domingo, 14 de junho de 2015

A jovem velharia





Charutos Suerdieck – preferidos de Gugu

 

Ei, aceite um convite meu. Vamos dar uma voltinha no tempo, no templo da vida. Liguemos a nossa “Máquina do Tempo”, que ela já nos mostra mesmo antes da primeira curva do vento, alguma coisa que, se não nos levar às lágrimas, vai nos dar um prazer enorme de termos cruzado a barreira – do tempo na vida.

Adail Gumercindo Moreira, preferencialmente tratado por Gugu, era um cabra daqueles que a gente dizia que parecia ter um “rei na barriga” – como se o lugar não fosse mais adequado para guardar tripas e muita bosta. Que “Rei” se atreveria a morar num lugar tão fétido?

Pois, Gugu era um simples guarda municipal nos tempos em que essa gente não era, mais se imaginava autoridade. Tempos bons, convenhamos. E Gugu fazia qualquer coisa para garantir a sua folga nos dias de sexta-feira, quando aproveitava para se encontrar com Mãe Garrafinha, a macumbeira mais famosa das cercanias, que ameaçava encher o bucho de espinhos e alfinetes, daquele que não se curvasse à ela. Assim, Gugu jamais se meteria a besta.

Certo dia, o responsável afixou a “escala de serviço” no mural do Quartel da Guarda Municipal. Lá estava Gugu, escalado para tirar serviço na sexta-feira, 13. Ele não acreditou muito, pois tinha um conchavo com o Sargenteante, que namorava escondido uma prima dele. Nenhuma reclamação foi atendida e a “escala” ficou mantida.

O que se soube depois, foi que Gugu gastou algumas economias e “pagou” para alguém tirar o seu serviço. A folga foi assegurada, e assim, a sexta-feira, mais uma vez estava livre.

Calças de linho branco, sapato de duas cores – branco e marrom – camisa de cambraia de linho com colarinho bem passado, abotoaduras estilo chinês, e paletó branco, com um cravo vermelho na lapela. Era esse o traje de gala de Gugu naquela sexta-feira, para ele conquistada com muita luta. No bolso da camisa, dois charutos Suerdieck enrolados num lenço de linho branco não podiam faltar, perfumados com o francês Ramage. E lá se foi Gugu para a tarde-noite da realização.

Aquela sexta-feira não era uma sexta-feira qualquer. Era uma sexta-feira 13, com gatos pretos de olhos brilhantes por onde quer se se andasse. Gugu, um baita negão, enfrentava qualquer parada, ainda que fosse coisa do outro mundo.

O imprevisto entrou no roteiro de Gugu. Mãe Garrafinha era tia da namorada do Sargenteante e soubera, no começo da semana, de forma privilegiada, que Gugu estaria de serviço naquela sexta-feira, 13 – e foi à luta, ganhar dinheiro na vida fácil (ops!).

Antes de ir para as quebradas, Gugu passou na casa de Mãe Garrafinha para leva-la a curtir a noite, tão esforçadamente conquistada.

Gugu bateu na porta de Mãe Garrafinha. Bateu e não teve resposta. Bateu de novo, agora mais forte. Continuou sem resposta. Bateu mais forte ainda, dando a impressão que botaria aquela porta abaixo. Sem resposta.

A vizinha abriu a porta dela e avisou:

- a “Mãe” saiu. Deve ter ido pra Casa Amarela!

Gugu não quis acreditar na desfeita. Mas foi nos passos de Mãe Garrafinha e, pra que, a encontrou na primeira mesa do primeiro bar, nos braços de um Delegado de Polícia famoso daqueles tempos. Não conversou. Sacou o 38 e descarregou todo, nos dois. Nervoso e tremendo como se sofresse do Mal de Parkinson, não acertou nenhum tiro. Tudo bala perdida e amor esfacelado.

Meses depois, Gugu jogava toda a sua roupa branca fora. Nenhuma servia mais, pois engordara mais de 10 quilos. Andava devagar, com a barriga cheia de espinhos e alfinetes.

Quem sair por último, que apague a luz. A conta estava atingindo a bandeira vermelha. Da mesma forma, Seu Antonino, português de “Trás os Montes” chegado ao Brasil nos anos 40, agia quando alguém lhe perguntava quem pagava a conta de tantas despesas em casa.

A resposta faria mais sentido para quem perguntasse o que faria com o Chevrolet Impala que tinha em casa, e recebia mais atenção que a mulher Odete, portuguesa atarracada que, por mais que banhasse, transpirava o odor do bacalhau que, diziam, chegava para o casal, procedente da Noruega.

Antonino não era limpador de nada, mas era mais fácil não encontrar dinheiro nos seus bolsos, que uma flanela que, de tão usada, começava a perder a cor. Essa era usada na limpeza esmerada da “máquina”, o Impala do Antonino.

- Não quero nem sabeire se o preço da gasolina subiu! Eu só mando botaire mesmo cinco litros, opá!

 




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