O
chapéu é verde-amarelo mas é do Panamá
O Brasil mudou realmente. Faz tempo que começou a
mudar, ainda que, quando é para melhor, caminhe a passos de tartaruga. Mas
mudou, reconheçamos. Mudou, pelo menos para mim que, na década de 60 morava em
Fortaleza, fui viver no Rio de Janeiro e hoje fixei residência em São Luís.
Isso me deixa uma dúvida enorme: mudou o Brasil ou mudei eu?
Provavelmente quem mudou foi eu. Pelo menos mudei de
lugar e de moradia.
Vem de muito longe (e poucos têm a coragem de admitir
que são conservadores) o hábito de dizer, “o meu médico”, “o meu cabeleireiro”,
“o meu dentista”. Conservador assumido há exatos 28 anos, corto o cabelo com
Chicão, “o meu barbeiro”.
E alguém vai dizer aqui que age de forma diferente?
Tem até aqueles que dizem, “o meu bar”, “a minha
praia”, quando, na realidade, nada disso é seu. O correto, imaginamos, seria
dizer: o bar que frequento ou a praia onde costumo ir.
Moro num bairro um pouco afastado do Centro Histórico
de São Luís. E é no Centro Histórico que está instalado “o meu barbeiro”,
Chicão. Chicão corta o cabelo de muita gente de diferentes classes sociais e
conhecimentos mil.
Chicão é um barbeiro diferente, com atitudes
semelhantes a uma coruja. Digo, “ouve” muito mais do que “fala” – e, como
atende centenas de pessoas diferentes, evidentemente que ouve conversas também
muito diferentes e conceitos contraditórios. Mas, contrariando a muitos, ele
próprio garante que não é barbeiro nem cabeleireiro. Diz-se “estético capilar”.
Pois, era a minha vez de sentar no trono do Chicão,
quando entra no pequeno salão de acomodações poucos confortáveis e revistas
muito antigas para passar o tempo, um homem malcheiroso, muito cabeludo e muito
barbudo. O forte calor e a garoa que caía, davam-lhe um cheiro nada agradável,
que se tornava incômodo em virtude do espaço exíguo.
- Hômi, tu tá fedeno pra porra! Repreendeu o
monossilábico Chicão.
- Quanto é prumode cortar cabelo e barba, siô!? Indagou
o recém-chegado.
- Pela tabela, é 25! Mas aí tem muito seuviço!... disse
Chicão.
A pessoa que estava “na vez” era eu. Depois de mim,
havia mais três (Borges, Gumercindo e Sá Valle), o que significa dizer que o
recém-chegado era o quarto na fila de espera.
Como a garoa continuava cair insistentemente, pedir
para o homem sair e esperar na chuva, não apenas era desumano como descortês.
Mas precisava ser titular dos “Direitos Humanos” para suportar aquele ser por
muito tempo num espaço tão pequeno.
Como precisavam ser atendidos naquele dia, Gumercindo,
Sá Valle e Borges conversaram e aquiesceram para ceder “a vez” para aquele
homem ser atendido depois de mim. Seria um alívio para todos!
Por alguns minutos, silêncio profundo no ambiente. Foi
quando, para tentar esquecer aquele que já não era mais um recém-chegado,
Borges fez aos presentes, uma pergunta dividida em três: gente, que coisa o
protesto de domingo, num foi? Vocês acham que a Dilma cai? Tem jeito a corrupção
institucionalizada no Brasil? Os militares querem pegar esse abacaxi?
Nisso, como se tivesse escutado um tiro de canhão, o
estranho espantou-se com a pergunta de Borges, que na verdade “aqueles
presentes” não contavam com ele... e respondeu:
- Eu tô barbudo e cabeludo por causa de que, adindonde
eu me escondo, num tem barbeiro, num tem saúde, num tem inducação, num tem
nada. Só tem é muié com muito fios e um tá de bolsa famía. Num tem nadica de
nada, mais tomém num tem tanta gente abestaiada. Vosmicês vevem na lua, é?
Enquanto os presentes se entreolhavam, como Chicão
terminara o que ele chama de cirurgia capilar, peguei o meu chapéu Panamá,
paguei R$25 e saí de fininho!
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