segunda-feira, 4 de abril de 2016

Da porteira ao Bolshoi



A chuva fina e intermitente continuava caindo, com vontade de dizer que não cessaria tão cedo. No sertão, não é apenas o agricultor que roga à Deus para que ela venha e dê vida às coisas terrenas. Todos juntam as mãos e levantam olhares para os céus num diálogo quase diário.

- Bendita chuva, Pai Eterno! Agradecia, contrita, Raimunda Buretama.

Na latada lateral da casa, João Doca acabara de preparar a montaria e cuidava de amarrar a espora no tornozelo direito por sobre a calça de linho branco que costumava usar aos domingos, a caminho da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para a missa.

- Véia, tô arrumado! Vô na missa e num ademoro, visse!

- Vai com Deus, véi! Se alembre de mim nas pedição das reza.

Relho na mão direita, João Doca montou o burro Junin e se avexou na caminhada que não era pequena. Precisou apear do animal para abrir a tramela e a porteira, para passar com o burro e seguir. Apeado, teve a atenção voltada para um surrão velho deixado por alguém ao pé da estaca da porteira da casa.

- Que diacho é isso? Indagou João Doca a si mesmo, ao mesmo tempo que, com cuidado abria o surrão.

Imaginando que poderia encontrar alguma cobra venenosa dentro do surrão, João Doca retirou a foice que carregava consigo da bainha e a empunhou, abrindo cuidadosamente a peça de palha.

- Véia, acode aqui! Vem nas carrera, mulé! Gritou João Doca.

- O que é hômi de Deus! Que diacho! Respondeu Raimunda Buretama correndo como uma desembestada na direção da porteira.

- Espie aqui véia!... que arrumação é essa?!

Sem entender o que estava vendo, Raimunda Buretama abriu ainda mais as alças do surrão e retirou uma criança que, provavelmente, alguém deixara ali sem eira nem beira.

- Véia, que cagente faz?! Indagou João Doca.

- Hômi, que cagente vai fazer eu inda num sei. Você se arrexe e, na Igreja, adispois da missa conte prupade e pregunte a ele o que cagente faz! Vá simbora logo, criatura de Deus!

Sem entender o que estava fazendo – mas era preciso fazer - Raimunda Buretama levou o bebê para dentro de casa e resolveu armar uma rede velhinha e bem lavada que guardava no baú como reserva para algum visitante. Depois de adormentar a criança, foi ao chiqueiro das cabras na tentativa de pegar uma caneca de leite – era o único que tinha à disposição – para fazer um mingau. Imaginava que a criança estava dormindo de tanta fome, mas, como a respiração ainda estava perceptível passou a ter certeza que ela estava viva.

Sem mamadeira, Raimunda preparara o mingau com goma de tapioca e, enquanto alimentava o bebê com uma colher, percebeu que João Doca entrara pela porteira na companhia de alguém. Era o Padre Getúlio. Benza Deus!

- Seu João Doca e Dona Raimunda Buretama, o que está acontecendo aqui? Indagou o Padre Getúlio que, praticamente fora trazido da Igreja Matriz para tentar ajudar a resolver um angustiante problema,

- Seu Padi, nóis incontremo esse menino ali na nossa porteira, dentro desse surrão véi. O que que nóis faiz, hômi de Deus?!

- Dona Raimunda, crie! Vou assuntar nas missas por um mês. Se não aparecer o pai ou a mãe, o menino é seu, ora! Quem sabe é um presente de Deus?!

Transcorrido o mês autorizado pelo Padre Getúlio, e com o menino já tomando tenência, ficando durinho, virando a alegria da casa, João Doca e Raimunda resolveram dar um nome à criança:

- Vamos chamar ele, cuma João?

- “Achado na Porteira” é que num é, né véia!...Que tal José, um nome santo?

- E tu quer butar, Zé do Surrão, é?

- Arre égua, muié, larga de sê besta, diacho!

- Entonces, vamo butar José de Arribamar, tá certo?

Não. Não estava certo, ainda que Raimunda não tenha respondido nada. Mas, o nome do menino, naquele momento era o que menos importava. O que realmente tinha importância era arrumar a vida da criança, com roupa, fraldas, lugar de dormir e principalmente o que comer – embora duas cabras estivessem paridas e dando leite em demasia. Mas, precisava afastar os cabritos. Caso contrário, leite, só se fosse do couro de cururu.

Os dias se passaram, e quando menos se esperava, eis que Joaquim Albano, o dono das terras cedidas aos meeiros aceitou batizar o menino. E, para batizar tinha que ter nome. As peraltices que começavam a surgir trouxeram uma ideia:

- ... e eu te batizo, Henrique, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!

Largado ao próprio destino dentro de um surrão velho no pé de uma estaca da porteira de entrada da casa dos Buretamas, não tinha nada com a nobreza do nome Henrique que, segundo alguns, tem muito com o germânico. Garantem os entendidos, que o nome Henrique tem muita relação com “príncipe do lar” ou aquele que nasceu para exercer a chefia da casa. É. É verdade. Quase todos os mordomos atendem pelo nome Henrique.

Destino – O tempo passou. Henrique chegou à adolescência e deixou de ser imberbe. Permanecia muito tempo em casa, enquanto João Doca cuidava da roça e Raimunda fazia o de comer e tangia as cabras.

Mais preocupado em cuidar das unhas das mãos - sempre bem aparadas e lixadas – que da aparência como um todo, Henrique deixou crescer o cabelo e esse chegara aos ombros.

João Doca não aprovava aquela aparência de Henrique, muito menos Raimunda. Eis que, certo dia João Doca separou um dinheiro que reservara para uma real necessidade e mandou Henrique cortar o cabelo com o barbeiro que trabalhava no Mercado de Secos e Salgados.

Henrique não reclamou e até agradeceu. Na barbearia, enquanto esperava ser chamado, Henrique folheava uma revista O Cruzeiro, quando encontrou uma foto de Mikhail Baryshnikov em plena evolução.

.... três anos depois, sem qualquer profissão, tendo concluído apenas o Ensino Médio, Henrique mudou para Joinville. Não tinha nada de si, além da coragem de procurar o que acreditava ser o seu destino.

Precisando comer, procurou trabalho, qualquer que fosse. Trabalhou como jardineiro, vigia noturno – e, nesse, começou a aguçar a sensibilidade, pois entendeu que era muito importante ter as noites livres – cobrador de ônibus, caixa de supermercados.

Conheceu e fez amigos e amigas. Começou a conhecer melhor e entender a cidade de Joinville, como tudo funcionava e o que precisava fazer para melhorar sua visão e alicerçar seu destino.

Certa noite, ao procurar abrigo sob uma marquise enquanto começava a chover, conheceu Isabele, uma jovem esquia, boa estatura – que acabara de ser deixada ali por uma amiga. Estava vindo da aula de balé e, como morava a poucos metros dali, resolveu esperar a chuva diminuir ou passar. A conversa fluiu – era apenas o destino de Henrique que começava a se cumprir.

- Você gosta de balé? Indagou Isabele.

- De mais! Nunca estive num teatro ou num palco, mas sinto como se tivesse nascido ali.

- E por que não pratica balé?

- Não tenho condição financeira alguma. O que ganho, ainda não dá para comer direito. Imagine para estudar balé!

- Eu tenho uma estrutura em casa que poderia ajudar. Você toparia praticar comigo, na minha casa?

- Claro! Onde você mora?

- Ali. Apontou Isabele, sem que os dois percebessem que a chuva havia diminuído significativamente.

- Vou te acompanhar até em casa, então. Ofereceu-se Henrique.

Destino é algo impressionante. Foi graças à chuva que, anos atrás, Henrique foi “achado” dentro de um surrão velho. Agora, novamente por conta da chuva, Henrique começou uma amizade que lhe abriu as portas de forma mais garantida.

Seis anos se passaram, até que Henrique foi levado para estudar balé no Bolshoi de Joinville. Dois anos depois, chegaria ao Bolshoi da Rússia, começando a realizar o principal sonho da sua vida.

Num dia que ficou marcado na vida da criança largada dentro de um surrão velho na estaca de uma porteira, aconteceu a tão esperada estreia.

Pulôveres, casacos, muitas roupas de frio tornavam a plateia do Teatro Bolshoi quase idêntica. Parecendo estratégia, entre tantos bem-vestidos, um casal se portava diferente – o homem chamava a atenção por suas roupas simples e a diferença era um chapéu de palha na cabeça. João Doca e Raimunda Buretama, sem entender nada do que acontecia, riam pela felicidade que percebiam estar vindo de Henrique.






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor. Não aceitaremos palavras indecorosas nem comentários que atinjam a honra dos demais comentaristas.