Por Gabriela Chabatura - iG São Paulo
Com problemas financeiros, equipes são obrigadas a vender precocemente
jovens jogadores que se valorizam na Europa. Atenção da CBF à formação de
atletas ainda é insuficiente.
A falta de paciência tem prejudicado financeiramente os clubes
brasileiros. Na ânsia de lucrar, as equipes negociam cedo demais jogadores
promissores e, mais tarde, acompanham de longe o bom desempenho deles e o
consequente aumento do valor de mercado. Foi assim com Philippe Coutinho, Alex
Teixeira, Douglas Costa... E, para entender essa sistemática, o iG
conversou com executivos e empresários que apontam a causa do problema: a
situação financeira dos clubes impede que eles invistam corretamente em jovens
atletas.
É impossível explicar o êxodo de
jogadores brasileiros sem citar o interesse financeiro que norteia os clubes.
Depois da década de 1980, quando ainda conseguiam competir no mercado com os
europeus, os clubes brasileiros viram o número de transferência aumentar e
chegar ao ápice em 2013. De acordo com a Fifa, 1.530 jogadores brasileiros
foram vendidos para o exterior no ano passado.
“Para fazer caixa, os clubes deixam de investir e vendem. A vontade de
melhorar a base é grande, mas a possibilidade é pequena. Por quanto tempo o
Vasco vai manter o Thalles (atacante), por exemplo? O Vasco já fez isso com o
Philippe Coutinho. E agora o Santos tem o Lucas Lima. Com todas as dificuldades
financeiras que o clube tem, como vai segurá-lo? Não tem jeito. É uma grande
oportunidade que o clube vê em começar a organizar o caixa”, disse René Simões
ao iG.
Para ilustrar
os exemplos citados por ele, vale o caso de Philippe Coutinho, hoje no
Liverpool (ING), cujo valor aumentou 800% desde que deixou o Brasil com apenas
18 anos. Quando promovido a profissional no Vasco, o meia-atacante valia cerca
de R$ 3,5 milhões e acabou vendido para a Internazionale de Milão por R$ 13,15
milhões. O valor de mercado dele atualmente gira em torno de R$ 69,29 milhões,
segundo o site Transfermarkt.
“O Brasil tem uma capacidade enorme
para ter talentos, mas é cada vez mais difícil os clubes terem condições
financeiras de desenvolver um trabalho na base. Temos 20 clubes na Série A e 20
na Série B que conseguem competir em bom nível, mas está cada vez menor o
espaço para formar atletas. E é muito difícil evitar que isso continue”,
apontou Thiago Scuro, diretor executivo da Red Bull Brasil.
“O Diego Costa estava ainda em
formação quando foi recrutado por um clube pequeno de Portugal (Sporting Braga).
É um processo complicado de controlar, e essas situações não deveriam nos
incomodar. Cada vez mais temos atletas na base com reconhecimento muito cedo,
mas que acabam tendo dificuldades de se manterem competitivos no profissional.
Eles sofrem por não ter o mesmo nível de ambientação e não conseguem evoluir.
Por outro lado, temos jogadores que não são tão badalados na base conseguem se
sustentar”, completou ele.
Naturalizado espanhol, Diego Costa foi captado quando jogava pelo
Barcelona de Ibiúna, então na quarta divisão de São Paulo, até ser vendido para
o Atlético de Madri por R$ 2,78 milhões em 2007. Exatos sete anos depois, o
atacante foi negociado pelo clube espanhol por R$ 122 milhões, um lucro de mais
de R$ 119 milhões.
Para o
empresário Wagner Ribeiro, é natural que os clubes deixem de ganhar dinheiro
com jovens atletas. “Posso citar o caso do Hulk. O Vitória recebeu dinheiro por
ele, um valor pequeno se comparar à venda do Porto para o Zenit (por R$ 129
milhões). Mas é isso que acontece. Quando o jogador ainda é uma promessa, custa
barato porque, como o próprio substantivo diz, é uma promessa. Você não sabe se
(o jogador) vai virar ou não. Por mais absurdo que possa parecer, o clube tem
muitas dívidas e, para administrar, acaba vendendo o jogador”, defendeu.
CBF ainda não exige maior investimento no futebol amador - Embora mantenha a seleção de base, exija certificado dos clubes e
organize duas competições (Copa do Brasil Sub 17 e Sub 20), a CBF (Confederação
Brasileira de Futebol) ainda não trata a formação de jogadores como ponto
importante para a longevidade das equipes. O surgimento de profissionais
especializados no assunto, por outro lado, anima.
“Eu acho que a base vem melhorando a cada ano. Ela ainda carece de uma
filosofia implantada pela CBF que seja seguida por todos os clubes. Acho que o
(Alexandre) Gallo está começando isso. Não vejo a necessidade de centralizar o
poder na CBF, mas seria importante para as questões estratégicas e para a
capacitação do profissional”, sugeriu Felipe Ximenes, diretor executivo de
futebol do Flamengo.
Thiago Scuro concorda com a opinião
do colega. “Pode haver uma responsabilidade da CBF em discutir, ensinar e
aprender, algo que está acontecendo gradativamente. Pode pensar em uma carga
horária maior nos cursos para formar os profissionais, porque cursos de dois e
três dias não conseguem dar essa bagagem”.
Outro ponto bastante questionado é a
Lei Pelé, que, embora tenha apresentado mais vantagens ao clube formador após
reestruturação, terminou com o “passe” e abriu caminho para a fuga de talentos
e maior participação de agentes.
“A Lei Pelé precisa ser reestruturada. O primeiro contrato com o garoto
aos 16 anos é ruim, porque essa idade não é a linha divisória para saber se ele
vai ser jogador ou não. Acredito que a idade ideal é 19, momento em que se
define se ele vai seguir a carreira profissional ou não. Tem de se repensar
tudo. É necessário ter paciência com esses jogadores e não ter a velocidade de
torná-los ídolos no clube. Tem de ter tempo para amadurecer. Ninguém sai da
universidade e constrói pontos sem erros”, argumentou René Simões.
Na próxima segunda-feira, a CBF organiza o terceiro
encontro técnico das categorias de base, projeto iniciado por Ney Franco e pelo
próprio René Simões. Durante o evento, serão debatidos o calendário e
competições para a categoria. É um primeiro passo, embora muito curto, rumo a
uma reestruturação. E, até que a mudança seja para valer, caberá aos clubes ao
menos ter mais paciência. Se é que se pode pedir isso.
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