sábado, 16 de abril de 2016

Abissal - Do particular que se faz coletivo



Documentário de Arthur Leite é o único curta cearense entre os nove selecionados para o 21º "É tudo verdade"

por Iracema Sales - Repórter

A arte tem o poder de sublimar a realidade, ao transformar histórias de vida de pessoas comuns em obras extraordinárias. O realizador cearense Arthur Leite, 24, natural de Quixeré, município distante 218 km de Fortaleza, resolveu seguir à risca a premissa para construir seu último trabalho. O documentário "Abissal" estreia nesta quinta (7), no 21º É tudo verdade - Festival Internacional de Documentários, na categoria competitiva de curtas-metragens.

A força da produção - única cearense a figurar no seleto grupo de nove curtas selecionados para a mostra, que prossegue até 17 de abril em São Paulo e no Rio - está no olhar delicado e poético do diretor.

O acaso acompanha o processo de criação do filme, cujos principais elementos construtivos são a discussão de gênero e as transformações do discurso amoroso ao longo do tempo, já que a história começa no sertão cearense, década de 1960.

Uma jovem, a avó materna do cineasta, Rosa Alvina, desafia a família e os valores da sociedade para viver uma história de amor à primeira vista, com o também jovem Durval Carvalho, avô que o cineasta não conhece até hoje. "Não sabemos se ainda está vivo", assegura o autor, que assina ainda a direção e o roteiro. Bárbara Cariry cuidou da produção executiva e Danielle Rotholi fez a assistência de direção.

Numa demonstração de que toda obra de arte traz um pouco da vida do autor, Leite enveredou pelos labirintos de memórias da própria família para compor o documentário, com duração de 17 minutos. No início, a proposta de "Abissal" era para ser uma minissérie de TV, fruto de pesquisa do primeiro laboratório de audiovisual realizado pela Escola Porto Iracema das Artes, coordenado pelos cineastas Karim Ainouz, Marcelo Gomes e Sérgio Machado.

Caminho - A pesquisa começou com a avó, que trazia ainda uma ferida aberta em decorrência da história de amor não resolvida até hoje. Guardados a sete chaves por mais de cinco décadas, há quase um ano a protagonista do filme, hoje com 74, resolveu dividir seus segredos com a família. E mais, documentá-los em forma de filme. "Venha e traga a câmera que vou contar tudo", disse com firmeza Rosa Alvina. Foi um processo longo fazer com que a avó falasse sobre seus sentimentos.

O neto-cineasta, que realizou o primeiro filme "Mato alto - pedra por pedra", aos 19 anos, sendo um dos documentários mais premiados em 2011, atendeu ao chamado de imediato.

De projeto de pesquisa para conclusão do curso de Audiovisual e Nova Mídias na Universidade de Fortaleza (Unifor), Leite revolveu transformar em documentário parte de sua própria história de vida.

"Eles se conheceram nos anos 1960", explica, completando que, logo em seguida, sua avó seguiu para Belém, cidade natal do amado. O amor durou 10 anos, até que uma carta, que seria da amante do marido, pôs fim ao relacionamento. Rosa Alvina retornou para a casa da mãe, no sertão cearense, trazendo duas filhas - uma delas a mãe do cineasta, Alba Leite.

Durante muito tempo, a avó incorporou a imagem da companheira traída e trocada por outra. Mas, na realidade, demonstrou ser uma mulher à frente de seu tempo, ao não permanecer seguindo a regra em vigor na época: a infame "ruim com ele, pior sem ele".

Preferiu abrir mão de uma vida confortável em Belém, retornando para a casa da mãe, após fazer o amado "pagar com a mesma moeda". Quando descobriu a traição, resolveu aceitar ser cortejada por um amigo do ex-amor, um marinheiro, que viria a ser pai de sua segunda filha. "Ele nunca teve a certeza de que a filha não era dele", afirma Leite, que viu desconstruída a figura da avó, de mulher resignada com a traição. "A vingança foi deixar o ex-marido na dúvida", pontua o cineasta, afirmando que o último contato do casal foi em 1980.

A trama mistura elementos de drama familiar, trazendo segredos à tona - um deles justamente a verdadeira paternidade da segunda filha, só agora revelada pela avó, diante da câmera atenta e firme do neto. "O filme é bem poético e mostra também a força da mulher", destaca Leite, levando em consideração a configuração sociocultural do período. Não era comum mulheres se separarem, tampouco largarem a família em busca de um grande amor.

Catarse - Com o filme, Leite espera que a avó consiga sublimar uma situação de sofrimento que a acompanha desde a década de 1970, quando viu seu projeto de amor chegar ao fim. Há mais de 20 anos ela sofre de depressão crônica, recorrendo à religião. "Vive afogada em memórias", argumenta o diretor, admitindo ter ficado mais leve após as declarações.

Leite pretende lançar o filme no Amazonas, a fim de saber se o avô ainda está vivo. Na tentativa de encontrar alguma pista, o jovem também lançou um página do curta no Facebook.

O cineasta não sabe definir qual o sentimento que a protagonista nutre pelo ex-amor, se afeto ou mágoa. Ao mesmo tempo em que fala dele com desprezo, preferindo que esteja morto, guarda objetos, como a garrafa de café e roupas dele. "Ela teve outros relacionamentos, mas todos breves. Há mais de 30 anos está sozinha", comenta Leite.

O que mais impressiona o cineasta é perceber o poder de alcance da história, que atravessa o tempo. Imerso no tema, que perpassa também sua própria história, o autor promete continuar o documentário, indo buscar a visão do avô. "Estou tentando captação", diz, explicando ser um projeto mais dispendioso por incluir viagens.

O filme - "Abissal" foi finalizado neste ano, estreando no festival "É tudo verdade", o maior da América Latina e um dos principais do gênero no mundo. A expectativa de Leite quanto a essa participação é positiva - caso seja vencedor, estará concorrendo, automaticamente, ao Oscar de melhor documentário em 201 (trata-se de único festival brasileiro parceiro da Academia de Ciências Cinematográficas Americana).

O curta cearense estreia dia 9 de abril no cinema CineArte (SP) e, na sequência, dia 10, no Espaço Itaú de Cinema, na Praia de Botafogo (Rio). As demais exibições terão como palco o Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio, e no Centro Cultural São Paulo. (Diário do Nordeste).




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