quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Marcas do que se foi

 

Chegar atrasado no quartel era roça. Era detenção na certa.  Chegar atrasado para a prova no colégio era reprovação na certa.  O que fazer então?

Pedir ao pai que, substituísse qualquer presente por um despertador. Daqueles que, quando tocavam, acordavam todos de casa. Era um saco! Mas, saco mesmo era a aporrinhação que os irmãos faziam uns com os outros, colocando o “Despertador” para despertar às 6:00 horas nos domingos e feriados.

Esse martírio se acabou quando descobrimos que, para tocar, o despertador precisava estar destravado.

Pois bem. Certa feita, minha mãe precisava sair de casa cedo para enfrentar uma viagem. O despertador ficava no meu quarto. Vacinado pelas molecagens que os irmãos faziam, acordei 5:00 horas com o toque do maldito despertador. Fulo da vida, apanhei o relógio e, usando toda a minha força, o joguei contra a parede.

Era minha mãe quem tinha colocado o despertador para despertar e garantir que ela não perderia o horário da viagem. Eu tinha 16 anos e foi com essa idade que levei a última surra, de corda, dada pela minha mãe. Tive que acordar para apanhar. Bons tempos aqueles. Boas e merecidas surras que levamos e que fizeram de nós verdadeiros homens e responsáveis.

Lá pelos anos 50 e 60, muitas capitais e grandes cidades brasileiras não conheciam o sistema de supermercados. Conheciam apenas, as bodegas, os sacolões e as feiras livres. Quase todos tinham o hábito de comprar todos os dias o que se comeria naquele dia. Carne, peixe, galinha, eram sempre comprados no mesmo dia em que eram preparados para o almoço.

Donas de casa tinham o hábito de comprar na porta de casa, carne, peixe, verduras e legumes. O leite era deixado pelo “Leiteiro” na porta de cada casa que fazia a encomenda antecipada. E ninguém se atrevia a roubar aquele leite ou a fazer qualquer bobagem com ele. Eram outros tempos que, infelizmente, se foram.

Pois o vendedor que oferecia essas mercadorias de porta em porta, carregava consigo uma balança (absolutamente confiável) que utilizava para pesar e conferir os pesos das mercadorias vendidas.

Bons tempos aqueles. Marcas do que se foi.

Por vários motivos – principalmente econômicos – a bicicleta era um meio de transporte muito utilizado em muitas cidades brasileiras. Contrastando com os dias atuais, era comum alguém ficar as tardes de sábados e/ou domingos limpando a bicicleta, tal como muitos fazem hoje, limpando os carros.

Longe do trânsito caótico que tem as cidades atualmente, também longe da poluição sonora que enfrentamos no dia-a-dia, era comum um motorista de carro escutar normal e nitidamente o “trim-trim” da campainha da bicicleta pedindo passagem ou alertando o pedestre.

Outros ciclistas preferiam usar a buzina em forma de corneta com uma parte de borracha. Essa fazia mais barulho.

Marcas do que se foi. Tempos bons que dificilmente voltarão.

A caneta esferográfica foi uma grande novidade, quando apareceu no final dos anos 50 em quase todas as cidades brasileiras. Marca Bic em várias cores, escrita fina e escrita normal. Foi uma verdadeira revolução para a escrita.

Antes disso, a maioria preferia o uso da caneta tinteiro. Havia uma marca preferida: a Parker que ganhava ainda mais status, quando era acompanhada de um tinteiro de tinta também da marca Parker.

Por anos, pais e padrinhos presenteavam filhos e afilhados com estojos belíssimos de canetas Parker. Muitos presenteavam com a marca folheada a ouro, o que enobrecia mais ainda o presente.

Marcas do que se foi. Tempos que não voltarão. Jamais.




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