Iziane
na praia em São Luís.
Helder Júnior São Paulo (SP) - Com o conformismo de
quem já não tem mais qualquer esperança de voltar a defender a Seleção
Brasileira, a ala Iziane se sente à vontade para criticar a equipe nacional que
fracassou no Mundial de basquete da Turquia. A grande revelação do País na
década passada conversou com a Gazeta Esportiva pouco depois de assistir
à derrota por 61 a 48 para a França (foi a pior pontuação do Brasil no torneio
desde a instituição da linha de três pontos), a quarta em três jogos
disputados. Falou baixo, chegando a aparentar timidez, porém com a mesma
contundência de outros tempos.
“A campanha do Brasil no Mundial ficou dentro do
que já era esperado. Decidiram promover uma renovação e comprometeram quem
realmente merecia estar lá. As melhores jogadoras do mercado brasileiro no
momento não foram chamadas. Aí, o resultado só poderia ser esse mesmo. Era
impossível ganhar de equipes significativas. Vencemos apenas o Japão, que era
tão frágil quanto o Brasil”, atacou Iziane.
O Brasil do técnico Luiz Augusto Zanon tem média de
idade de quase 25 anos. Apenas três atletas entre as convocadas para o Mundial
da Turquia já possuíam experiência na competição – Adrianinha, recém-aposentada
da Seleção aos 35 anos, a novata Damiris, de 21, e Érika, que tem os mesmos 32
de Iziane.
“Não tenho
nem ideia do porquê de não chamarem as melhores. Existe uma mentalidade errada
de renovação. É importante renovar, sim. Eu mesma e a Érika somos frutos de uma
renovação, mas fomos lançadas no meio de jogadoras maduras (eram as mais
jovens no Mundial de 2002). É assim que se faz. A visão de hoje está
errada. Vão jogar agora a desculpa de que a equipe é renovada, de que está se
preparando. Mas se preparando para quando?”, continuou a contestar a ala.
De certa forma, Iziane advoga em causa própria.
Considerada a melhor jogadora do Brasil na época, já com passagens destacadas
pela WNBA, ela acabou excluída da Seleção Brasileira pela então diretora
Hortência pouco antes das Olimpíadas de Londres, em 2012. Ficou marcada por
levar o namorado para dormir em seu quarto na concentração da equipe, na
França, e nunca mais recebeu uma nova oportunidade.
“Não sei dizer se é uma injustiça. A Seleção
Brasileira tem um novo técnico, uma nova administração. Não sei o que se passa
na cabeça deles para não me convocarem. Não sei se existe algum receio em
relação ao meu passado ou se é esse negócio de renovação. Não posso responder.
Só perguntando a essa comissão técnica”, lamentou.
Quatro anos antes da polêmica na concentração
brasileira, Iziane já havia ficado fora dos Jogos Olímpicos de Pequim. Ela se
desentendeu com o então treinador Paulo Bassul ao se recusar a retornar à
quadra em uma partida do Pré-Olímpico de 2008, na Espanha, depois de ser
substituída.
Iziane, quarta colocada nas Olimpíadas de Atenas,
em 2004, já não tem mais esperanças de apagar as decepções de 2008 e 2012 e ir
aos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016. “Nenhuma, nenhuma. Faz dois anos que não
sou convocada. Existe um novo técnico no Brasil, uma nova administração. Se não
fui chamada agora, serei daqui a dois anos?”, questionou. “Não é frustrante
porque já não tenho a expectativa. Só fico triste pelo basquete brasileiro, que
precisa ter as suas melhores jogadoras”, repetiu.
À distância, como uma “mera torcedora”, a ala é
pessimista sobre as chances de o basquete feminino do Brasil se reabilitar nas
Olimpíadas disputadas dentro de casa após a campanha pífia no Mundial. “Não
encaro o que aconteceu como uma vergonha. Existe uma debilidade no time. Temos
uma deficiência. Infelizmente, não acredito que haverá um salto de qualidade de
uma hora para outra. O time é o que temos aí. Uma medalha é muito improvável”,
advertiu.
Por fim, Iziane ainda
garantiu que procura fazer a sua parte para o esporte nacional evoluir. Mesmo
longe da Confederação Brasileira de Basquete (CBB). Em 2011, ela ajudou a
fundar o Maranhão Basquete em sua cidade, São Luís, e tem incentivado o
surgimento de novos jogadores. “É um trabalho constante. Tive essa mentalidade
quando voltei a jogar no Brasil, abrindo portas para uma nova região, o que
possibilitou outras pessoas a fazerem o mesmo. Essa é a minha contribuição.
Acabei de criar também o meu instituto, auxiliando muito o esporte local. Estou
puxando essa área”, sorriu a ala, com o espírito renovado.
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