O caminho da água ao raiar do sol.
A noite é algo que reconforta. Muitos trabalham durante
noite, mas a maioria dorme o sono reparador. Noite com clima frio ajuda ainda mais o
organismo se recompor. O frio do ar refrigerado fica distante do frio natural –
falamos do frio suportável ao humano.
Depois de um dia de trabalho – com esforço físico – um
bom banho garante um descanso. Dormir numa rede limpa e cheirosa com um lençol
macio – de preferência, velho – e limpo, é o prêmio que qualquer homem da roça
merece e quer.
Mas esse conforto e esse sono reparador da roça acabam
quando o galo canta. E canta trazendo junto o avermelhado das nuvens pintando
os céus anunciando que mais um dia está a caminho. É o dia que chega. Chega no
cagar dos pintos.
As meninas, latas ou cabaças na cabeça, iniciam a
reposição da água gasta. Potes são cheios, gamelas também – pois galinhas
galos, pintos, patos e patas, perus e até o cachorro precisam beber.
No pote o coador, para que não passem os martelos e
outras larvas. Dali se bebe, dali se cozinha – banho e roupas são tomados e
lavadas fora de casa. Distante – na vazante do açude.
Tudo começa, repetimos, no cagar dos pintos. Ordenha de
cabras e vacas, e feita manualmente, aonde a “tecnologia” ainda não chegou.
Leite mugido aparado na caneca antes da mamada do cabrito ou do bezerro.
E o galo continua no seu có-có-ró-có!
Nos centros urbanos o frege do transporte de massa
reaviva o burburinho da cidade. Pais levam filhos às escolas e, aparentemente,
um novo dia começa. E é assim mesmo. É a cidade grande.
Na fazenda ou na roça volta a rotina. Enxada no ombro
para a carpina. Machado na mão para o corte e o rachar da lenha que vai
garantir a panela no fogo. Foice nas
mãos – a picada precisa ser aberta para a chegada do comboio que traz a
mandioca para o início de mais uma farinhada.
Doca de Rosa levanta a cabeça e frange o cenho com um
olhar piedoso para o bode que vai morrer para servir de almoço para os
trabalhadores naquele primeiro dia de cerca de 40 em que todos das redondezas
colherão a safra da mandioca para a farinhada. É assim. Sempre foi assim. Uma
comunidade coletiva.
O café acabou de ser servido e o almoço já está em
andamento. Oitenta e quatro trabalhadores – todos familiares e quase todos
parentes uns dos outros – dão um aspecto de quilombo na roça e na casa de
farinha. Caititu, bolandeira puxada pelo boi, prensa, tudo funcionando. Gonçalo
atiça fogo no forno da farinha, deixando-o no ponto – tem que ter maestria ou a
farinha queima.
Fim do dia. Todos ao banho no açude, em fila indiana.
No escurecer depois do banho cada um toma o seu rumo em direção a casa.
Noite. Rede e sono. E, novamente ao raiar do dia, a mesma
rotina. Tudo recomeça no cagar dos pintos.
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