quarta-feira, 8 de outubro de 2014

No cagar dos pintos





O caminho da água ao raiar do sol.

 

A noite é algo que reconforta. Muitos trabalham durante noite, mas a maioria dorme o sono reparador.  Noite com clima frio ajuda ainda mais o organismo se recompor. O frio do ar refrigerado fica distante do frio natural – falamos do frio suportável ao humano.

Depois de um dia de trabalho – com esforço físico – um bom banho garante um descanso. Dormir numa rede limpa e cheirosa com um lençol macio – de preferência, velho – e limpo, é o prêmio que qualquer homem da roça merece e quer.

Mas esse conforto e esse sono reparador da roça acabam quando o galo canta. E canta trazendo junto o avermelhado das nuvens pintando os céus anunciando que mais um dia está a caminho. É o dia que chega. Chega no cagar dos pintos.

As meninas, latas ou cabaças na cabeça, iniciam a reposição da água gasta. Potes são cheios, gamelas também – pois galinhas galos, pintos, patos e patas, perus e até o cachorro precisam beber.

No pote o coador, para que não passem os martelos e outras larvas. Dali se bebe, dali se cozinha – banho e roupas são tomados e lavadas fora de casa. Distante – na vazante do açude.

Tudo começa, repetimos, no cagar dos pintos. Ordenha de cabras e vacas, e feita manualmente, aonde a “tecnologia” ainda não chegou. Leite mugido aparado na caneca antes da mamada do cabrito ou do bezerro.

E o galo continua no seu có-có-ró-có!

Nos centros urbanos o frege do transporte de massa reaviva o burburinho da cidade. Pais levam filhos às escolas e, aparentemente, um novo dia começa. E é assim mesmo. É a cidade grande.

Na fazenda ou na roça volta a rotina. Enxada no ombro para a carpina. Machado na mão para o corte e o rachar da lenha que vai garantir a panela no fogo.  Foice nas mãos – a picada precisa ser aberta para a chegada do comboio que traz a mandioca para o início de mais uma farinhada.

Doca de Rosa levanta a cabeça e frange o cenho com um olhar piedoso para o bode que vai morrer para servir de almoço para os trabalhadores naquele primeiro dia de cerca de 40 em que todos das redondezas colherão a safra da mandioca para a farinhada. É assim. Sempre foi assim. Uma comunidade coletiva.

O café acabou de ser servido e o almoço já está em andamento. Oitenta e quatro trabalhadores – todos familiares e quase todos parentes uns dos outros – dão um aspecto de quilombo na roça e na casa de farinha. Caititu, bolandeira puxada pelo boi, prensa, tudo funcionando. Gonçalo atiça fogo no forno da farinha, deixando-o no ponto – tem que ter maestria ou a farinha queima.

Fim do dia. Todos ao banho no açude, em fila indiana. No escurecer depois do banho cada um toma o seu rumo em direção a casa.

Noite. Rede e sono. E, novamente ao raiar do dia, a mesma rotina. Tudo recomeça no cagar dos pintos.

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