Como disse um dia Vinicius de Moraes – “a beleza é
fundamental” – usufruindo das belezas naturais de onde morava: assim como “ser
carioca” é um estado de espírito, a beleza tem muito mais de interioridade
pessoal, que daquilo que seus olhos veem.
Se você não está bem consigo, a beleza passa despercebida,
por mais ímpar que seja. Se você está bem e feliz, aquilo que naquele momento
não lhe parece belo vai tocar o seu interior e pinçar adjetivos que qualificam
o “algo” visto.
Assim, provavelmente pegando uma carona no sempre
presente bom estado de espírito dos leitores, apresentamos algumas das nossas
escolhas de hoje, nas quais incutimos o “nosso conceito pessoal”.
Como escreveria o premiadíssimo Papa Berto em conceito
de belezura, eu chega fiquei-me todinho
arrupiado com a sempre boa forma física dela. Beleza pra tarado nenhum
botar defeito e ficar folheando nos recônditos da imaginação a revista em que
ela ocupa todas as páginas. Olhas essas “ancas” é bem mais mió que ingulir
caroço de pitomba, né não? Arrepare nos cantos da boquinha dela, arrepare! E as
curvas bundais não se assemelham a um
conjunto de cataratas?
Pense... num pense nim nada não! Aja!
Nunca escutei o cântico nem ouvi falar que Beija-Flor
cantasse. E, além do que se vê, “precisa” cantar? Vai encantar mais ainda a
quem?
Com certeza, Picasso, Van Gogh e provavelmente outros
não encontrarão cores para retratar essa pequena ave que ainda nos encanta com
rodopios e sustentabilidade indescritíveis à nossa capacidade humana de
escrever. Voa porque é preciso e nos encanta porque é a natureza dela
sustentada pelas mãos e pelos ventos divinos.
Na infância que já está distante, comi muitos
beija-flores, pretendendo matar a fome que nos destruía e nos fazia irracionais
– comeríamos qualquer coisa. Eram tão pequenininhos que precisávamos comer
muitos para sentirmos alívio no estômago.
Seria por isso que dizem que tenho um belo “interior”?
Ou, será que vísceras nada têm com “interior”, tampouco
com sentimentos?
Agora, imaginemos um turista passeando nas ruas da
China ou do Japão. Imagine esse turista sendo e aparecendo diferente da grande
maioria que nesses lugares habita. A dificuldade que temos também para
pronunciar os nomes – esquisitos para nós e comuns para eles – fica reforçada
pela dificuldade que temos de diferenciar um do outro.
Agora, pense num mar, nos arrecifes naturais e nos
bancos de algas habitados por imensos cardumes de peixes iguais, com o “mesmo
desenho” e com as mesmas cores. Repentinamente surge um único diferente.
Diferente do caso do turista que passeia no Japão ou na China, esse peixe
diferente ganha notoriedade e uma beleza que nossos olhos captam. Então, assim,
reforçamos a tese de que, beleza, é um estado de espírito.
Imaginemos também, o tamanho desproporcional de um
tubarão passeando nesses arrecifes e no canteiro dessas algas. Nossos olhos
captam mais e rapidamente o tamanho do tubarão, mas não deixam de lado o
colorido dos demais peixes listados e pintados, sabe-se lá por qual pintor.
Beleza, dizem, não tem cor. Tem vida!
Claro que a mulher tem o hábito de tentar melhorar
ainda mais o que já nos aparece com beleza. Mas ela quase sempre não está
satisfeita. São desconfiadas e precisam trabalhar o ego.
Mas, existem algumas que sequer pensam em retocar o que
não precisa mesmo ser retocado. Essa mulher aí da foto (negra ou não é apenas
um detalhe que a tez dispensa) “trabalhou” a sobrancelha e deixou por conta da
natureza e do nosso estado de espírito os cílios – algumas usam postiços – o
nariz e a boca, ambos enfeitados por um buço divino – na infância, a gente
chamava de caminho de escorrer catarro.
Para que maquiagem, se a natureza já trabalhou com
tamanha perfeição?
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