Estação
de “Serra da Raposa” depois da passagem do trem.
Trem
das sete
(Raul Seixas)
Ói, ói o trem,
vem surgindo de trás
das montanhas azuis,
olha o trem
Ói, ói o trem,
vem trazendo de longe
as cinzas do velho aeon
Ói, já é vem,
fumegando, apitando,
chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem,
não precisa passagem
nem mesmo bagagem no trem
Como se fora comandado pela precisão londrina,
exatamente às 08:14 horas de todos os dias, chovesse ou fizesse sol, o trem que
fazia a linha Cidade Alta-Munduba, encostava na estação ferroviária de “Serra
da Raposa”, onde deixava passageiros e cargas e recebia outros tantos. Nesta
estação, havia anos, o movimento maior era no desembarque de passageiros e de
cargas. A organização de tudo dava a falsa ideia de lentidão. Mas tudo
acontecia de forma cronometrada, da chegada até a partida.
A noite da segunda-feira fora diferente na casa de
Biaman e Doralice. Tudo por conta dos preparativos para a viagem da manhã do
dia seguinte. Doralice, em dias próximos de parir o quarto filho do casal,
precisava deixar tudo preparado para os filhos menores – sob a guarda de Nato,
o mais velho, de apenas 13 anos – passarem pelo menos dois dias sem a presença
dela durante o “resguardo”.
O percurso entre a casa de Biaman e Doralice e a
estação do trem, não era tão distante assim. Embora caminhando de forma lenta
em virtude do avançado estado de gravidez, Doralice faria essa distância num
máximo de 15 minutos.
- Vumbora hômi, que o trem num ispera! Disse Doralice
para Biaman que se apressou mais na arrumação final do matulão cheio de
“catrevagens”, ainda que não fosse usa-las todas na cidade grande.
Cientes de que nada ficara errado, os dois se
despediram dos meninos e partiram para a “Serra da Raposa”. Mal sabiam que o
destino os pararia por alguns minutos na casa dos compadres Manel e Isabel.
- Entrem, façam o favor. Pra onde vocês vão levando
essa barriga enorme? Indagou Isabel.
- Eu vou pra cidade, parir, Comadre Isabel!
- E vai assim de trem, nesse sacolejar todo?
- É o jeito, Comadre! Afirmou Doralice.
- Apois espere só um minutinho enquanto eu apreparo um
cafezinho procês!
- Num carece não Comadre, apois eu tenho medo de me
atrasar e perder o trem! Lembrou mais uma vez Doralice, preocupada com a
demora.
- Conversa, mulé. Eu faço rapidinho! Garantiu Isabel.
Da casa de Manel e Isabel para a estação “Serra da
Raposa” ninguém gastaria mais que cinco minutos para percorrer a distância.
Mas, conversa vai, conversa vem e, quando Biaman e Doralice deram por conta,
faltavam apenas 3 minutinhos para as 08:14 horas.
Caminhando o mais rápido que puderam, Biaman e Doralice
ainda conseguiram ver o último vagão do trem sumir na curva a caminho da Cidade
Alta. Perderam o trem. Perderam a hora e a solução foi retornar para casa e
retomar a rotina diária e tentar a viagem na manhã do dia seguinte.
- Tomara Deus esse menino num se apresse! Suplicou
Doralice.
A continuação da rotina diária acabou levando Biaman de
volta para a roça, enquanto Doralice recompunha a vida com os três filhos e
retomava os afazeres domésticos.
De noite, Doralice e Biaman já em casa, com a mesa
posta para o jantar. Doralice ainda teve tempo de falar com um dos filhos:
- Bibiu, meu filho, adispois que você botar o dicumê do
gatinho, ligue a televisão.
E foi exatamente no horário do noticioso local, que o
apresentador do telejornal, com voz pausada anunciou:
- Trem descarrilha na manhã de hoje, no trecho entre a
estação “Serra da Raposa” e o município de Botuquinha, e causa desastre
pavoroso. Os 49 passageiros que estavam nos vagões a caminho da Cidade Alta,
faleceram.
- Meu Deus, que horror! Disse Doralice.
- Abençoado seja sempre o seu cafezinho, Comadre
Isabel! Bradou alto Biaman!
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