por
Antonio Risério
Nenhum observador sério da cena
brasileira engolia nesses últimos anos o conto governamental de que a
desigualdade social vinha diminuindo progressivamente no país desde que o PT
tinha chegado ao poder. Bastava olhar em volta para chegar a conclusão diversa.
Via-se que, do “plano real” de Fernando Henrique à ênfase de Lula nas políticas
sociais, o poder de compra dos mais pobres aumentara. Mas tal aumento não
implicaria automaticamente a redução das distâncias classistas.
Além disso, vários dados desmontavam
a fantasia manipuladora da propaganda petista. Por exemplo: relatório da ONU em
2012 apontava o Brasil como um dos 12 países mais desiguais do mundo. Ou ainda,
para lembrar a distinção insistente dos sociólogos, a política social do
“lulopetismo” era (e continua a ser) fundamentalmente assistencialista, em
detrimento de políticas públicas redistributivas (educação, saúde, transporte,
moradia), previstas já na Constituição de 1988. Na outra ponta, os banqueiros
lucravam como nunca antes nesse país. Como, num horizonte desses, a
desigualdade poderia cair progressiva e significativamente?
Veio então a confirmação numérica de
nossas suspeitas, com um estudo de três pesquisadores ligados à Universidade de
Brasília e ao Ipea: “O Topo da Distribuição de Renda no Brasil”. Eles deixaram
de lado os dados oficiais da PNAD, insuficientes para medir a renda verdadeira
dos mais ricos, e, seguindo a lição de Thomas Piketty, se concentraram em
informações contidas nas declarações do Imposto de Renda. Mostraram assim que os
ricos brasileiros ganham muito mais do que dizem os números oficiais. E que a
famosa queda na desigualdade, alardeada pelo governo federal, não passa de mais
uma lenda marqueteira. Já em 2012, ao contrário do que dizia a PNAD, os 5% mais
ricos da população brasileira embolsavam 44% (quase a metade) da renda total do
país.
As entrevistas subjetivas da PNAD não
conseguiam chegar aos dados reais de um dos polos da hierarquia social – e logo
do polo dos endinheirados. Como medir assim a desigualdade social brasileira?
Impossível. Os dados do IR, diversamente, fornecem uma base segura para a
medição. E o que vemos é que, se o grosso da população passou a ganhar melhor,
os mais ricos faturaram ainda mais. A desigualdade permaneceu, se é que não
aumentou. Como uma fatia razoável dos pobres é desobrigada de declarar IR e, ao
mesmo tempo, privilegiados recebem grana via “pessoa jurídica”, é provável que
a desigualdade nacional seja maior do que pensamos. Por fim, recebemos agora a
notícia de que a legião dos miseráveis voltou a crescer no país.
Nesse momento, 0.1% da população
brasileira de maiores de 18 anos de idade ganha o suficiente para comprar pelo
menos um apartamento a cada trimestre, enquanto milhões de outros brasileiros
moram amontoados, extremamente mal alojados em casebres mambembes – ou
simplesmente não têm onde morar. E não me venham falar das bolachas quebradas
do “Minha Casa, Minha Vida”, construindo hoje as nossas favelas de amanhã.
* Antonio Risério é um antropólogo,
poeta, ensaísta e historiador. (Fonte:
Bahia Notícias - Por Instituto Maria Preta).
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