segunda-feira, 23 de março de 2015

Meu chapéu do Panamá

 


O chapéu é verde-amarelo mas é do Panamá

 

O Brasil mudou realmente. Faz tempo que começou a mudar, ainda que, quando é para melhor, caminhe a passos de tartaruga. Mas mudou, reconheçamos. Mudou, pelo menos para mim que, na década de 60 morava em Fortaleza, fui viver no Rio de Janeiro e hoje fixei residência em São Luís. Isso me deixa uma dúvida enorme: mudou o Brasil ou mudei eu?

Provavelmente quem mudou foi eu. Pelo menos mudei de lugar e de moradia.

Vem de muito longe (e poucos têm a coragem de admitir que são conservadores) o hábito de dizer, “o meu médico”, “o meu cabeleireiro”, “o meu dentista”. Conservador assumido há exatos 28 anos, corto o cabelo com Chicão, “o meu barbeiro”.

E alguém vai dizer aqui que age de forma diferente?

Tem até aqueles que dizem, “o meu bar”, “a minha praia”, quando, na realidade, nada disso é seu. O correto, imaginamos, seria dizer: o bar que frequento ou a praia onde costumo ir.

Moro num bairro um pouco afastado do Centro Histórico de São Luís. E é no Centro Histórico que está instalado “o meu barbeiro”, Chicão. Chicão corta o cabelo de muita gente de diferentes classes sociais e conhecimentos mil.

Chicão é um barbeiro diferente, com atitudes semelhantes a uma coruja. Digo, “ouve” muito mais do que “fala” – e, como atende centenas de pessoas diferentes, evidentemente que ouve conversas também muito diferentes e conceitos contraditórios. Mas, contrariando a muitos, ele próprio garante que não é barbeiro nem cabeleireiro. Diz-se “estético capilar”.

Pois, era a minha vez de sentar no trono do Chicão, quando entra no pequeno salão de acomodações poucos confortáveis e revistas muito antigas para passar o tempo, um homem malcheiroso, muito cabeludo e muito barbudo. O forte calor e a garoa que caía, davam-lhe um cheiro nada agradável, que se tornava incômodo em virtude do espaço exíguo.

- Hômi, tu tá fedeno pra porra! Repreendeu o monossilábico Chicão.

- Quanto é prumode cortar cabelo e barba, siô!? Indagou o recém-chegado.

- Pela tabela, é 25! Mas aí tem muito seuviço!... disse Chicão.

A pessoa que estava “na vez” era eu. Depois de mim, havia mais três (Borges, Gumercindo e Sá Valle), o que significa dizer que o recém-chegado era o quarto na fila de espera.

Como a garoa continuava cair insistentemente, pedir para o homem sair e esperar na chuva, não apenas era desumano como descortês. Mas precisava ser titular dos “Direitos Humanos” para suportar aquele ser por muito tempo num espaço tão pequeno.

Como precisavam ser atendidos naquele dia, Gumercindo, Sá Valle e Borges conversaram e aquiesceram para ceder “a vez” para aquele homem ser atendido depois de mim. Seria um alívio para todos!

Por alguns minutos, silêncio profundo no ambiente. Foi quando, para tentar esquecer aquele que já não era mais um recém-chegado, Borges fez aos presentes, uma pergunta dividida em três: gente, que coisa o protesto de domingo, num foi? Vocês acham que a Dilma cai? Tem jeito a corrupção institucionalizada no Brasil? Os militares querem pegar esse abacaxi?

Nisso, como se tivesse escutado um tiro de canhão, o estranho espantou-se com a pergunta de Borges, que na verdade “aqueles presentes” não contavam com ele... e respondeu:

- Eu tô barbudo e cabeludo por causa de que, adindonde eu me escondo, num tem barbeiro, num tem saúde, num tem inducação, num tem nada. Só tem é muié com muito fios e um tá de bolsa famía. Num tem nadica de nada, mais tomém num tem tanta gente abestaiada. Vosmicês vevem na lua, é?

Enquanto os presentes se entreolhavam, como Chicão terminara o que ele chama de cirurgia capilar, peguei o meu chapéu Panamá, paguei R$25 e saí de fininho!

 

 

 

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