segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O trem





Estação de “Serra da Raposa” depois da passagem do trem.

 

Trem das sete

(Raul Seixas)

Ói, ói o trem,

vem surgindo de trás das montanhas azuis,

olha o trem

Ói, ói o trem,

vem trazendo de longe as cinzas do velho aeon

 

                 

Ói, já é vem,

fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem

Ói, é o trem,

não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem

 

Como se fora comandado pela precisão londrina, exatamente às 08:14 horas de todos os dias, chovesse ou fizesse sol, o trem que fazia a linha Cidade Alta-Munduba, encostava na estação ferroviária de “Serra da Raposa”, onde deixava passageiros e cargas e recebia outros tantos. Nesta estação, havia anos, o movimento maior era no desembarque de passageiros e de cargas. A organização de tudo dava a falsa ideia de lentidão. Mas tudo acontecia de forma cronometrada, da chegada até a partida.

A noite da segunda-feira fora diferente na casa de Biaman e Doralice. Tudo por conta dos preparativos para a viagem da manhã do dia seguinte. Doralice, em dias próximos de parir o quarto filho do casal, precisava deixar tudo preparado para os filhos menores – sob a guarda de Nato, o mais velho, de apenas 13 anos – passarem pelo menos dois dias sem a presença dela durante o “resguardo”.

O percurso entre a casa de Biaman e Doralice e a estação do trem, não era tão distante assim. Embora caminhando de forma lenta em virtude do avançado estado de gravidez, Doralice faria essa distância num máximo de 15 minutos.

- Vumbora hômi, que o trem num ispera! Disse Doralice para Biaman que se apressou mais na arrumação final do matulão cheio de “catrevagens”, ainda que não fosse usa-las todas na cidade grande.

Cientes de que nada ficara errado, os dois se despediram dos meninos e partiram para a “Serra da Raposa”. Mal sabiam que o destino os pararia por alguns minutos na casa dos compadres Manel e Isabel.

- Entrem, façam o favor. Pra onde vocês vão levando essa barriga enorme? Indagou Isabel.

- Eu vou pra cidade, parir, Comadre Isabel!

- E vai assim de trem, nesse sacolejar todo?

- É o jeito, Comadre! Afirmou Doralice.

- Apois espere só um minutinho enquanto eu apreparo um cafezinho procês!

- Num carece não Comadre, apois eu tenho medo de me atrasar e perder o trem! Lembrou mais uma vez Doralice, preocupada com a demora.

- Conversa, mulé. Eu faço rapidinho! Garantiu Isabel.

Da casa de Manel e Isabel para a estação “Serra da Raposa” ninguém gastaria mais que cinco minutos para percorrer a distância. Mas, conversa vai, conversa vem e, quando Biaman e Doralice deram por conta, faltavam apenas 3 minutinhos para as 08:14 horas.

Caminhando o mais rápido que puderam, Biaman e Doralice ainda conseguiram ver o último vagão do trem sumir na curva a caminho da Cidade Alta. Perderam o trem. Perderam a hora e a solução foi retornar para casa e retomar a rotina diária e tentar a viagem na manhã do dia seguinte.

- Tomara Deus esse menino num se apresse! Suplicou Doralice.

A continuação da rotina diária acabou levando Biaman de volta para a roça, enquanto Doralice recompunha a vida com os três filhos e retomava os afazeres domésticos.

De noite, Doralice e Biaman já em casa, com a mesa posta para o jantar. Doralice ainda teve tempo de falar com um dos filhos:

- Bibiu, meu filho, adispois que você botar o dicumê do gatinho, ligue a televisão.

E foi exatamente no horário do noticioso local, que o apresentador do telejornal, com voz pausada anunciou:

- Trem descarrilha na manhã de hoje, no trecho entre a estação “Serra da Raposa” e o município de Botuquinha, e causa desastre pavoroso. Os 49 passageiros que estavam nos vagões a caminho da Cidade Alta, faleceram.

- Meu Deus, que horror! Disse Doralice.

- Abençoado seja sempre o seu cafezinho, Comadre Isabel! Bradou alto Biaman!

 

 

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