André Borges e Fábio Fabrini
Às vésperas do julgamento das contas de 2014 da
presidente Dilma Rousseff, o Ministério Público de Contas, que atua junto ao
Tribunal de Contas da União (TCU), sugeriu aos ministros da corte que votem
pela reprovação do balanço do governo, que descreve a situação financeira,
orçamentária, patrimonial e contábil da União.
Em documento encaminhado na segunda-feira aos nove
ministros titulares do tribunal, ao qual o Estado teve acesso, o
procurador Júlio Marcelo de Oliveira enumera uma série de irregularidades,
entre elas as chamadas "pedaladas fiscais", que, no seu entendimento,
infringiram claramente as regras da Lei de Responsabilidade Fiscal, da
Constituição e da Lei de Diretrizes Orçamentárias.
Ministério Público de Contas sugeriu ao TCU a
reprovação das contas do governo "O que a nação assistiu, perplexa, foi a
uma verdadeira política de irresponsabilidade fiscal, marcada pela deformação
de regras para favorecer os interesses da Chefe do Poder Executivo em ano
eleitoral e não os interesses da coletividade no equilíbrio das contas
públicas", declara o Ministério Público.
Em sua conclusão, o documento faz referência à
atuação do único ministro-relator da corte que até hoje votou pela rejeição das
contas do governo federal. "A sociedade brasileira espera dos ministros do
TCU a mesma postura de independência que marcou a atuação do ministro Francisco
Thompson Flores, o qual, na qualidade de relator, levou o tribunal a rejeitar,
em 1937, as contas do então presidente da República Getúlio Vargas, em
histórica decisão que dignifica a atuação da corte de contas em toda
República", declara Oliveira.
O Ministério Público de Contas relembra que
Thompson Flores foi vítima de represália após sua decisão, mas que hoje os
magistrados de corte dispõem de "garantias especiais, tais como a
vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade de vencimentos, que
constituem as salvaguardas necessárias para exercerem, com plena independência,
coerência, isenção e compromisso com a sociedade brasileira".
O parecer do procurador foi feito a título
contribuição, para embasar as discussões dos ministros da corte. Em sessão
marcada para a quarta-feira, 17, eles vão dar parecer prévio sobre as contas do
governo em 2014.
A recomendação é enviada ao Congresso, ao qual cabe
julgar, em última instância e sem prazo definido, se houve ou não
irregularidade no balanço que indica a situação financeira, patrimonial,
orçamentária e contábil da União. A oposição ao governo pretende usar uma
eventual rejeição das contas para um pedido de impeachment da presidente
Dilma.
No documento, o procurador destaca que não se deve
imaginar que um parecer pela reprovação das contas possa ter impacto negativo
sobre a credibilidade da economia brasileira. Para ele, o "rigoroso
funcionamento das instituições" é um sinal ao contrário disso.
"O que abala a credibilidade das contas do
País é a prática de manobras fiscais e financeiras em desacordo com a
legislação e com os fundamentos macroeconômicos da nação", avalia.
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