Dom Hélder Câmara
Para dom Fernando
Saburido, o ex-arcebispo emérito da Cúria era dono de muitas virtudes e tem
nome nacional e internacional
Angela Lacerda - Especial para O Estado
RECIFE - O
arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, deu o primeiro passo para
reconhecer o ex-arcebispo emérito da Cúria Metropolitana, dom Hélder Câmara,
como santo. Ele assinou uma carta que será encaminhada à Congregação da Causa
dos Santos, em Roma, solicitando autorização para dar início ao processo de
canonização do religioso (1909-1999) que teve forte atuação contra a ditadura
militar de 1964 e se tornou conhecido por sua opção pelos pobres.
Em
entrevista, dom Saburido informou que diante de uma resposta afirmativa, será
constituída uma comissão que ficará encarregada de pesquisar e analisar
escritos e documentos que justifiquem o pedido. Para ele, dom Hélder era dono
de muitas virtudes e tem nome nacional e internacional. "O reconhecimento
dele como santo vai ser uma coisa boa para a Igreja e para a sociedade",
disse o arcebispo. "Ele vai ser um modelo de determinação, de compromisso
com os pobres." Disse ainda que "os santos têm esse perfil, de
motivar a comunidade a viver o Evangelho". "O Dom viveu plenamente o
Evangelho."
Conhecido
como o "Dom da Paz" e "Pastor da Liberdade", dom Hélder foi
incansável defensor dos direitos humanos e denunciou internacionalmente a
prática de tortura contra presos políticos no Brasil. Indicado quatro vezes ao
Nobel da Paz, era seguidor da Teologia da Libertação. Na sua gestão à frente da
Arquidiocese, criou a Comissão de Justiça e Paz (CJP), em março de 1968, que
veio a se tornar instrumento para denunciar arbitrariedades a exemplo de
perseguições, torturas e fechamento de veículos de comunicação social
contrários à ditadura. "Rigorosamente dentro da lei e dentro da
não-violência, procuraremos enfrentar injustiças venham de onde vierem",
disse ele ao criar a comissão. Dois anos depois, teve seu nome proibido até de
ser citado na imprensa pelo regime militar.
Saburido fez
o anúncio da abertura do processo de canonização de dom Hélder em reunião da
Comissão Estadual da Memória e da Verdade, que concluiu investigação sobre a
morte do padre Antônio Henrique Pereira. Assessor de dom Hélder na CJP, padre
Henrique foi sequestrado, torturado e teve seu corpo abandonado em um terreno
baldio do Recife, há 45 anos. A Comissão da Verdade asseverou nesta terça, 27,
que o crime foi "político". As autoridades da época o classificaram
como crime comum, afirmando que o padre teria sido vítima de grupos de
viciados. O arcebispo também anunciou a recriação da Comissão de Justiça e Paz,
destituída pelo sucessor de dom Hélder na Arquidiocese, o conservador dom José
Cardoso Sobrinho, em 1985.
Para dom
Fernando Saburido, o processo de canonização de dom Hélder será rico em
testemunhos. "É muito grande o número de pessoas que tiveram o privilégio
de conviver com o Dom", disse ele, ao reconhecer que o caminho da
canonização é muito longo. Nas várias etapas, o postulante precisa ser
reconhecido primeiramente como Servo do Senhor; depois precisa ter o
reconhecimento de suas virtudes heroicas; em seguida, um compêndio de relatos e
estudos precisa ser aprovado pelo Papa, que concede o título de Venerável Servo
do Senhor. Na próxima etapa há a beatificação e em seguida, vem a canonização,
com o pré-requisito de ocorrência de um milagre depois da nomeação como beato. Fonte:
O Estado de São Paulo, 27 de maio de 2014.
Quem
é:
Hélder Pessoa Câmara OFS nasceu em Fortaleza, a 7 de fevereiro de 1909, e
faleceu em Recife, 27 de agosto de 1999. Foi
um bispo católico, arcebispo
emérito de Olinda e Recife. Foi
um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. Pregava uma Igreja simples, voltada para os pobres e a não-violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e
internacionais. Foi o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da
Paz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Por favor. Não aceitaremos palavras indecorosas nem comentários que atinjam a honra dos demais comentaristas.