características. Cada integrante tem um tipo de fumo autorizado por uma
entidade para uso individual; o de Ricardo é à base de alecrim, erva-doce e
fumo branco, cuja anuência foi dada, através de um médium, por seu Curisco,
antigo membro do bando de Lampião.
De volta à Fortaleza, o mecânico passou
a frequentar o terreiro de umbanda de Zé Pilintra das Almas, seu exú protetor.
“Na umbanda existem os orixás e os exús, que muita gente acha que é uma
entidade do mal e, na realidade, eles funcionam como ‘a polícia’ da umbanda”,
explica. De acordo com Ricardo, a umbanda acredita que os orixás são as
entidades divinizadas, vindas das crenças africanas responsáveis pela promoção
do crescimento humano. Já os exús foram pessoas que pecaram muito em vida que
passaram para o lado negativo como penitência e, ao se arrependerem, fizeram
uma transição para o lado positivo e entram em um processo evolutivo.
Ao mudarem de caminho, essas entidades
recebem a função de proteger os humanos e, por isso, realizam trabalhos para
guiar o caminho das pessoas. Eles acreditam também na lei do retorno, que prega
que as pessoas recebem de volta, ainda em vida, as consequências daquilo o que
elas pediram às entidades.
Um tambor - Leno Faria, 42, ou mais precisamente, Ogan Otun
Alagbê Leno Faria é candomblecista e historiador. Na academia, ele estuda
cultura e religião popular, mas no candomblé, ele é ogan, pessoa responsável
por cuidar dos orixás e chamá-los através do toque do tambor e do canto.
O historiador conta que a tradição religiosa
africana na família vem desde o bisavô, que era mestre curador, passando pela
mãe, uma sacerdotisa de catimbó, chegando a ele e ao irmão que ingressaram no
candomblé juntamente com a esposa e os filhos. “Eu sou de alaketu, minha
raiz é cantuá e sou filho de Ilê Axé Omindá [casa de força por onde passam as
águas que Oxum me deu]”, conta Leno que também explica que na religião a
questão da tradição é muito forte, bem como a ancestralidade e o processo
hierárquico. “Por isso de matriz africana, porque a gente tem uma referência
que vem da África”, esclarece.
Segundo o ogan, as religiões de
tradição africana, embora preguem o respeito a todas as formas de crenças,
constantemente são alvos de preconceito gerados, principalmente, pela falta de
informação e informações errôneas, como na questão do “sacrifício” animal. “Nós
não sacrificamos, nós sacralizamos a vida daquele animal para transmitir o
elemento vital para o divino, que é a terra e alimentar a comunidade com a
carne dele. Tiramos a vida do animal porque ele nos permite, dentro da nossa
cosmovisão [mediante permissão do oráculo], e nos alimentamos dela”, justifica.
Uma coroa - Maria Cleide Pinheiro, 68, mais conhecida como
Cleide Ogum é mãe de santo. Apesar dos 52 anos dedicados à umbanda, ela fala
que nem sempre acreditou na religião. “Eu tinha um cunhado umbandista e zombava
dele e não acreditava em nada disso; eu dizia que só acreditaria se um dia eu
dormisse boa e acordasse louca. 3 dias depois, foi o que aconteceu”,
lembra.
Aos 17 anos, dona Cleide passou 3 meses
fora de si, apenas retomando os sentidos quando incorporou uma entidade pela
primeira vez, a preta velha de cura dona Maria Conga. “Depois disso eu
entreguei a minha coroa [aceitação da mediunidade para receber as entidades],
me batizei, consagrei e virei mãe de santo”, revela.
Atualmente a mãe de santo comanda a
baia [trabalhos] do Terreiro de Mãe Cassiana de Pemba, um centro
espiritual localizado em sua casa, no Parque Araxá. Cleide, que também é
católica, diz receber pessoas de todas as religiões no terreiro. “Até os
crentes vem aqui para rezar”, conta.
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