Pedro Cifuentes
Como avisou a procuradora-geral dos Estados Unidos,
a investigação do FBI que “derrubou” o poderoso presidente
da FIFA, Joseph Blatter, não conhece limites. Os agentes
analisam também a organização do Mundial de 2014 em virtude dos estreitos
vínculos entre o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira e o secretário-geral da
FIFA, Jérôme Valcke (mão direita de Blatter), segundo informou o Estadão
com base em fontes que conhecem o caso. As confissões realizadas por diversos
delatores confirmaram a existência de subornos prévios à designação do Mundial
da África do Sul, em 2010, como há tempo se suspeitava, e as autoridades
norte-americanas revisarão a escolha das duas próximas Copas – Rússia 2018 e a polêmica Catar 2022 –, o que poderia inclusive provocar tensões internacionais.
Teixeira, que presidiu a CBF entre 1989 e 2012, é o
principal alvo das diversas investigações em
andamento sobre a confederação do Brasil. Mas, pelo menos até agora, ele não está na lista de indiciados por
lavagem de dinheiro e evasão fiscal divulgada pelo Departamento de Justiça dos
EUA na semana passada e que resultou na detenção de sete dirigentes em
Zurique (entre eles, o sucessor de Teixeira, José Maria
Marin). Até o momento, não se sabe se Teixeira será um
dos “conspiradores” citados pelo FBI, cujas identidades ainda não foram
reveladas. O ex-genro de João Havelange era diretor do Comitê Organizador da
Copa do Mundo 2014 quando se exilou em Miami, em 2012, enfrentando gravíssimas
acusações que depois seriam confirmadas e atingiriam o próprio Havelange – que
perdeu sua condição de presidente honorário da FIFA e de membro do Comitê
Olímpico Internacional (COI).
Os investigadores analisam mais de mil documentos e
contratos assinados pelos organizadores nos anos prévios à realização do
torneio, depois que a candidatura única do Brasil ao Mundial (que correspondia
à América do Sul) foi preparada pelo próprio Valcke. As suspeitas sobre o Mundial
2014 somam-se à investigação do contrato de 150 milhões
de dólares (cerca de 465 milhões de reais) assinado entre a Nike (mencionada
nos autos do processo como “uma empresa de material esportivo) e a CBF na época
de Teixeira, entre outros contratos. Valcke, por sua vez, nega terminantemente
a existência de condutas ilegais em supostas transações milionárias que vieram
à tona na imprensa.
Marco Pólo Del Nero, atual presidente da CBF, abandonou
Zurique às pressas um dia após as detenções, véspera da reeleição de Blatter. Queria “responder pessoalmente” às acusações no Rio e em São Paulo. As
fortíssimas pressões sobre ele nascem de seu estreitíssimo vínculo com Marin,
formalmente acusado de receber generosas propinas por campeonatos
internacionais e brasileiros. Segundo a Folha de S. Paulo, Del Nero
assinou o balanço de demonstrações financeiras da CBF de 2014 e participou
(como vice-presidente da entidade, eleito por Marin) de pelo menos 10 dos 13
contratos comerciais que a confederação firmou desde 2012, quando seu mentor
chegou à presidência por ser o vice mais velho.
O futebol brasileiro vive uma enorme tormenta, e
Del Nero manobra sem descanso para impedir uma revolta de patrocinadores e
federações estatais de futebol. Isso o obrigaria a apresentar sua renúncia, já
pedida publicamente por personalidades como o senador Romário e Ronaldo, e promovida de forma privada por diretores de clubes e
certos dirigentes regionais em meio à frieza do Governo, que nunca escondeu seu
o pouco apreço pela direção da CBF. Dilma Rousseff já deixou claro que a
investigação sobre a corrupção
na FIFA “fará bem ao futebol mundial e ao brasileiro”.
Zico propõe-se seriamente apresentar sua candidatura à presidência da
Fifa:
Ainda não se sabe quem é o conspirador 12 da
investigação do FBI, e Del Nero negou repetidamente a possibilidade de que seja
ele próprio. Todo o establishment do futebol brasileiro parece de
repente estar sob suspeita, embora isso até agora não tenha afetado as
competições. O presidente convocou uma assembleia extraordinária da CBF para o
próximo dia 11, quando serão debatidas as modificações nos estatutos da
entidade. Desse modo, ele tenta conter o lobby dos clubes que buscam a criação
de uma liga independente. Neste fim de semana, algumas das principais figuras
do futebol brasileiro, como Zico e Ronaldo, vão se reunir em Berlim para a
final da Champions League. Lá discutirão os próximos movimentos e pedirão o
apoio dos patrocinadores da CBF. Zico pretende seriamente apresentar sua
candidatura à presidência da FIFA nas eleições do fim do ano e garantiu a este
jornal que vai falar quando voltar ao Brasil, a partir do dia 9.
Na quinta-feira do Corpus Christi na Granja Comary,
em Teresópolis, os jornalistas perderam o início do treino da seleção esperando
a chegada de Del Nero, que visitou os atletas internacionais para lhes desejar
sorte antes do desafio pós-Mineiraço da Copa América. O presidente da CBF cruzou o portão sem baixar os
vidros escuros de deu carro e sem dar declarações à imprensa. Como disse um
fotógrafo carioca, de todo jeito houve mais aproximação (e foi mais barato) que
no ano passado, quando ele costumava aterrissar em Comary a bordo de um helicóptero.
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