A chuva fina e intermitente continuava caindo, com
vontade de dizer que não cessaria tão cedo. No sertão, não é apenas o
agricultor que roga à Deus para que ela venha e dê vida às coisas terrenas.
Todos juntam as mãos e levantam olhares para os céus num diálogo quase diário.
- Bendita chuva, Pai Eterno! Agradecia, contrita,
Raimunda Buretama.
Na latada lateral da casa, João Doca acabara de
preparar a montaria e cuidava de amarrar a espora no tornozelo direito por
sobre a calça de linho branco que costumava usar aos domingos, a caminho da
Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para a missa.
- Véia, tô arrumado! Vô na missa e num ademoro, visse!
- Vai com Deus, véi! Se alembre de mim nas pedição das
reza.
Relho na mão direita, João Doca montou o burro Junin e
se avexou na caminhada que não era pequena. Precisou apear do animal para abrir
a tramela e a porteira, para passar com o burro e seguir. Apeado, teve a
atenção voltada para um surrão velho deixado por alguém ao pé da estaca da
porteira da casa.
- Que diacho é isso? Indagou João Doca a si mesmo, ao
mesmo tempo que, com cuidado abria o surrão.
Imaginando que poderia encontrar alguma cobra venenosa
dentro do surrão, João Doca retirou a foice que carregava consigo da bainha e a
empunhou, abrindo cuidadosamente a peça de palha.
- Véia, acode aqui! Vem nas carrera, mulé! Gritou João
Doca.
- O que é hômi de Deus! Que diacho! Respondeu Raimunda
Buretama correndo como uma desembestada na direção da porteira.
- Espie aqui véia!... que arrumação é essa?!
Sem entender o que estava vendo, Raimunda Buretama
abriu ainda mais as alças do surrão e retirou uma criança que, provavelmente,
alguém deixara ali sem eira nem beira.
- Véia, que cagente faz?! Indagou João Doca.
- Hômi, que cagente vai fazer eu inda num sei. Você se
arrexe e, na Igreja, adispois da missa conte prupade e pregunte a ele o que
cagente faz! Vá simbora logo, criatura de Deus!
Sem entender o que estava fazendo – mas era preciso
fazer - Raimunda Buretama levou o bebê para dentro de casa e resolveu armar uma
rede velhinha e bem lavada que guardava no baú como reserva para algum
visitante. Depois de adormentar a criança, foi ao chiqueiro das cabras na
tentativa de pegar uma caneca de leite – era o único que tinha à disposição –
para fazer um mingau. Imaginava que a criança estava dormindo de tanta fome,
mas, como a respiração ainda estava perceptível passou a ter certeza que ela
estava viva.
Sem mamadeira, Raimunda preparara o mingau com goma de
tapioca e, enquanto alimentava o bebê com uma colher, percebeu que João Doca
entrara pela porteira na companhia de alguém. Era o Padre Getúlio. Benza Deus!
- Seu João Doca e Dona Raimunda Buretama, o que está
acontecendo aqui? Indagou o Padre Getúlio que, praticamente fora trazido da
Igreja Matriz para tentar ajudar a resolver um angustiante problema,
- Seu Padi, nóis incontremo esse menino ali na nossa
porteira, dentro desse surrão véi. O que que nóis faiz, hômi de Deus?!
- Dona Raimunda, crie! Vou assuntar nas missas por um
mês. Se não aparecer o pai ou a mãe, o menino é seu, ora! Quem sabe é um
presente de Deus?!
Transcorrido o mês autorizado pelo Padre Getúlio, e com
o menino já tomando tenência, ficando durinho, virando a alegria da casa, João
Doca e Raimunda resolveram dar um nome à criança:
- Vamos chamar ele, cuma João?
- “Achado na Porteira” é que num é, né véia!...Que tal
José, um nome santo?
- E tu quer butar, Zé do Surrão, é?
- Arre égua, muié, larga de sê besta, diacho!
- Entonces, vamo butar José de Arribamar, tá certo?
Não. Não estava certo, ainda que Raimunda não tenha
respondido nada. Mas, o nome do menino, naquele momento era o que menos
importava. O que realmente tinha importância era arrumar a vida da criança, com
roupa, fraldas, lugar de dormir e principalmente o que comer – embora duas
cabras estivessem paridas e dando leite em demasia. Mas, precisava afastar os
cabritos. Caso contrário, leite, só se fosse do couro de cururu.
Os dias se passaram, e quando menos se esperava, eis
que Joaquim Albano, o dono das terras cedidas aos meeiros aceitou batizar o
menino. E, para batizar tinha que ter nome. As peraltices que começavam a
surgir trouxeram uma ideia:
- ... e eu te batizo, Henrique, em nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo. Amém!
Largado ao próprio destino dentro de um surrão velho no
pé de uma estaca da porteira de entrada da casa dos Buretamas, não tinha nada
com a nobreza do nome Henrique que, segundo alguns, tem muito com o germânico.
Garantem os entendidos, que o nome Henrique tem muita relação com “príncipe do
lar” ou aquele que nasceu para exercer a chefia da casa. É. É verdade. Quase
todos os mordomos atendem pelo nome Henrique.
Destino –
O tempo passou. Henrique chegou à adolescência e deixou de ser imberbe.
Permanecia muito tempo em casa, enquanto João Doca cuidava da roça e Raimunda
fazia o de comer e tangia as cabras.
Mais preocupado em cuidar das unhas das mãos - sempre
bem aparadas e lixadas – que da aparência como um todo, Henrique deixou crescer
o cabelo e esse chegara aos ombros.
João Doca não aprovava aquela aparência de Henrique,
muito menos Raimunda. Eis que, certo dia João Doca separou um dinheiro que reservara
para uma real necessidade e mandou Henrique cortar o cabelo com o barbeiro que
trabalhava no Mercado de Secos e Salgados.
Henrique não reclamou e até agradeceu. Na barbearia,
enquanto esperava ser chamado, Henrique folheava uma revista O Cruzeiro, quando
encontrou uma foto de Mikhail Baryshnikov em plena evolução.
.... três anos depois, sem qualquer profissão, tendo
concluído apenas o Ensino Médio, Henrique mudou para Joinville. Não tinha nada
de si, além da coragem de procurar o que acreditava ser o seu destino.
Precisando comer, procurou trabalho, qualquer que
fosse. Trabalhou como jardineiro, vigia noturno – e, nesse, começou a aguçar a
sensibilidade, pois entendeu que era muito importante ter as noites livres –
cobrador de ônibus, caixa de supermercados.
Conheceu e fez amigos e amigas. Começou a conhecer
melhor e entender a cidade de Joinville, como tudo funcionava e o que precisava
fazer para melhorar sua visão e alicerçar seu destino.
Certa noite, ao procurar abrigo sob uma marquise
enquanto começava a chover, conheceu Isabele, uma jovem esquia, boa estatura –
que acabara de ser deixada ali por uma amiga. Estava vindo da aula de balé e,
como morava a poucos metros dali, resolveu esperar a chuva diminuir ou passar.
A conversa fluiu – era apenas o destino de Henrique que começava a se cumprir.
- Você gosta de balé? Indagou Isabele.
- De mais! Nunca estive num teatro ou num palco, mas
sinto como se tivesse nascido ali.
- E por que não pratica balé?
- Não tenho condição financeira alguma. O que ganho,
ainda não dá para comer direito. Imagine para estudar balé!
- Eu tenho uma estrutura em casa que poderia ajudar.
Você toparia praticar comigo, na minha casa?
- Claro! Onde você mora?
- Ali. Apontou Isabele, sem que os dois percebessem que
a chuva havia diminuído significativamente.
- Vou te acompanhar até em casa, então. Ofereceu-se
Henrique.
Destino é algo impressionante. Foi graças à chuva que,
anos atrás, Henrique foi “achado” dentro de um surrão velho. Agora, novamente
por conta da chuva, Henrique começou uma amizade que lhe abriu as portas de
forma mais garantida.
Seis anos se passaram, até que Henrique foi levado para
estudar balé no Bolshoi de Joinville. Dois anos depois, chegaria ao Bolshoi da
Rússia, começando a realizar o principal sonho da sua vida.
Num dia que ficou marcado na vida da criança largada
dentro de um surrão velho na estaca de uma porteira, aconteceu a tão esperada
estreia.
Pulôveres, casacos, muitas roupas de frio tornavam a
plateia do Teatro Bolshoi quase idêntica. Parecendo estratégia, entre tantos
bem-vestidos, um casal se portava diferente – o homem chamava a atenção por
suas roupas simples e a diferença era um chapéu de palha na cabeça. João Doca e
Raimunda Buretama, sem entender nada do que acontecia, riam pela felicidade que
percebiam estar vindo de Henrique.
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