Naname era o nome da minha bisavó materna. Naname era
índia, descendente direta da tribo dos “Paiacus”. E quem eram o paiacus?
“Os paiacus são um grupo indígena que habita o estado brasileiro do Ceará. Também conhecidos como tapuias e, jaracus, habitavam a região compreendida entre o rio Açu, na Chapada do Apodi no Rio Grande do Norte e o baixo Jaguaribe no Ceará.
Os portugueses tentaram tanto intervenções militares como religiosas para vencê-los. O Forte Real de São Francisco Xavier da Ribeira do Jaguaribe (hoje a cidade de Russas, no Ceará), foi um exemplo de intervenção militar, e que não teve êxito. O agrupamento e aldeamento dos indígenas só ocorreu com as missões dos jesuítas.
Em 1707 eles foram aldeados e removidos de suas terras de origens com a ajuda dos jesuítas, para a Missão dos Paiacu (hoje Pacajus, no Ceará). Em 1761/1762 foram transferidos e aldeados em Portalegre, no Rio Grande do Norte. Com a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, estes se dispersaram e fugiram para suas terras de origem e, em 1765, foram mais uma vez agrupados e aldeados na vila de Monte-o-Novo (hoje Baturité - Ceará).” (Transcrito do Wikipédia).
Essa história é muito longa e, com certeza, não interessa muito a muitas pessoas, e quem estudou ou ainda estuda Antropologia sabe muito mais que eu ou que o Wikipédia. Mas, com certeza, ela serve para identificar um mínimo que seja uma casta ainda reluzente entre mundos.
Este amigo de vocês faz parte da quinta ou sexta geração descendente dos paiacus que, como dito no texto pesquisado, “espraiou-se” no que antes foi também Guarani, município que agregava vários povoados, inclusive “Queimadas”, onde o autor destas linhas veio ao mundo. Atualizando: Queimadas ainda existe, e hoje pertence ao Município de Pacajus.
Pois, Naname tinha uma estreita ligação com jumentos, a espécie. Para ela, o jumento tinha algo especial, que a fazia lembrar alguém ou momentos marcantes da sua (dela) vida. E foi Naname quem nos ensinou a usar o jumento como montaria e, como se conhecesse a letra da música de Luiz Gonzaga, “como nosso irmão, ou como um útil membro de uma grande família”.
Selim, cambito, caçuá, surrão, cangalha são adereços auxiliares na montaria do jumento no serviço do dia-a-dia para o mundo rural (pelo menos do interior do Ceará). O jumento carrega tudo. Carrega qualquer coisa que o peso lhe permita carregar – sem os habituais maltratos atuais. Em alguns casos, o jumento carrega até outros jumentos, bípedes.
E, sem preconceito, a fêmea do jumento – conhecida pelo nome de jumenta – foi “útil” também na iniciação sexual de meninos traquinas em tempos distantes, quando o conceito de prática sexual era totalmente diferente dos conceitos atuais.
Assim sem mais nem menos, corre à boca miúda por paragens distantes do imaginado mundo civilizado, que muitos estariam comendo (no sentido absoluto da palavra – e não no sentido figurado da sexualidade animal) jumentos e jumentas como carne de excelsa qualidade.
Luiz Gonzaga “cantou” o jumento, enquanto a jumenta pastava nas capoeiras da vida atendendo a alguns iniciantes.
Apologia ao Jumento
É verdade, meu senhor
Essa história do sertão
Padre Vieira falou
Que o jumento é nosso irmão
Ão ão ão ão ão ão
O jumento é nosso irmão
Quer queira, quer não
O jumento sempre foi
O maior desenvolvimentista
Do sertão...
Ajudou o homem na vida diária
Ajudou o homem...
Ajudou o Brasil a se desenvolver
Arrastou lenha...
Madeira...pedra, cal, cimento, tijolo...telha
Fez açude, estrada de rodagem
Carregou água pra casa do homem...
Fez a feira e serviu de montaria
O jumento é nosso irmão...
E o homem...
Em retribuição, o que, que lhe dá?
Castigo...pancada, pau nas pernas, pau no lombo,
Pau no pescoço, pau na cara, nas orelhas.
Ha...jumento é bom o homem é mal
E quando o pobre não agüenta mais o peso
De uma carga, e se deita no chão...
Você pensa que o homem chega ajuda
O bichinho se levantar? hum...pois sim
Faz é um foguinho debaixo do rabo dele
O jumento é bom...
O jumento é sagrado...o homem é mau.
O homem só presta pra botar apelido no jumento
O pobrezinho tem apelido que não acaba mais
Babau, gangão, breguesso, fofarkichão,
Imagem do cão, musgueiro, corneteiro, seresteiro,
Cineiro...relógio, é....ele dar a hora certa no sertão
Tudo isso é apelido que o jumento tem...
Astronauta...professor, estudante...
Advogado das bestas...
É chamado de estudante
Porque quando o estudante não sabe a lição da escola
O professor grita logo
Você não sabe porque você é um jumento
E o estudante pra se vingar botô o apelido
Jumento de professor
Porque o professor ensina ele de graça...
Pos sim, quem ensina ele de graça
É o jumento meu filho...é assim...
A e I o u u
Sinonimo, sinonimo,
Sinonimo, sinonimo,
Sinonimo, sinonimo,
Só não aprende a ler quem não quer
Esse é nosso jumento nosso irmão
Animal sagrado...
Serviu de transporte pro Nosso Senhor
Quando ele ia para o Egito
Quando o Nosso Senhor era perritotinho...
Todo jumento tem uma cruz nas costas
Não tem? Pode olhar que tem...
Todo jumento tem uma cruz nas costas
Foi ali que o menino santo fez o pipizinho
Por isso ele é chamado de sagrado
A ha ha...jumento meu irmão,
O maior amigo do sertão
Ele é cheio de presepada sim senhor
Uma vez ele me fez uma menino,
Que eu não me esqueci mais
Quando dá as primeiras chuvas no sertão,
A gente planta logo um milhozinho
No monturo da casa da gente, porque dá ligeiro
E é milho doce, dá ligeirinho, ligeirinho
O jumento cismou de ser meu sócio
Eu disse eu pego ele...
Quando ele invadiu minha roça...he...
Eu preparei uma armadilha, cheguei perto dele
Comendo meu milho em...vou lhe pegar
Ele balançou a cabeça, ligou as antenas
Torceu o rabo torceu, torceu, torceu
Deu corda e disparou...
Deu um pulo tão danado na cerca
Que nem triscou na minha armadilha
Correu uns 10 metros, fez meia volta
Olhou pra mim e me gozou...seu Luiz...seu Luiz
Comi seu milho...e como e como e como e como
Filho da peste comeu mesmo...
Mas eu gosto dele...
Porque ele é servidorzinho que é danado
Animal sagrado...
Jumento meu irmão eu reconheço teu valor...
Tu és um patriota, tu és um grande brasileiro...
Eu tô aqui jumento, pra reconhecer o teu valor meu irmão...
Agora meu patriota, em nome do meu sertão
Acompanha seu vigário, nesta eterna gratidão
Aceita nossa homenagem
O jumento é nosso irmão ão ão ão ão ão ão
Essa história do sertão
Padre Vieira falou
Que o jumento é nosso irmão
Ão ão ão ão ão ão
O jumento é nosso irmão
Quer queira, quer não
O jumento sempre foi
O maior desenvolvimentista
Do sertão...
Ajudou o homem na vida diária
Ajudou o homem...
Ajudou o Brasil a se desenvolver
Arrastou lenha...
Madeira...pedra, cal, cimento, tijolo...telha
Fez açude, estrada de rodagem
Carregou água pra casa do homem...
Fez a feira e serviu de montaria
O jumento é nosso irmão...
E o homem...
Em retribuição, o que, que lhe dá?
Castigo...pancada, pau nas pernas, pau no lombo,
Pau no pescoço, pau na cara, nas orelhas.
Ha...jumento é bom o homem é mal
E quando o pobre não agüenta mais o peso
De uma carga, e se deita no chão...
Você pensa que o homem chega ajuda
O bichinho se levantar? hum...pois sim
Faz é um foguinho debaixo do rabo dele
O jumento é bom...
O jumento é sagrado...o homem é mau.
O homem só presta pra botar apelido no jumento
O pobrezinho tem apelido que não acaba mais
Babau, gangão, breguesso, fofarkichão,
Imagem do cão, musgueiro, corneteiro, seresteiro,
Cineiro...relógio, é....ele dar a hora certa no sertão
Tudo isso é apelido que o jumento tem...
Astronauta...professor, estudante...
Advogado das bestas...
É chamado de estudante
Porque quando o estudante não sabe a lição da escola
O professor grita logo
Você não sabe porque você é um jumento
E o estudante pra se vingar botô o apelido
Jumento de professor
Porque o professor ensina ele de graça...
Pos sim, quem ensina ele de graça
É o jumento meu filho...é assim...
A e I o u u
Sinonimo, sinonimo,
Sinonimo, sinonimo,
Sinonimo, sinonimo,
Só não aprende a ler quem não quer
Esse é nosso jumento nosso irmão
Animal sagrado...
Serviu de transporte pro Nosso Senhor
Quando ele ia para o Egito
Quando o Nosso Senhor era perritotinho...
Todo jumento tem uma cruz nas costas
Não tem? Pode olhar que tem...
Todo jumento tem uma cruz nas costas
Foi ali que o menino santo fez o pipizinho
Por isso ele é chamado de sagrado
A ha ha...jumento meu irmão,
O maior amigo do sertão
Ele é cheio de presepada sim senhor
Uma vez ele me fez uma menino,
Que eu não me esqueci mais
Quando dá as primeiras chuvas no sertão,
A gente planta logo um milhozinho
No monturo da casa da gente, porque dá ligeiro
E é milho doce, dá ligeirinho, ligeirinho
O jumento cismou de ser meu sócio
Eu disse eu pego ele...
Quando ele invadiu minha roça...he...
Eu preparei uma armadilha, cheguei perto dele
Comendo meu milho em...vou lhe pegar
Ele balançou a cabeça, ligou as antenas
Torceu o rabo torceu, torceu, torceu
Deu corda e disparou...
Deu um pulo tão danado na cerca
Que nem triscou na minha armadilha
Correu uns 10 metros, fez meia volta
Olhou pra mim e me gozou...seu Luiz...seu Luiz
Comi seu milho...e como e como e como e como
Filho da peste comeu mesmo...
Mas eu gosto dele...
Porque ele é servidorzinho que é danado
Animal sagrado...
Jumento meu irmão eu reconheço teu valor...
Tu és um patriota, tu és um grande brasileiro...
Eu tô aqui jumento, pra reconhecer o teu valor meu irmão...
Agora meu patriota, em nome do meu sertão
Acompanha seu vigário, nesta eterna gratidão
Aceita nossa homenagem
O jumento é nosso irmão ão ão ão ão ão ão
Foi com Naname que minha Avó (aquela mesma já
cantada e decantada em versos e extensos poemas) aprendeu a usar o fumo. Para
picar (ops!) e queimar no cachimbo para umas gostosas cachimbadas no cair da
noite – que também ajudava a espantar as muriçocas e os aedes aegyptis.
“Arapiraca é um
município brasileiro do estado de Alagoas, Região Nordeste do país. Principal cidade do
interior do estado, sua população de acordo com estimativas de 2014, do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), era de 229 329 habitantes. Ficou conhecida,
nos anos 1970, como a "Capital do Fumo" por ser um dos maiores
produtores de tabaco do país.
A cultura do fumo teve importância fundamental para a elevação de Arapiraca à categoria de município, uma vez que o conhecido "ouro verde" brotava nos latifúndios das tradicionais famílias que resolveram se estabelecer no local, que alcançou maior desenvolvimento econômico que Anadia.” (Transcrito do Wikipédia).
Tão logo viemos ao mundo, e quando passamos a entender melhor as coisas da vida, passamos (nós, os bisnetos de Naname, netos de Raimunda e filhos de Jordina) a querer descobrir o que poderia ensejar em Naname uma provável relação do jumento com o fumo. Fumo de rolo. Fumo de Arapiraca.
Pois, foi Naname quem ensinou Raimunda a pegar o fumo com carinho e a gostar tanto dele que, quando o picava para cachimbar, parecia cortar cebola, tamanha a rapidez e facilidade com que as lágrimas lhe brotavam dos olhos.
Pior ainda, era quando Vovó queria dar umas cachimbadas
e pedia agitada e solenemente ao meu Avô:
- João, estou doida para dar uma cachimbada. Bote fumo
no meu cachimbo!
Segredos são segredos e merecem ficar guardados num
cofre fechados a sete chaves. Quem sabe, qualquer dia desses Agatha Christie e
Hércule Poirot conseguem destrinchar mais esse segredo, né não?
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Por favor. Não aceitaremos palavras indecorosas nem comentários que atinjam a honra dos demais comentaristas.