sábado, 3 de outubro de 2015

A espera

 

Sei que ainda lembras. Era uma tarde de outono e nos encontramos no lugar que se preparava para receber a primavera. O vento forte e carinhoso soprava as folhas caídas para rejuvenescimento, tal como Neruda escreveria os primeiros versos de um poema: cheios do húmus do amor.

Tua mão trêmula parecia receber ligação direta do pulsar agitado do meu coração. Éramos pura emoção, e nos dividíamos em algo que, em verdade, parecia nos unir.

Nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez. Bebendo as nossas almas e sonhando nossos sonhos infinitos transportados pelas estrelas cadentes. O pouso seguinte nos separava de nós deixando marcas e tatuagens que jamais se apagarão.

Aquele balanço! Lembra dele?

Uma câmara do estepe guardada na mala do carro e alguns metros de fio nos levavam para a tenra idade. Balançávamos enquanto ríamos, reforçando em nós a felicidade.

Voltei ontem ao local, depois de ter conseguido falar contigo na via láctea. Acho que, por algum momento fiz confusão – estavas muito rápida e querendo se transformar em cadente, mas ainda assim, conseguimos conversar.

Como prometeste que viria, voltei ao nosso lugar de encontros. Esperei. Esperei e esperei muito. Mas, ainda que não tenhas ido, continuarei comparecendo, Usarei o balanço da câmara, como de hábito, como se contigo estivesse ali, balançando. Depois, com certeza limparei as folhas que tomam nossos lugares no nosso banco e, sentarei. Continuarei esperando.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor. Não aceitaremos palavras indecorosas nem comentários que atinjam a honra dos demais comentaristas.