Sei que ainda lembras. Era uma tarde de outono e nos
encontramos no lugar que se preparava para receber a primavera. O vento forte e
carinhoso soprava as folhas caídas para rejuvenescimento, tal como Neruda
escreveria os primeiros versos de um poema: cheios do húmus do amor.
Tua mão trêmula parecia receber ligação direta do
pulsar agitado do meu coração. Éramos pura emoção, e nos dividíamos em algo
que, em verdade, parecia nos unir.
Nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela
primeira vez. Bebendo as nossas almas e sonhando nossos sonhos infinitos
transportados pelas estrelas cadentes. O pouso seguinte nos separava de nós
deixando marcas e tatuagens que jamais se apagarão.
Aquele balanço! Lembra dele?
Uma câmara do estepe guardada na mala do carro e alguns
metros de fio nos levavam para a tenra idade. Balançávamos enquanto ríamos,
reforçando em nós a felicidade.
Voltei ontem ao local, depois de ter conseguido falar
contigo na via láctea. Acho que, por algum momento fiz confusão – estavas muito
rápida e querendo se transformar em cadente, mas ainda assim, conseguimos
conversar.
Como prometeste que viria, voltei ao nosso lugar de
encontros. Esperei. Esperei e esperei muito. Mas, ainda que não tenhas ido, continuarei
comparecendo, Usarei o balanço da câmara, como de hábito, como se contigo
estivesse ali, balançando. Depois, com certeza limparei as folhas que tomam
nossos lugares no nosso banco e, sentarei. Continuarei esperando.
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