Quase 140 deputados de 14
partidos votaram mais de 85% das vezes seguindo orientação da liderança do PMDB
no primeiro semestre. Desenvolvido por professores universitários, pesquisa
detalha a atuação da bancada suprapartidária de Cunha.
Com seu poder em xeque desde que foi denunciado
pela Procuradoria-Geral da República na Operação Lava Jato e deixado de lado pela presidente Dilma Rousseff nas negociações com o
PMDB, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), vive o desafio de saber
com quem poderá contar a partir de agora. No primeiro semestre legislativo,
quando impôs sucessivas derrotas ao Planalto, Cunha demonstrou um poder que
transcendeu, e muito, a bancada peemedebista. Essa é uma das constatações do
levantamento produzido pelo Laboratório Analytics, a pedido do Congresso em
Foco, segundo o qual um em cada quatro deputados seguiu as recomendações do
cacique do PMDB na Câmara em 85% das votações.
Ao todo, 138 parlamentares de 14 partidos votaram
conforme as orientações da legenda. O levantamento considerou todas as votações
realizadas no Plenário da Câmara no primeiro semestre deste ano. Com o objetivo
de aferir o grau de fidelidade de parlamentares a Cunha, pesquisadores do
Departamento de Computação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG),
responsáveis pelo laboratório, desenvolveram uma espécie de “Cunhômetro”.
Como Eduardo Cunha, na condição de presidente da
Câmara, não pode votar nem recomendar que deputados votem dessa ou daquela
maneira – a chamada orientação de bancada -, a pesquisa mapeou a coincidência
entre os votos dos 513 deputados e as orientações do líder do PMDB na Casa,
Leonardo Picciani (RJ). No período em questão, ele era um fiel escudeiro de Cunha.
No último mês, no entanto, Picciani se aproximou da presidenta Dilma Rousseff,
com quem tem tratado da reforma ministerial, fez discursos contra o impeachment
e se afastou, em alguma medida, de seu companheiro de partido e estado, e a
quem deve a articulação para virar líder.
Até então, o governo sofria uma sequência de
derrotas no Parlamento, incluídas as de consequência mais grave no curto prazo,
relacionadas ao ajuste fiscal. Nesse sentido, os interesses do Palácio do
Planalto foram sub-representados em meio à infidelidade de uma base governista
que, embora seja ampla maioria na Casa, reage circunstancialmente à
impopularidade de Dilma. Ao todo, são 18 legendas aliadas no comando de 345
deputados. De acordo com o levantamento, 134 deles também fazem parte da
suprapartidária bancada do presidente da Câmara.
Tais deputados estão distribuídos entre dez
partidos aliados ao Planalto: PMDB, PR, PR, PSD, PTB, PRB, PEN, PHS, PTdoB e
PRP, siglas em que estão abrigadas nove lideranças de bancada.
O PMDB foi a sigla mais fiel às recomendações de
seu líder: dos 67 deputados peemedebistas, 49 atingiram o percentual de 85% de
voto orientado nas votações de plenário. Já o PR, segundo partido mais
expressivo dessa bancada, comportou-se da seguinte maneira: dos 34 deputados da
sigla, 24 votaram de maneira convergente a Cunha, segundo a orientação do líder
Maurício Quintella Lessa (AL). O índice de fidelidade de Lessa a Cunha foi
verificado em 93,8% das votações.
Segundo o deputado alagoano, sua legenda procurou
afinação com o Planalto no que diz respeito às medidas de reequilíbrio
econômico. Ao dizer que pelo menos 60% da bancada votou a favor do primeiro
pacote de ajuste fiscal, Lessa observou que divergências em relação a pleitos
do Legislativo puderam revelar uma maior afinidade entre PR e PMDB. “Temos
muitas bandeiras diferentes do PT, apesar de sermos da base. Nas matérias que
pertencem à governabilidade, nós procuramos garantir as vitórias. Naquilo que é
bandeira – por exemplo, terceirização –, isso não é matéria de governabilidade.
De repente nossas bandeiras estão mais parecidas com as do PMDB. É uma questão
ideológica”, analisou.
Fator economia - Depois do
Partido Republicano, o PP é o partido que mais se aliou a Cunha: 20 dos 39
deputados pepistas votaram segundo as recomendações do PMDB em pelo
menos 85% das vezes. Seu líder, Eduardo da Fonte (PE), votou com o partido de
Cunha em 94,2% das vezes. Para ele, as sucessivas derrotas do governo não podem
ser atribuídas ao presidente da Câmara. “O que derrotou o governo não foi base
ou a oposição, foi a pauta. Pautas populares, que muitas vezes os parlamentares
defendem nas eleições e, quando chega em votação, não podem fazer diferente”,
disse.
Segundo Eduardo da Fonte, a mudança de atitude do
Parlamento se deu na medida em que se evidenciou a gravidade da crise
econômica. “A conscientização do que de fato representava essa questão foi
importante. Medidas que prejudicam a economia, o desenvolvimento do país, eu
tenho certeza que a Casa não vai mais aprovar”, previu o deputado pernambucano.
Entre os líderes que compõem a bancada de Cunha
também estão Jovair Arantes (PTB-GO), com 98,1% de suas votações em
concordância com as do PMDB; Marcelo Aro (PHS-MG), com 89,5%; Rogério Rosso
(PSD-DF), com 89%; Juscelino Filho (PRP-MA), com 85,8%; Luis Tibé (PTdoB-MG),
com 85,4%; e Junior Marreca (PEN-MA), com 85,1%.
Dos parlamentares que pertencem ao grupo de Cunha,
apenas quatro não são da base governista na Câmara: Takayama (PSC-PR), Delegado
Edson Moreira (PTN-MG), José Maia Filho (SD-PI) e Vicentinho Júnior (PSB-TO).
Contra Cunha - Um dos críticos
mais enfáticos de Eduardo Cunha , Glauber Braga (Psol-RJ) argumenta que o
peemedebista fluminense exerce duplo papel como deputado: presidir a Câmara e
coordenar sua bancada. Segundo o deputado, Cunha usa algumas de suas
atribuições, como conduzir os trabalhos em plenário e definir a pauta de
votação, para conquistar parlamentares com interesses mútuos e impor sua
vontade.
“Cunha tem uma bancada própria, que passa por
partidos que são do governo e por partidos que são da oposição. Ele trabalha
como presidente e como líder de bancada. Ele não é aquele que conduz uma
reunião ordinária da Câmara sem fazer com que os posicionamentos dele
prevaleçam”, sentenciou.
Glauber, filiado ao PSB no primeiro semestre, votou
apenas 41,8% com o PMDB, o que o fez ocupar o posto de 14º deputado mais infiel
às orientações do partido. Ele interpreta a reforma administrativa do Planalto
– que ampliará o espaço dos peemedebistas na máquina pública, com
concessão de ministérios – como resultado da estratégia política do Legislativo.
Segundo Glauber, Cunha já ansiava por mais espaço no Executivo desde o
início de seu mandato como presidência da Câmara.
“Ele [Cunha] começou a fazer esse tipo de chantagem
pública e explícita. Mas o chantagista se mostra pelos próprios interesses.
Quando a chantagem pública vale, ele materializa; quando tem que recuar um
pouco, ele recua. Mas vai sempre trabalhar por interesses individuais. É isso o
que vai prevalecer na atuação”, completou.
Na oposição ao governo, a Cunha e ao que
chamou de “oposição conservadora”, o líder do Psol na Câmara, Chico Alencar
(RJ), segue a mesma linha de Glauber, agora seu correligionário. Para ele, os
obstáculos que tiveram de ser ultrapassados por Dilma no Legislativo, em que
pese o loteamento de ministérios ao PMDB em troca de apoio, faziam parte do
jogo político do peemedebista, de “criar dificuldades para obter facilidades,
uma política de pressão e de chantagem”.
“Quando Dilma resolveu entregar a clara hegemonia
de seu governo ao PMDB, com mais ministérios, ela supôs conseguir uma
sustentabilidade mais efetiva aqui”, afirmou Chico, 8º deputado que menos
seguiu as recomendações do PMDB em votações. Seus votos só coincidiram com a
recomendação de Picciani em 40% das deliberações.
Cunhômetro - Considerado
uma figura controversa pelos pesquisadores do Laboratório Analytics Nazareno
Andrade e João Arthur Monteiro, professores do departamento de Computação
da UFCG, Eduardo Cunha despertou neles a curiosidade em relação ao
funcionamento da Casa legislativa ao assumir o protagonismo da cena política em
2015. Intrigados acerca da quantidade de “projetos discutíveis”
aprovados durante o primeiro ano da gestão Cunha, Nazareno e João Arthur
resolveram redirecionar para a esfera política o conhecimento obtido no
mundo das exatas.
Como explicam, nenhum dos projetos da simpatia de
Cunha conseguiram passar na peneira pelo simples fato de ele ser o
presidente da Casa. Afinal, é preciso que uma maioria absoluta de 257 deputados
aprove leis complementares e casse mandatos parlamentares, por exemplo. No caso
de propostas de emenda à Constituição, por sua vez, exige-se a adesão de ao
menos três quintos do conjunto de 513 deputados, ou seja, 308 votos.
Sendo assim, os pesquisadores analisaram o
histórico de votações de todos os deputados federais durante o primeiro
semestre de atividades legislativas. Para apresentar o resultado final,
desenvolveram um site chamado House of Cunha. O batismo foi em analogia ao seriado americano em que um congressista
americano, Frank Underwood, faz de tudo para presidir os Estados Unidos. Na
página, eles expõem as siglas que mais se aproximam e mais se afastam do PMDB
por meio de um mapa de votações – em que, individualmente, também são expostos
os nomes dos representantes. Com isso, chegaram ao que foi nomeado de
“Cunhômetro”.
De acordo com Nazareno Andrade, o projeto visa
utilizar a computação aplicada para facilitar o controle social. “A ideia é
mostrar que a computação e a programação podem ajudar o eleitor a acompanhar a
Câmara, por exemplo. Ver se o deputado em que votei é, de fato, o mais alinhado
com as minhas ideias”, explicou.
O site apresenta também o projeto intitulado
Quem me representa?,
desenvolvido por alunos da universidade no laboratório. O usuário opina sobre
assuntos polêmicos, como redução da maioridade penal, financiamento privado,
cota para mulheres no Congresso, e vê quais parlamentares têm posições
similares.
Levantamento produzido pelo Laboratório Analytics,
concedido com exclusividade para o Congresso em Foco, revela que 134
deputados da base governista, mais de um terço dos congressistas aliados da
Câmara, votou mais de 85% das vezes seguindo as recomendações da liderança do
PMDB no primeiro semestre legislativo. Ao todo, são 138 os deputados da bancada
informal do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), uma vez que outros
quatro pertencem a partidos da oposição.
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