Charutos
Suerdieck – preferidos de Gugu
Ei, aceite um convite meu. Vamos dar uma voltinha no
tempo, no templo da vida. Liguemos a nossa “Máquina do Tempo”, que ela já nos
mostra mesmo antes da primeira curva do vento, alguma coisa que, se não nos
levar às lágrimas, vai nos dar um prazer enorme de termos cruzado a barreira –
do tempo na vida.
Adail Gumercindo Moreira, preferencialmente tratado por
Gugu, era um cabra daqueles que a gente dizia que parecia ter um “rei na
barriga” – como se o lugar não fosse mais adequado para guardar tripas e muita
bosta. Que “Rei” se atreveria a morar num lugar tão fétido?
Pois, Gugu era um simples guarda municipal nos tempos
em que essa gente não era, mais se imaginava autoridade. Tempos bons,
convenhamos. E Gugu fazia qualquer coisa para garantir a sua folga nos dias de
sexta-feira, quando aproveitava para se encontrar com Mãe Garrafinha, a
macumbeira mais famosa das cercanias, que ameaçava encher o bucho de espinhos e
alfinetes, daquele que não se curvasse à ela. Assim, Gugu jamais se meteria a
besta.
Certo dia, o responsável afixou a “escala de serviço”
no mural do Quartel da Guarda Municipal. Lá estava Gugu, escalado para tirar
serviço na sexta-feira, 13. Ele não acreditou muito, pois tinha um conchavo com
o Sargenteante, que namorava escondido uma prima dele. Nenhuma reclamação foi
atendida e a “escala” ficou mantida.
O que se soube depois, foi que Gugu gastou algumas
economias e “pagou” para alguém tirar o seu serviço. A folga foi assegurada, e
assim, a sexta-feira, mais uma vez estava livre.
Calças de linho branco, sapato de duas cores – branco e
marrom – camisa de cambraia de linho com colarinho bem passado, abotoaduras
estilo chinês, e paletó branco, com um cravo vermelho na lapela. Era esse o
traje de gala de Gugu naquela sexta-feira, para ele conquistada com muita luta.
No bolso da camisa, dois charutos Suerdieck enrolados num lenço de linho branco
não podiam faltar, perfumados com o francês Ramage. E lá se foi Gugu para a
tarde-noite da realização.
Aquela sexta-feira não era uma sexta-feira qualquer.
Era uma sexta-feira 13, com gatos pretos de olhos brilhantes por onde quer se se
andasse. Gugu, um baita negão, enfrentava qualquer parada, ainda que fosse
coisa do outro mundo.
O imprevisto entrou no roteiro de Gugu. Mãe Garrafinha
era tia da namorada do Sargenteante e soubera, no começo da semana, de forma
privilegiada, que Gugu estaria de serviço naquela sexta-feira, 13 – e foi à
luta, ganhar dinheiro na vida fácil (ops!).
Antes de ir para as quebradas, Gugu passou na casa de
Mãe Garrafinha para leva-la a curtir a noite, tão esforçadamente conquistada.
Gugu bateu na porta de Mãe Garrafinha. Bateu e não teve
resposta. Bateu de novo, agora mais forte. Continuou sem resposta. Bateu mais
forte ainda, dando a impressão que botaria aquela porta abaixo. Sem resposta.
A vizinha abriu a porta dela e avisou:
- a “Mãe” saiu. Deve ter ido pra Casa Amarela!
Gugu não quis acreditar na desfeita. Mas foi nos passos
de Mãe Garrafinha e, pra que, a encontrou na primeira mesa do primeiro bar, nos
braços de um Delegado de Polícia famoso daqueles tempos. Não conversou. Sacou o
38 e descarregou todo, nos dois. Nervoso e tremendo como se sofresse do Mal de
Parkinson, não acertou nenhum tiro. Tudo bala perdida e amor esfacelado.
Meses depois, Gugu jogava toda a sua roupa branca fora.
Nenhuma servia mais, pois engordara mais de 10 quilos. Andava devagar, com a
barriga cheia de espinhos e alfinetes.
Quem sair por último, que apague a luz. A conta estava
atingindo a bandeira vermelha. Da mesma forma, Seu Antonino, português de “Trás
os Montes” chegado ao Brasil nos anos 40, agia quando alguém lhe perguntava quem
pagava a conta de tantas despesas em casa.
A resposta faria mais sentido para quem perguntasse o
que faria com o Chevrolet Impala que tinha em casa, e recebia mais atenção que
a mulher Odete, portuguesa atarracada que, por mais que banhasse, transpirava o
odor do bacalhau que, diziam, chegava para o casal, procedente da Noruega.
Antonino não era limpador de nada, mas era mais fácil
não encontrar dinheiro nos seus bolsos, que uma flanela que, de tão usada,
começava a perder a cor. Essa era usada na limpeza esmerada da “máquina”, o
Impala do Antonino.
- Não quero nem sabeire se o preço da gasolina subiu!
Eu só mando botaire mesmo cinco litros, opá!
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