sexta-feira, 27 de março de 2015

Jogando cabiçulinha





Bilas (petecas ou bola de gude) – as maiores eram as “olho de gato”

 

Foi inspirado em situações do passado, que surgiram no dia-a-dia alguns personagens dos gibis, naqueles tempos considerados infantis, mesmo! Pato Donald chegou trazendo Huguinho, Zezinho e Luizinho e, para contrastar as coisas boas da vida, veio também o tio Patinhas, do mesmo DNA patológico, mas adversário ferrenho, por ser ranzinza e entender o sobrinho (Donald) como um pobre, perdulário e aproveitador, que queria dormir em berço esplêndido e usufruir da sua riqueza amealhada com tantas dificuldades.

Vieram o Recruta Zero, que nos trouxe o Sargento Tainha e o soldado Dentinho, exatamente quando já desfrutávamos do Popeye e Olívia Palito, que viviam agruras com o sempre metido a conquistador, Brutus.

E, olhem, nem falamos nos Sobrinhos do Capitão, gibi mensal produzido por Rudolph Dirks para a King Features (Katzenjammer Kids) e traduzido no Brasil pela EBAL, que nos trouxe os personagens incríveis e crianças insuportáveis como Hans e Fritz pregando peças a todo instante contra Mama Chucrutz e no Coronel, um bedel de colégio que perseguia e era perseguido por todos. Mas, essa será outra história, que prometo contar num futuro próximo.

Queremos falar neste primeiro momento, é da responsável beleza das brincadeiras do passado, lugar reservado para crianças sadias que eram castigadas por não conhecer o modernismo da criação atual, e, também tinham a sorte de não terem condições financeiras para usufruir dos tablets, games, whatsapps de hoje. Graças à Deus, éramos pobres e vivíamos apenas de estudar e brincar. Éramos crianças e não robôs que já nascem calçados de tênis de marca em hospitais de alta complexidade – mas não aprendem a brincar e acabam seguindo a bifurcação errada no fácil e aberto caminho das drogas. Mas, esse também é outro “papo”.

- Vamos jogar bila?

- Vamos jogar o “mata” ou o “triângulo”?

- A gente joga o “mata” e, quando chegar mais gente, jogamos o “triângulo” e depois o “quila”!

Para a diversidade adjetiva do nosso País, a bola de gude é também conhecida como peteca, bila e em muitos municípios interioranos, até como “cabiçulinha”.

Era comum, em vez de um celular ou dinheiro para crédito do pré-pago, pais fornecerem trocados para compra de bila ou coisa que o valha. Qualquer comércio (venda ou bodega) tinha para vender. E, coitado do comerciante que não tivesse, também, aquela famosa bila “olho de gato” ou aquele olhão – não era permitido jogar com esse, pois, além de ser muito grande, era uma belezura digna de guardar na caixa de lembranças e das coleções de bugigangas – nem podia ser vista por colegas.

Com ruas sem asfalto ou paralelepípedos, jogar depois da chuva era como jogar no gramado do Maracanã.

Na infância todos tinham e tiveram parceiros – bulimia terminava sempre em tabefes, e a briga começava quando se fazia um risco no chão, e dizia ser a “mãe” do outro. Quem se atrevesse a cuspir na “mãe” do outro levava o primeiro tabefe e a brigas corria solta, sem que terceiros se intrometessem.

E essa parceria era suficiente para iniciar qualquer jogo de cabiçulinha, bila ou bola de gude.

- Quem começa?

- Vamos pro par ou ímpar!

Quem ganhava o par ou ímpar tinha o privilégio da começar o jogo. Outra forma de iniciar o jogo, quando o grupo já estivesse composto com vários meninos, era “beber”. Era feito um risco no chão e todos se afastavam dele, ficando numa mesma distância – 5 metros imaginários, por exemplo – e quem jogasse a cabiçulinha mais próxima daquele risco era o iniciante do jogo.

Jogava-se também, muito, o buraco, que outros chamam de “quila”. Eram feitos três buracos no chão e ganhava o jogo aquele que “matasse” o adversário final, depois de entrar e sair nos três buracos. Os primeiros a ser eliminados, pagavam uma bila e ficavam apenas olhando o final. Invariavelmente, o “prêmio” era uma quantidade xis de cabiçulinhas. Numa “parada” difícil, o prêmio era, via de regra, uma “olho de gato”.

Era comum naqueles tempos, cada menino conduzir consigo um saquinho ou uma caixa de bilas (peteca ou bola de gude) e ninguém tinha vergonha disso. Era, digamos, uma prova viva de que ali estava uma criança – não alguém com ideias e responsabilidades adultas aos 9/10 anos.

Os tempos mudaram, mas continua existindo em cada um de nós uma criança – as crianças daqueles tempos. Tínhamos hora para tudo. Para estudar, para brincar. Respeito e obediência aos pais era a “senha” para conquistar a liberdade de brincar.

Mas os pais também eram outros – castigavam, inclusive batendo, na hora que achavam melhor fazer isso. Os pais não batiam nos filhos na frente dos outros ou simplesmente para extravasar seu ódio, sua raiva. E o castigo corrigia, sim! E corrigiu muita gente! Nos dias atuais, quem é moderno e “civilizado” não bate nos filhos, mas vai assistir a polícia bater! E como vai!

Filho não reclamava de nada dos pais. Sentavam à mesa para as refeições e só levantavam quando os pais autorizavam. Filho não se intrometia nas conversas dos pais com as visitas, ou com outros adultos.

Hoje tudo mudou. Tudo é moderno e civilizado. Hoje filho senta à mesa antes dos pais, senta com meia bunda e dobra o joelho na cadeira, e sequer olha para a comida. Só dá atenção ao celular – que o pai, insensível, comprou e deu de presente porque o filho tirou nota 7 numa prova da escola, onde ele tinha obrigação de tirar nota maior. Afinal, nem brinca mais. Só estuda e ainda tem a ajuda da tecnologia cibernética.

Os pais, indiferentes à família, permitiram que as leis absurdas concebidas por irresponsáveis como Maluf, Lula, Dirceu e outros do mesmo nível, entrassem nas suas casas para ditar normas e procedimentos.

Mas foram os pais que permitiram isso. Foram os pais, também, que deram ao Estado a obrigação de “educar” os filhos, quando isso lhes pertence in totum. A obrigação do Estado é “escolarizar” – “educar” é tarefa doméstica, familiar, e cabe aos pais.

EU:

Nasci (perdão, por usar o verbo na primeira pessoa) no dia 30 de abril de 1943. Faltam poucos dias para completar 72 anos e, espero em Deus merecer essa dádiva. Filho de família pobre (meu pai, um negro, descendente direto de africanos que se tornou professor de Matemática e depois, na ilegalidade, comunista praticante; e, minha mãe, uma descendente direta de índios – que criou 6 filhos e 1 filha com mão de ferro, punindo a prática do erro por menor que fosse) que nunca entrou pelo portão de uma escola particular. Estudamos num tempo em que não existia (ainda) máquina de calcular, e tínhamos que saber tabuada para responder “na bucha”! Fomos punidos sim, com a bela palmatória, e isso jamais nos provocou danos físicos ou psicológicos.

Ler – tudo! – sempre foi o forte da família. Nos acostumamos a abrir um livro na primeira página e só fecha-lo quando lêssemos a última. Nos acostumamos a “rabiscar” palavras desconhecidas para facilitar o entendimento nas frases e enriquecer o vocabulário.

Francisco (Oliveira Ramos) foi o puxador da fila. Construiu uma família de estudantes: Tagil, Jornalista que abandonou Engenharia Eletrônica do ITA no penúltimo período; Samir, Engenheiro Civil/Militar formado pelo IME; Sabrina, Dentista; Ticiana, Advogada; Tami, Professora de Idiomas e funcionária antiga da FAMEM; além de Telma, que nos deixou precocemente, vítima do HIV.

Adilson, aposentado da Aeronáutica – com filhos morando no Rio de Janeiro e na Itália; Jandira, falecida, mãe da mulher mais linda do Maranhão nos dias atuais: Emília Ramos, que é mãe de Emmily.

Os filhos de Francisco estudaram no Maristas – Tagil e Samir, que foram aprovados com louvor no ITA e no IME. Os demais sempre estudaram em escolas públicas.

DETALHE: o que nos fez o que somos hoje, foi o polimento e o tempo que ganhamos brincando. E, reconhecemos, algumas coças aprovadas que tomamos na Primeira Vara da Infância, cuja Juíza titular era nossa mãe.

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