domingo, 14 de junho de 2015

As cachimbadas da Vovó





Vovó Doca cachimbando

Minha Avó (claro, não é essa aí da foto! – apenas peguei para ilustrar), de quem já falei algumas vezes aqui, era uma negra (ops! – “afrodescendente”) descendente direta dos povos africanos que chegaram ao Brasil aportando inicialmente na Bahia. Dali, como rama de melancia, espraiou-se pelas terras brasileiras. As sombras dos cajueiros de Pacajus usadas para uma “madorna” ganharam a preferência dos ancestrais – e ali fincaram raízes.

Inteligente pelas graças d´Ele, como todos nós, Vovó sempre se destacou como figura ímpar no habitat ou fora dele. Magricela de boa estatura (beirava o 1,80m), capinava tão bem quanto qualquer homem e usava a foice como ninguém. Destra, usava a mão esquerda apenas para segurar o cachimbo – tal como está na foto ilustrativa. E era ela mesma quem dizia:

- Só uso a perna esquerda prumode segurar o esqueleto, espantar pinto e esporar a barriga de jumento lerdo! Dizia ela, caindo na gaitada (rir muito alto).

Batizada Raimunda, e muito conhecida como “Doca” – os pais não conheciam ainda os nomes Daiane, Emmelyne, Aulinda, Sylvia e tantos outros que mandaram para a lixeira o Maria, Anunciada, Guilhermina, Ana e tantos outros nomes abrasileirados – minha Avó, se viva fosse, o Lulabras não teria sido agraciado (?!) com o Doutor Honoris Causae. Recairia sobre ela a premiação.

Ledo engano imaginar que Dona Doca não conhecia nem gostava de política. Todos somos seres políticos – infelizmente, alguns se deixam usar pelos agentes em troca de algo – e, também dependemos da política até para irmos ao banheiro. Pode até ser outro tipo de política, mas acaba sendo política, sim.

Pois, Dona Doca costumava cambiar votos para Joaquim Albano em troca de alguns alqueires de terra para o plantio da roça da família. Nos tempos atuais, ela não seria nenhuma liderança, mas tinha lá seu valor e importância para o “cumpade Quincas”, herdeiro de muitas terras do povoado.

Certa vez, adispois do café da três horas da tarde com beiju da massa de farinha, sentada no tamborete preferido – era um tamborete que ela mandara o marido fazer um buraco onde sentava prumode peidar sem dificuldade – e entre uma cachimbada e outra, Dona Doca aprumou a conversa:

- Esses pulíticos são tudo uns abestaiados . Num sabe nem robar, apois dexam as tramelas abertas! Quem esse pomba lesa de Lula pensa que é? Num sabe por causa de que o pato come qualquer coisa e caga ralo; num sabe prumode que a cabra come tudo que é mato e caga aquelas bolinhas... num sabe de merda nenhuma, como quer saber de política prumode enganar os zoutros dizeno que num sabia de nada da roubaiera?

 

 

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