sábado, 6 de fevereiro de 2016

Uma pedra no caminho – bem no meio do caminho



Os empecilhos da vida na vida da gente. As dificuldades momentâneas, a chuva intempestiva que começa a cair e nos molha quando não é hora. O raio que acaba partindo a estrada e nos impede de prosseguir.

Essa é a pedra. A pedra no caminho. No nosso caminho.



No Meio do Caminho

Carlos Drummond de Andrade



No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.



Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.



E aí vem a ideia de rezar. Rezar para pedir a quem acreditamos ser capaz de nos ajudar e de nos dar força hercúlea para removermos a pedra. A oração que move a montanha, e, com certeza, também moverá a pedra. Limpará nosso caminho. Poderemos seguir estrada adiante e, se tivermos asas, poderemos até voar. Como um pássaro, um avião ou, até minimamente como uma borboleta.

A pedra. A pedra que nos atrapalha o caminho vem de uma montanha.

Vem de uma enxurrada.

Vem de uma cacófone.

Mas, por um momento, esqueçamos a dificuldade. Oremos. Oremos pelo menos para que, se a pedra não for retirada, oremos para que o cordão que nos prende tenha seus (e nossos) fios rebentados.

E, assim, estaremos livres. Sem pedra.

Domingo, cedo da manhã encontrei uma pedra no meu caminho. Um jovem amigo que, de tão jovem, ao meu lado, parecia e fora por vezes confundido com um filho. Percorríamos o mesmo caminho, todas as manhãs, na direção da condução que nos levaria aos nossos destinos. Eu, para o trabalho na Redação do jornal. Ele, para a universidade, onde cursava Medicina.

Por três exatos anos repetimos aquele caminho. Sempre no mesmo horário.

Mudei de jornal e mudei o meu caminho. Não nos encontrávamos mais. Na verdade, nos desencontramos. Definitivamente.

E, no domingo, repito, encontrei uma pedra no meu caminho. No meio do meu caminho. Encontrei, como uma borboleta amarrada por um cordão a uma pedra, aquele amigo dos encontros e caminhadas matinais nas direções dos nossos destinos.

Já o imaginava médico. Ajudando a retirar pedra dos caminhos de muita gente.

Infelizmente, como uma borboleta presa por um cordão, ali estava aquele jovem. Preso. Preso a uma pedra que havia no meio do caminho.

Uma pedra de crack.



“Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.”


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