WALTER DEL PICCHIA*
Um estudo publicado no site do voto
eletrônico pelo engenheiro Amílcar Brunazo Filho, coordenador do Fórum do voto
eletrônico e um dos maiores especialistas em segurança de dados, demonstra
cabalmente que nossas urnas eletrônicas, endeusadas como a oitava maravilha do
mundo, na realidade estão tecnicamente ultrapassadas pelas utilizadas nos dez
países onde se realizam eleições informatizadas (Modelos e Gerações das
máquinas de votar – Janeiro/2014).
Ele descreve os três modelos
conhecidos (DRE, VVPAT e E2E), denominando-os como de Primeira, Segunda e
Terceira gerações. Estas denominações traduzem o fato de que os três modelos
surgiram como evolução, um após o outro, para resolver algum problema do modelo
anterior.
Em todo o mundo onde se usa voto
eletrônico, excluindo-se o Brasil, modelos de 1ª geração já foram abandonados,
devido à sua inerente falta de confiabilidade e absoluta dependência do
software (ou seja, modificações intencionais ou erros não detectados no
software poderiam causar erros não detectados nos resultados da votação).
A 1ª Geração – DRE - Nas urnas de 1ª geração, conhecidas por DRE (Direct Recording Electronic
voting machine — máquina de gravação eletrônica direta do voto), os votos são
gravados apenas eletronicamente, não oferecendo possibilidade de auditoria por
outros meios. Deste modo, a confiabilidade do resultado publicado fica
totalmente dependente da confiabilidade do software instalado no equipamento.
Máquinas DRE foram usadas em eleições
oficiais em 1991 na Holanda, em 1992 na Índia e desde 1996 no Brasil. O modelo
brasileiro chegou também a ser usado em alguns países latino americanos entre
2002 a 2006.
A falta de confiabilidade do modelo
DRE (utilizado no Brasil) fez com que, a partir de 2004, este modelo fosse
substituído por outros mais evoluídos e confiáveis. De 2004 a 2012, a
Venezuela, a Holanda, a Alemanha, os Estados Unidos, o Canadá, a Rússia, a
Bélgica, a Argentina, o México e o Paraguai abandonaram o modelo DRE de 1ª
Geração.
Em 2014, a Índia e o Equador adotarem
modelos mais avançados, de maneira que restou apenas o Brasil ainda usando o
modelo DRE de 1ª Geração em todo o mundo.
A 2ª Geração – IVVR ou VVPAT - A 2ª Geração foi proposta formalmente em 2000 (tese de doutorado da Ph.D
Rebecca Mercury, disponível na internet). Na tese, foi proposta a possibilidade
de auditoria contábil da apuração por meio de uma segunda via de registro do
voto, além do registro eletrônico usual.
Este novo registro deveria ser
gravado em meio independente que não pudesse ser modificado pelo equipamento de
votação e deveria poder ser visto e conferido pelo eleitor antes de completar
sua votação. Ela propôs o nome “Voter Verifiable Paper Audit Trail” (Documento
de Auditoria em Papel Conferível pelo Eleitor), ou VVPAT.
Posteriormente, a literatura técnica
adotou também o nome “Independent Voter Verifiable Record” (Registro
Independente Conferível pelo Eleitor), ou IVVR. No Brasil é comum ser chamado de
“Voto Impresso Conferível pelo Eleitor”, ou VICE.
A principal característica de
equipamentos com VVPAT (IVVR ou VICE) é que passam a ser independentes do
software. O Registro Digital dos Votos (RDV) e a sua apuração eletrônica podem,
neste caso, ser conferidos por ações contábeis de auditoria, independentes do
desenvolvedor do software e do administrador do sistema.
Assim, em 2006, desenvolveu-se o
Princípio da Independência do Software em Sistemas Eleitorais que, aos poucos,
passou a ser exigido em todos os países que usam voto eletrônico, fora o
Brasil. Ele diz: Um sistema eleitoral é independente do software se uma
modificação ou erro não detectado no seu software não pode causar uma
modificação ou erro indetectável no resultado da apuração ou na inviolabilidade
do voto.
No Brasil, em 2002, houve um teste
com urnas com VICE, de 2ª Geração, o qual resultou em fracasso, decorrente da
falta de planejamento e condução da experiência. Em seguida, em 2004, a
Venezuela implantou equipamentos de 2ª Geração com VICE, com todo sucesso,
demonstrando que a proposta é perfeitamente viável, ao contrário do que afirma
o TSE no Brasil.
A partir de 2006, equipamentos de 2ª
Geração, com voto impresso ou escaneado, passaram a substituir os equipamentos
de 1ª Geração em todos os países.
A 3ª Geração – E2E - A partir de 2008, várias iniciativas começam a apresentar sistemas
eleitorais independentes do software, que aprimoravam e/ou facilitavam os
procedimentos de auditoria, tanto do registro do voto como de sua apuração e totalização.
Na Argentina (2010) foi apresentada
uma cédula eleitoral com um chip de radiofrequência (RFID) embutido, onde, num
só documento, estão presentes o registro digital e o registro impresso do voto.
Esse documento é chamado de “Boleta de Voto Electrónico” (BVE) e propicia muita
facilidade para os eleitores e para os fiscais de partido poderem conferir o
registro do voto, a apuração e a transmissão dos resultados.
O sistema argentino está descrito no
2º Relatório CMind (ver no site do voto eletrônico), com várias tabelas
comparativas do desempenho desse sistema de 3ª Geração em relação ao sistema
brasileiro de 1ª Geração.
Em 2009, no município de Tacoma Park,
nos EUA, foi testado o sistema Scantegrity II, onde o voto criptografado é
impresso e entregue ao eleitor, que poderá verificar posteriormente o seu
processamento, sem, no entanto, conseguir revelar o conteúdo do seu voto. Logo
em seguida, em Israel, foi apresentado o Wombat, muito parecido ao Scantegrity.
As características comuns de todos
esses sistemas de 3ª geração são a independência do software e a grande
facilidade de auditoria independente, de ponta a ponta. Por esse motivo, os
sistemas de 3ª geração são designados “End-to-End verifiability” ou, E2E.
No site do voto eletrônico, em sua
página de abertura, está o link para o estudo aqui resumido. Nele há um mapa
com a distribuição dos modelos usados no mundo. Estão divididos em:
— País que ainda usa sistema DRE de
1ª Geração (dependente do software): Brasil;
— Países que testaram e abandonaram
sistemas de 1ª Geração por falta de transparência ou falta de confiabilidade e,
no momento, não estão usando votação eletrônica: Alemanha, Holanda, Irlanda,
Inglaterra, Paraguai;
— Países que abandonaram sistemas de
1ª Geração e passaram a usar sistemas VVPAT de 2ª Geração (independentes do
software): Bélgica, Russia, Índia, EUA, Canadá, México, Venezuela, Peru,
Equador, Argentina;
— Países que adotaram ou estão
testando sistemas E2E de 3ª Geração (independentes do software, com auditoria
facilitada): EUA, Israel, Equador, Argentina;
Na Página Principal do site do voto
eletrônico encontra-se a Cartilha Básica do voto-e no Brasil, que resume
críticas e propostas para as eleições informatizadas brasileiras.
* Professor aposentado da Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo e participante do Fórum do Voto
Eletrônico (Fonte: Veja).
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