Relator da CPI, deputado Fufuca promete incluir em seu parecer as comissões técnicas de médicos para auxiliar a justiça a identificar pedidos de cirurgias desnecessárias. O relatório deve ser apresentado até 17 de julho.
Em depoimento na Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados que investiga a chamada máfia das
órteses e próteses no País, o médico gaúcho Alberto Kaemmerer disse que uma
investigação aponta para o envolvimento de pacientes nos esquemas das órteses e
próteses.
Segundo Kaemmerer, que denunciou o
esquema ao programa Fantástico, da Rede Globo, no começo deste ano, um grupo
formado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e pelo Tribunal de Contas
do estado, entre outros órgãos, do qual ele faz parte, está juntando provas de
que pacientes fizeram acordos para marcar a cirurgia sem passar pelo
procedimento.
O relator da CPI, deputado André
Fufuca (PEN-MA), pediu mais detalhes para que a comissão possa investigar as
cirurgias fantasmas.
De acordo com Kaemmerer, houve queda
de 43% no número de cirurgias com órteses e próteses no Rio Grande do Sul desde
o começo do ano, quando começaram a ser divulgadas denúncias sobre o esquema.
Comissões de médicos - Os depoimentos do médico Alberto Kaemmerer e do
diretor do hospital Mãe de Deus, Alceu Alves da Silva, nesta tarde, reforçaram
a ideia de que comissões técnicas de médicos podem auxiliar a justiça a
identificar pedidos de cirurgias desnecessárias, avaliou o relator. Segundo
Fufuca, a iniciativa é ponto pacífico de seu relatório que deve ser apresentado
até 17 de julho.
O médico explicou ainda que, diante
das denúncias de corrupção, o hospital criou “comitê de órteses e próteses”
formado por nove médicos. “Todos os casos que não fossem urgentes eram
discutidos nessa reunião, se não fossem aprovados os laudos, não havia
cirurgia”. Ele disse que alguns médicos se rebelaram contra a interferência do
colegiado, ainda assim “observou-se a redução de 35% de cirurgias de órteses”.
Alceu da Silva informou que, além de
criar comissão para validar os pedidos de cirurgias, o hospital de Porto Alegre
(RS) deixou de adquirir as próteses transferindo a competência para a Unimed.
“A iniciativa resolveu uma série de problemas, ainda assim não é a melhor
decisão, pois as operadoras com pequena fatia do mercado não podem arcar com os
custos.” Ele acredita ser fundamental que operadores e hospitais trabalhem em
conjunto e tenham suporte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
e da Agência Nacional de Saúde (ANS).
De acordo com o deputado Fufuca, o
hospital Mãe de Deus avançou no combate à máfia de próteses ao estimular a
“segunda opinião” do conselho de médicos para os pedidos de cirurgias. “Era um
sistema corrupto que foi coibido por meio de administração dura e honesta, a
ponto de reduzir parcialmente o volume de inquéritos por improbidade”, contou.
Judicialização das cirurgias - Para André Fufuca, a comissão de médicos pode
reduzir a judicialização do assunto. Do ponto de vista de Alberto Kaemmerer,
não cabe ao Judiciário, amparado por laudos falsos, autorizar as cirurgias.
“Nós, médicos, temos capacidade para decidir sobre o assunto. O judiciário
braseiro não tem como absorver essa competência, ainda mais sem o preparo
técnico”, disse. No entanto, ele acredita que os médicos não devem trabalhar
“com marcas, que favorecem a cartelização, e sim com especificações de
produtos, para facilitar a concorrência.”
Kaemmerer dirigiu o hospital Mãe de
Deus de Porto Alegre (RS) por 14 anos e denunciou o esquema de cirurgias
desnecessárias em reportagem do programa Fantástico. Segundo o programa, a
máfia das próteses envolve cinco estados, onde médicos obrigam pacientes a
passar por cirurgias e implantes de próteses, muitas vezes sem necessidade. Os
profissionais receberiam dos fabricantes entre 15% e 50% do valor dos produtos
O convite a Alves da Silva partiu do
vice-líder do PDT deputado Pompeo de Mattos (RS). Ele quis conhecer as práticas
adotadas pelo hospital para controlar o uso de próteses em cirurgias. “Como
dito pelo depoente Giovanni Grizotti [repórter responsável pela reportagem do
Fantástico], o hospital tem tido práticas indicadas como referência em relação
ao controle da colocação de próteses e órteses em pacientes atendidos em suas
instituições”, relembrou o parlamentar.
O deputado Dr. João (PR-RJ) alertou
para a extensão das organizações criminosas: “A ponta do iceberg foi no RS, mas
acredito que o corpo está no RJ, em especial, nos hospitais federais”. De
acordo com levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), o orçamento total
dos hospitais federais que era da ordem de R$ 690 milhões, em 2011, hoje
alcança R$ 900 milhões. Para o deputado, o aumento se explica pelo mau uso de
recursos públicos na compra de materiais cirúrgicos, que em muitos casos não
passam por auditoria nos hospitais. (Reportagem
– Emanuelle Brasil - Agência Câmara Notícias)
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