Os empecilhos da vida na vida da gente. As dificuldades
momentâneas, a chuva intempestiva que começa a cair e nos molha quando não é
hora. O raio que acaba partindo a estrada e nos impede de prosseguir.
Essa é a pedra. A pedra no caminho. No nosso caminho.
No
Meio do Caminho
Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.
E aí vem a ideia de rezar. Rezar para pedir a quem
acreditamos ser capaz de nos ajudar e de nos dar força hercúlea para removermos
a pedra. A oração que move a montanha, e, com certeza, também moverá a pedra.
Limpará nosso caminho. Poderemos seguir estrada adiante e, se tivermos asas,
poderemos até voar. Como um pássaro, um avião ou, até minimamente como uma
borboleta.
A pedra. A pedra que nos atrapalha o caminho vem de uma
montanha.
Vem de uma enxurrada.
Vem de uma cacófone.
Mas, por um momento, esqueçamos a dificuldade. Oremos.
Oremos pelo menos para que, se a pedra não for retirada, oremos para que o
cordão que nos prende tenha seus (e nossos) fios rebentados.
E, assim, estaremos livres. Sem pedra.
Domingo, cedo da manhã encontrei uma pedra no meu
caminho. Um jovem amigo que, de tão jovem, ao meu lado, parecia e fora por vezes
confundido com um filho. Percorríamos o mesmo caminho, todas as manhãs, na
direção da condução que nos levaria aos nossos destinos. Eu, para o trabalho na
Redação do jornal. Ele, para a universidade, onde cursava Medicina.
Por três exatos anos repetimos aquele caminho. Sempre
no mesmo horário.
Mudei de jornal e mudei o meu caminho. Não nos
encontrávamos mais. Na verdade, nos desencontramos. Definitivamente.
E, no domingo, repito, encontrei uma pedra no meu
caminho. No meio do meu caminho. Encontrei, como uma borboleta amarrada por um
cordão a uma pedra, aquele amigo dos encontros e caminhadas matinais nas
direções dos nossos destinos.
Já o imaginava médico. Ajudando a retirar pedra dos
caminhos de muita gente.
Infelizmente, como uma borboleta presa por um cordão,
ali estava aquele jovem. Preso. Preso a uma pedra que havia no meio do caminho.
Uma pedra de crack.
“Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Por favor. Não aceitaremos palavras indecorosas nem comentários que atinjam a honra dos demais comentaristas.