quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O menino que criava formigas e tinha medo de injeção



Por volta dos anos 80, um dos meus poucos sobrinhos (naquela época – pois hoje são muitos) resolveu surpreender o pai com a assertiva:

- Pai, quero e vou fazer vestibular para o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica)!

Surpreso, o pai, que conhecia muito bem o filho e a determinação dele, sem entender o que aquilo poderia significar, indagou:

- Como assim? Você sabe que, para ser aprovado no ITA, precisa estudar?

- Sei pai. Vou estudar e vou passar.

Saiu de São Luís, foi morar comigo no Rio de Janeiro. Estudava muito. Estudava tudo. Resolvia problemas e fórmulas que eu sequer conseguia ler. Tipo aquelas maravilhosas “cadeias carbônicas” e outras do mesmo nível. Na segunda tentativa, depois da experiência ganha na primeira, foi aprovado para Engenharia Eletrônica.

Pois, esse meu irmão, no deboche cearense tão conhecido por muitos, afirmava que o filho “ficara doido”.

Como assim, “ficou doido”, indagavam os tios e demais parentes.

- Ficou doido e largou o ITA e a Engenharia Eletrônica no nono período, quando começara a receber convites para estágios nas mais importantes empresas da área. Foi ser “Jornalista”. Só assim compreendemos e aceitamos que tínhamos, realmente, um sobrinho doido. Para compensar e amenizar o desespero do pai, o filho imediatamente mais novo, fez vestibular, foi aprovado e concluiu o IME (Instituto Militar de Engenharia), mesmo sendo civil.

Com esses dois exemplos, pretendemos concluir que criança, jovem, adulto e velho só têm duas opções: a primeira, “estudar”. A segunda, “estudar”. E quem estuda não fica doido, embora alguns virem petistas. O que acaba sendo a mesma coisa.

Mas, este é o mundo atual. Para a criança e para o adulto masculino ou feminino – embora alguns humanos já estejam conversando com Deus, via Papa Francisco, para criar um terceiro sexo.

No passado, muita coisa era diferente, embora o horizonte fosse o mesmo. Nós é que nunca conseguimos decifrá-lo. Estudávamos e tínhamos entretenimento – sendo a grande maioria criada por nós mesmos.

Ler revista em quadrinhos era um entretenimento preferido de uma grande maioria de jovens. Tarzan, Roy Rogers, Durango Kid, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Fantasma, Mandrake, Recruta Zero, Pato Donald, Homem de Borracha, Luluzinha, Pinduca, Popeye e uma infinidade de publicações.

Você leu o Fantasma?

 “O Fantasma é uma tira de jornal do gênero aventura criada por Lee Falk (também o criador do Mandrake), contando as aventuras de um combatente do crime, mascarado e usando uma roupa característica. O personagem atua em um fictício país africano chamado Bangalla. A série começou a ser publicada em jornais diariamente em 17 de fevereiro de 1936, e aos domingos, como edição colorida, em maio de 1939, continuando até 2006. Falk encarregou o desenhista Phil Davis do desenho de suas histórias.

Falk trabalhou na tira até sua morte em 1999; a tira é atualmente roterizada por Tony DePaul e desenhado por Paul Ryan (de segunda-feira a sábado) e Terry Beatty (domingo). Foi desenhada anteriomente por Ray Moore, Wilson McCoy, Bill Lignante, Sy Barry, George Olesen, Keith Williams, Fred Fredericks, Graham Nolan e Eduardo Barreto. Na tira, o Fantasma foi vigésimo primeiro em uma linha de combatentes do crime que começou em 1536, quando o pai do marinheiro britânico Christopher Walker foi morto durante um ataque de piratas. Após jurar ao crânio do assassino de seu pai que iria lutar contra o mal, Christopher começou um legado do Fantasma que iria passar de pai para filho. Apelidos para o Fantasma incluem "O espirito que anda" e "O Homem que não pode morrer".

Ao contrário de outros heróis fantasiados da ficção, o Fantasma não tem superpoderes e confia em sua força, inteligência e imortalidade de renome para derrotar seus inimigos. O vigésimo primeiro Fantasma é casado com Diana Palmer; eles se conheceram quando ele estudou nos Estados Unidos e têm dois filhos, Kit e Heloise. Ele tem um lobo treinado, chamado Capeto, e um cavalo chamado Herói. Como os Fantasmas anteriores, ele vive na antiga caverna do crânio.

O Fantasma foi o primeiro herói fictício a vestir um traje colante que se tornou uma marca registrada dos super-heróis de histórias em quadrinhos, e foi a primeira sériea mostrar uma máscara sem pupilas visíveis (outro padrão de super-heróis). O historiador de histórias em quadrinhos, Peter Coogan descreveu o Fantasma como uma figura "de transição", uma vez que o Fantasma tem algumas das características de heróis de revistas pulp como The Shadow e The Spider, bem como antecipar as características de super-heróis de quadrinhos como Superman, Batman e Capitão América.” (Transcrito do Wikipédia)

Mandrake, o mágico, é um personagem de banda desenhada criado em 1934 por Lee Falk. Falk encarregou o desenhista Phil Davis do desenho de suas histórias. Mandrake era um ilusionista que se valia de uma impossível técnica de hipnose instantânea, aplicada com os olhos e gestos das mãos, e de poderes telepatas. Quando o narrador informava que ele executava seu gesto hipnótico, a arma do vilão se transformava em um buquê de rosas ou numa pomba.

O personagem foi baseado em Leon Mandrake, um mágico que fazia performances no teatro pelos anos 20, usando uma cartola, capa de seda escarlate e um fino bigode. O desenhista Davis conheceu Leon, relacionando-se com ele por muitos anos.

Mandrake aparaceu pela primeira vez no Brasil na revista Suplemento Juvenil número 101 de 10 de agosto de 1935, edição de sábado - três estrelas, com a história (título em português) "Sorcin, o sábio louco". A estreia foi antecedida de bastante publicidade nas revistas anteriores daquele título.” (Transcrito do Wikipédia).

 “Henry, conhecido no Brasil por Pinduca ou Carequinha, é uma tira de quadrinhos criada em 1932 por Carl Anderson. A tira é sobre um menino de calças curtas, que, além de não ter cabelos, possui pernas tortas e quase nunca fala. Na maioria das vezes ele se comunica por mímica. Ele passou a ser distribuido pela King Features Syndicate, depois que o afamado editor estadunidense William Randolph Hearst viajou para a Alemanha e assinou um acordo com Anderson. A distribuição nos EUA começou em 1934 e as tiras se iniciaram em 1935.

Com a morte de Anderson em 1948, os quadrinhos continuaram com o desenho de John Liney até a aposentadoria deste em 1979. Don Trachte o sucederia até 2005, quando também veio a falecer. Neste último período, também houve a colaboração de Jack Tippit e Dick Hodgins, Jr.

Henry apereceu em desenho animado dos Estúdios Fleischer, como um coadjuvante de Betty Boop no desenho Betty Boop with Henry, the Funniest Living American (1935).

A Dell Comics publicou uma revista colorida sob o título de Carl Anderson's Henry, com 61 exemplares, no período de 1946 a 1961. Aqui, Pinduca fala normalmente.

No Brasil, a EBAL publicou uma revista em quadrinhos do personagem durante os anos de 1953-1961, chamada de Pinduca.” (Transcrito do Wikipédia)

No Brasil, provavelmente por conta da chegada da tecnologia virtual que trouxe junto novidades do mundo da comunicação, a procura e a leitura de revistas e gibis sofreu um verdadeiro linchamento. Pode ser que, também, as muitas crises enfrentadas pelas editoras e o quase que completo desaparecimento dos desenhistas-criadores de personagens e das estórias em quadrinhos – reforce a afirmação que criança não dá mais atenção para essas revistas.

As gerações passadas não apenas liam essas revistas. Colecionavam também, e esperavam com ansiedade a chegada do final do ano, que sempre trazia junto o “Almanaque”, fechando a temporada editorial.

Embora não houvesse preconceito, ler e colecionar gibis era algo muito ligado aos meninos.  As moçoilas preferiam a revista Capricho, que traziam as fotonovelas e outras informações.

Sem tantas opções disponíveis como as gerações mais recentes, a tarde dos domingos eram propícias para os encontros dos jovens nas frentes dos cinemas de bairros – e era ali que vendiam ou compravam e ainda faziam trocas de revistas. “Revista nova” e Almanaque eram introcáveis. Da mesma forma, as revistas iniciais de qualquer série. Oferecer troca ou compra de revista que tivesse o número 1, era ofensa. Revista número 1, era sempre para guardar, se possível dentro de cofre.

Dentre as muitas brincadeiras preferidas das gerações passadas, uma que tinha lugar cativo era “colecionar”. Revistas, brinquedos, figurinhas de atores e atrizes e jogadores de futebol, troféus e até pequenos animais e insetos. Formigas, por exemplo.

Ninguém colecionava formigas no quintal. O quarto de alguns meninos era o lugar preferido, haja vista que, quase ninguém conseguia permissão dos pais para coleções tão exóticas.

Dondinho, aluno colocado sempre os primeiros da sua classe, reconhecido por toda a direção do colégio e de professores, tinha a mania exótica de colecionar formigas. Sabia o nome das várias espécies e até chegava ao cúmulo de dar nomes a alguns daqueles laboriosos e unidos insetos.

Cuidava das formigas com adoração elogiável. Servia-lhes açúcar, mel de abelhas, pequenos pedaços de bolachas. Esperto, tinha preferência por algumas formigas da sua coleção. Brigava com qualquer um que, ainda que sem querer, pisasse e matasse uma formiga.

Sua preferência entre as que colecionava era por uma tanajura, a quem tratava como rainha. Deu-lhe o compreensível nome de “Raimunda”.

Para jovens estudantes, aqueles que optam pelo turno matutino, acordar cedo vira um hábito. Agora, acordar cedo nos feriadões e nos sábados ou domingos, é um martírio. Quando jovem, cheguei a formar um grupo de adolescentes que procurou se aproximar do Padre da paróquia, não apenas para ajudar na missa. Queríamos ganhar crédito e convence-lo a mudar o horário da missa dominical para o fim da tarde. Quando nossos pais descobriram aquilo, a resposta não demorou muito.

Pior que acordar cedo para a missa dominical, era acordar na madrugada para tomar o purgativo e odiado “óleo de rícino”. Nesses momentos, muitas mães viravam verdadeiras jararacas, embora a intenção fosse, sempre, cuidar da saúde dos filhos, garantindo-lhe a limpeza do organismo.

Mas, duro mesmo, sempre foi a gripe. Gripe forte, com tosse, com sequelas que acabavam por exigir uma medicação mais efetiva – como a injeção intramuscular, por exemplo.  Com aquele tradicional cheiro desagradável!

Como ainda não haviam inventado os descartáveis, só olhar a Enfermeira pegar um prato e botar água para ferver e esterelizar o material dela, já começava a doer. Doía!.... mas doía muito! Aquela “prévia” doía tanto, e o medo era tamanho que, muitas vezes nem se sentia a picada e a furada na agulha!

O menino, do título acima, era eu.




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