Verdadeiro “trabalhador”
brasileiro.
Januário Raimundo da Silveira,
nascido lá pelos idos dos anos 50 – mais precisamente, 1956 – era um negro
alto, longilíneo e forte o que contrastava com a estatura baixa e atarracada do
pai, Manoel Raimundo e com a da mãe, de estatura mediana, Eleonora das Mercês,
que virou da Silva no correr dos dias.
Januário foi criado na roça e
só da roça conseguia tirar o alimento para si e para a prole que cresceu
demasiadamente antes do advento e do domínio da televisão nos lares
brasileiros. Januário e Eleonora, carinhosamente apelidada de Dona Lelé
brincavam muito na rede, depois que a primeira ninhada adormecia. O resultado
sempre surgia no raiar dos nove meses.
Homem de atitudes retas,
Januário fazia questão de manter sempre limpas as suas mais de duzentas linhas
de roça – vez por outra recebia a ajuda de alguns meninos, principalmente
Eduardo, por ali apelidado de Dudu. Dudu de Lelé, como era realmente conhecido.
Na roça era fácil encontrar o jerimum caboclo, a macaxeira ciolina e uma
plantação programada de quiabo e maxixe que permitia colher para comer todos os
dias.
Durante o dia, trabalhando na
limpeza da roça, às vezes Januário parecia um espantalho. Se abrisse os braços,
nenhuma ave se atreveria de tentar comer o milho já virado para a secagem. O
espantalho algumas vezes provocava risos em quem o visitava na roça.
Januário sempre teve apenas
duas calças para vestir: a do trabalho na roça, que fazia questão que fosse
marrom para parecer menos suja e a do passeio, que costumava vestir nos
domingos de missa na igreja matriz da sede municipal.
Por isso, o “espantalho” era
vestido apenas na parte superior e ainda assim aproveitando camisas em
frangalhos que Dona Lelé remancheava e a deixava igual a uma colcha de
retalhos. Inteligente por natureza, Januário plantava milho e maniva de
mandioca no entorno do espantalho para que ninguém descobrisse que o dito cujo
estava nu e mostrando as partes pudentas – na verdade, gravetos de marmeleiro
amarrados com ramos de maracujá.
Januário trabalhava tanto e se
entretia em demasia que, vez por outra esquecia até que anoitecera. E, quando
se dava conta, apenas punha a enxada no ombro magro e pegava o caminho de volta
para casa. Em casa, Lelé separava sempre uma tirrina ou uma cuia d´água para o
asseio do marido.
Asseio pós-sexo era um luxo ou
uma preocupação que Januário e Lelé desconheciam. Mas, como nenhum dos dois
conhecia outro parceiro de saliência (“saliência”, no Maranhão, é a mesma coisa
que fazer sexo, copular, trepar, foder, nhanhar), Lelé postergava o banho
apenas para a manhã seguinte, quando dava uns mergulhos no açude onde apanhava
água para a labuta do dia-a-dia. Certamente que, por isso, nos dias férteis,
cada nhanada era uma prenhez.
E foi nesse ambiente simples
de trabalho na roça, com o tempo dividido entre o roçado, a casa e as missas
dominicais que os meninos de Januário e Lelé chegaram à adolescência. Os três
mais velhos chegavam aos 22, 20 e 18 e começaram a tomar banho depois do
cansativo dia de trabalho na roça e descobriram, também, que o pai não proibia
que eles “dessem uma volta”, até porque era mais uma folguinha para Januário e
Lelé fazerem saliência na rede tijubana.
Foi nesses passeios que os
jovens descobriram, em casas de amigos, que existia na cidade grande uma tal de
televisão. E, na televisão, descobriram também que o mundo real era algo além
daquele que eles conheciam – onde faziam parte apenas a roça, os pais, o banho
de açude e a jumentinha que acabaram descobrindo nas traquinagens das idas para
o banho.
Donato, o mais velho, ali
conhecido como Nato de Lelé, passou a ver televisão com mais frequência e
acabou vendo e aprendendo além daquilo que pretendia. Conseguiu descobrir que
existe um tal “Governo Federal” e que é esse quem tem a responsabilidade de
promover mudanças e realizações que, férteis e responsáveis, podem ajudar os
menos favorecidos. Ou, como se diz nos dias atuais: os excluídos da sociedade.
Certa noite, Nato conseguiu
acompanhar o noticiário nacional. Viu de olhos arregalados um jovem na mesma
idade que a sua, ser preso e algemado e, em vez de aborrecido, abrir largo
sorriso com se estivesse sendo premiado por algum malfeito. Foi assim que Nato
entendeu. O jovem estava alegre por estar sendo conduzido preso.
- Esse daí acabou de arranjar
um bom emprego – disse Zeca, que vivia criticando as políticas sociais do
Governo Federal.
- Como assim? – indagou Nato a
Zeca.
- É que, agora, preso, ele vai
receber um tal de “Auxílio-reclusão”, no valor de R$789,30 que o Governo
Federal paga para quem comete essas besteiras. É muito maior que o Salário
mínimo, de R$724,00 que um trabalhador ganha por mês, enfrentando todo tipo de
dificuldade na vida.
- E o que foi que ele fez pra
merecer isso? – indagou Nato.
- Qualquer um que mata, rouba,
assalta e é preso, recebe esse dinheiro, garantiu Zeca.
- E ele vai trabalhar na
cadeia pra receber esse dinheiro? – continuou perguntando Nato.
- Não vai fazer nada. E ainda
tem roupa lavada, comida, sombra e água fresca, além de visita íntima para
nhanhar de vez em quando. Isso sem precisar entrar na fila dos hospitais do
INSS quando precisar de médico. Concluiu Zeca.
Confuso, Nato lembrou que se
entretera além da conta e resolveu voltar para casa. De manhã, entre uma carpinada
e outra, criava coragem para falar para o pai a decisão que tomara. Criou
coragem e resolveu falar:
- Pai, essa vida aqui não dá
pra mim. Eu vou embora pra cidade!
- Você acha que está na hora
de ir, filho, vá. Vá e procure estudar. Procure ser gente e levar uma vida
diferente dessa que nos mata aqui na roça. Nos mata de trabalhar e de não ter
direito a nada além do que plantamos e cultivamos aqui.
- Vou sim pai. Vou ganhar o
“Auxílio-reclusão”!
“O auxílio-reclusão é um benefício
previdenciário no Brasil pago pelo INSS aos dependentes do segurado recolhido à prisão, desde que ele não receba salário ou aposentadoria.
Descrição - O auxílio-reclusão foi
instituído pela lei n° 8.213, de 24 de
junho de 1991. É concedido apenas se o
requerente (preso em regime fechado ou semiaberto) comprovar sua condição de segurado,
ou seja, desde que tenha exercido atividade remunerada que o enquadre como
contribuinte obrigatório da previdência
social. Entre 2003 e 2009, o valor do teto do auxílio
passou de R$ 560,81 a R$ 789,30, um reajuste portanto de 25%. (Atualizado de
acordo com a Portaria Interministerial nº 02, de 06 de janeiro de 2012) O
detento pode, no entanto, trabalhar na prisão e contribuir como segurado do
tipo "contribuinte individual" sem tirar dos dependentes o direito ao
auxílio-reclusão. O valor é dividido entre os beneficiários — cônjuge ou
companheira (o), filhos menores de 21 anos ou inválidos, pais ou irmãos
não-emancipados menores de 21 anos ou inválidos — e não varia conforme o número
de dependentes do preso. Se falecer, o benefício se converterá automaticamente
em pensão
por morte.
O dependente deve comprovar trimestralmente a
condição de presidiário do segurado. Se houver fuga, o benefício será suspenso
e somente restabelecido se, quando da recaptura, o segurado ainda tiver vínculo
com o INSS (manutenção da qualidade de segurado). O auxílio-reclusão é pago para
os dependentes do segurado que ganhava, antes da prisão, até 810 reais (valor de 2010). Outra exigência é que o preso não esteja recebendo remuneração de
empresa, auxílio-doença, aposentadoria ou abono de permanência em serviço.” – Transcrito do Wikipédia.
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