Marcelo de Moraes e Vera
Rosa
Brasília - Preocupada em se salvar do turbilhão de
escândalos que atinge o governo do qual faz parte e o Congresso que comanda, a
cúpula do PMDB vai propor à presidente Dilma Rousseff que faça uma reforma
administrativa e “corte na própria carne” no ajuste fiscal. A mudança de
estratégia do partido, que até então só aparecia brigando por cargos, foi
definida em almoço promovido por Michel Temer, na quinta-feira, no Palácio do
Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República. A ideia é tentar
melhorar a própria imagem – descolando-a do fisiologismo e associando-a ao
discurso de austeridade – para a campanha eleitoral nos municípios do ano que
vem.
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL),
alvo citado na lista de políticos suspeitos de participar do esquema de
corrupção na Petrobrás, chegou a defender no encontro a “refundação” do governo
Dilma. A ideia é deixar para trás o que parlamentares do partido chamam de
“cara de derrota” do segundo mandato de Dilma. “Esse processo é mais amplo do
que a simples ocupação de cargos”, disse o líder do PMDB na Câmara, Eunício
Oliveira (CE), que também participou do almoço no Jaburu com Temer, Renan e o
ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga. “A nossa preocupação, hoje, é com a
crise política e econômica.”
A proposta que o PMDB vai levar a Dilma inclui o
discurso segundo o qual é preciso diminuir o número de ministérios – hoje são
39 – e de cargos comissionados do governo – cerca de 20 mil.
No que se refere à redução de ministérios – 5 são
ocupados por representantes do PMDB –, o presidente da Câmara e desafeto do
Palácio do Planalto, Eduardo Cunha (PMDB), já havia anunciado que sua
prioridade era pôr em votação uma proposta de emenda à Constituição que reduz o
número de pastas para 20. Temer e seus aliados do partido, porém, acham que não
é caso de impor uma PEC. Primeiro, é preciso negociar com Dilma para que ela
encampe a ideia.
Na avaliação interna do PMDB, existe a certeza de
que o eleitor cobrará, nas urnas, a conta por apoiar as medidas amargas do
ajuste fiscal. Diante dessa perspectiva, o partido entende que o governo
precisa enviar uma mensagem clara de que também faz a sua parte, reduzindo o
tamanho de sua máquina, economizando despesas e revisando contratos
dispendiosos.
Desconfiado. A reforma
administrativa sugerida pelo PMDB é vista com desconfiança pelo Palácio do
Planalto. Não sem motivo: foi uma das principais bandeiras defendidas na
campanha pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), principal adversário de Dilma.
Em conversas reservadas, no entanto, dirigentes do
PMDB dizem que “todo empresário em crise corta custo, enquanto o governo
prefere aumentar tributos”. Eles argumentam que, do jeito que as propostas do
governo estão postas, o ajuste será visto pelos eleitores como algo que
“arrocha, desemprega e espreme”. E que aumentos como tarifa de ônibus, conta de
luz e de gás são temas muito sensíveis nos debates das campanhas municipais,
como as que ocorrerão no próximo ano.
O Planalto avalia que, com todos esses movimentos,
o PMDB quer pôr de novo a “faca no pescoço” de Dilma, para pressioná-la a
entregar ministérios com mais orçamento e visibilidade. Atualmente, o PMDB
controla sete pastas (Minas e Energia, Agricultura, Turismo, Aviação Civil,
Portos, Assuntos Estratégicos e Pesca).
No governo, é dado como certo que o ex-presidente
da Câmara Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) será integrado à equipe. As
negociações em torno de mais espaço para o PMDB numa eventual reforma
ministerial, porém, não têm provocado entusiasmo.
O ministério do Turismo, oferecido a Alves, já é
ocupado pelo PMDB, com Vinicius Lage, da cota de Renan. A mudança nessa pasta é
vista como operação digna de “pisar em ovos”, para não desagradar ao presidente
do Senado.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu a
Dilma levar o PMDB para a articulação política, mas o partido não quer a vaga.
Está de olho em Integração Nacional, considerado um importante instrumento de
atuação política, mas insuficiente para livrar a legenda do peso de co-patrocinar
reformas impopulares.
A análise sobre o custo-benefício da ocupação de
determinados cargos, em meio à crise cada dia mais grave, já foi adotada pelo
PMDB em relação ao posto de líder do governo no Senado. Desde que Eduardo Braga
saiu dessa cadeira para ser ministro de Minas e Energia, a vaga não foi
preenchida e o governo segue sem líder na Casa. “Deixamos a indicação para o
governo, para o PT”, desconversou Eunício. Não há no PMDB a intenção de expor
ninguém para defender o ajuste no momento em que o PT critica as medidas.
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