terça-feira, 21 de julho de 2015

A rola, a minhoca e a mandioca





Fácil de ser encontrada a rola está sempre livre e disponível

 

Agapito Catingueiro dos Anjos era o nome verdadeiro do mais famoso mentiroso de Abrolhos, povoado onde nasceram quase todas as pessoas do Município de Guaiúba, que vive esperando ser incluído na Região Metropolitana de Fortaleza – sonhando, também, com a instalação e funcionamento de uma concessão de VLT. Coisa dúbia, porque prometida por políticos em campanha.

Mas, na localidade, se alguém o procurasse pelo nome verdadeiro, ninguém saberia indicar. Mas, quem procurasse por “Rôla”,  era mais fácil ter na mão – as informações, claro!

A mulher de Agapito, digo, Rôla fora à pia batismal e de lá saiu com o nome pomposo de “Emerenciana”. Mas ninguém a chamava de Memé, Cici ou Ciana. Vivendo o dia todo com “Rôla”, claro, só podia ser “Rolinha”.

E o dia-a-dia no verdadeiro pombal de Rôla mais parecia um quintal de pobre, cagado de bosta de rola da entrada da casa até os parapeitos da cacimba, no quintal. Claro, tinha sempre mais rola que bosta.

O casal pusera apenas dois ovos, digo, tivera apenas dois filhos. Gustavo, mais conhecido como Gugu de Rôla e Naej, de atitudes muito estranhas para a tenra idade. Gostava de ficar horas e horas com um espelhinho na mão, espremendo espinhas, “acertando” as sobrancelhas com a pinça. Cedo, deixou crescer as unhas, que logo esmaltou com um esmalte róseo e transparente. Gostava de ficar também com a serrinha de unhas, limando, limando.

Certo dia, com o bode no leite de coco já pronto para ser comido, Rolinha se dirigiu ao filho Naej da seguinte:

- Naej, se alevante daí e vá procurar Rôla!

O filho foi, encontrou Rôla. Tanto encontrou que demorou além da conta a voltar para casa.

2

Muito distantes da Vila Invernada, os moradores da Vila Outono passaram a usufruir de um exótico (para eles, desacostumados com a novidade) meio de lazer nos feriados e fins de semana. Um “Pesque e não Pague”!

Era para lá, que muitos levavam seus isopores com duas cervejas Kaiser, meio quilo de asa de frango, uma bacia com carvão e um fogareiro – a festa estava garantida a baixo custo. E, quando as duas cervejas acabavam, saíam catando trocados de uns e de outros para fazer a vaquinha e comprar o famoso litrão de cervejas dominantes no lugar.

Enquanto uns levavam rede para armar na árvore que produzia sombra, outros preferiam levar bronzeador para aproveitar o sol causticante sem prejudicar muito a pele. E se danavam a pescar. Uns, pescavam fácil e, outros, até adormeciam na beirada do lago com caniço na mão, por conta do “grode” da noite anterior. Ressaca da braba!

Mas, entre tantos, quem mais chamava a atenção era Erinaldo, cabra cheio de trejeitos, funcionário aposentado da EBCT (Empresa  Brasileira de Cornos e Transexuais), que conduzia uma cesta de cipó amazônico enfeitada com flores plásticas compradas na feira de Caruaru na última visita turística.

A linha do anzol de Erinaldo mais parecia um colar baiano, cheio de nós, pela frente e pelas costas. Cada nó representava uma conquista, um bofe da colorida vida dele. Eis que, dois detalhes chamavam mais ainda a atenção dos olhares mil dos demais pescadores: os óculos diferentemente coloridos de Erinaldo e a isca transportada para a pesca, muito mais de bofes que de peixes.

Claro que, colocar aquele minhocão n´água, só se fosse para pescar o boto cor-de-rosa da Amazônia!

No fundo, o que Erinaldo queria mesmo era mostrar o seu novo objeto de prazer. Não de pesca!

3

Aquele feriado de 19 de março prometia. Dia de glorificar mais uma vez o milagroso São José, santo que carregava um surrão cheio de água para transformar em chuva e garantir a boa safra agrícola dos cearenses. A festa arrumada pelos representantes do BNB (Banco do Nordeste do Brasil) para apresentação de insumos e implementos agrícolas, mais parecia uma festa de fim de quermesses na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Timbaúba, município efervescentemente agrícola e mandioqueiro do Ceará. É ali que se planta mandioca. Timbaúba é o mais novo Eldorado brasileiro. Terra que cresceu a partir da descoberta da mandioca como principal riqueza brasileira. E os idiotas dos ladrões brasileiros ficaram se preocupando em roubar a Petrobras e transportar pedras preciosas nos Santos do Pau-Ôco, ou surrupiar nióbio por saídas de vias desconhecidas.

Bem que podiam ter ficado mais ricos ainda, roubando mandioca e transportando para a Europa para transformar em bebida (o experimento europeu existe no Maranhão há mais de 400 anos, e recebe o nome de Tiquira) ou metanol para aviões e naves que viajam regularmente para a lua, na recém- inaugurada linha de VLT, de propriedade da empresa Maluf & Sarney Ltd.

A mandioca é o produto Top-Ten do Brasil depois da desvalorização da Petrobras e do envio do pré-sal para a lista enorme dos produtos e riquezas chinfrins.

E a festa solene, evidentemente, além dos financiadores do implementos e insumos, contaria também, com a presença dos “Reis da Mandioca” de Goiás, Brasília, São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro, sem esquecer Minas Gerais.

Fora da lista de “autoridades e convidados especiais” que receberiam as benesses financeiras da nova descoberta do governo petista, estava Dona Mundiquinha, usando um vestido com dois bolsos laterais – um para o cachimbo de barro e canudo de mamona e outro para um naco de fumo de rolo e um canivete feito com uma banda de gilete Blue Blade.

Inocente e sem tanta visão de agronegócio, Dona Mundiquinha armou sua tenda na sombra de uma mangueira, de cujo alto, vez por outra se escutava o canto das pipiras azuis.  Com vários sacos velhos de estopa, cobria o produto que imaginava ser capaz de chamar a atenção e garantir a sua única reivindicação: o uso dos chocalhos nos pescoços dos jumentos que transportavam sua pequena – mas importante – produção de farinha seca para o comércio da sede do município. A colocação dos chocalhos nos pescoços dos jumentos fora proibida pelo Ibama. Durma-se com um barulho desse tamanho feito pelos chocalhos.

E, acreditem, logo na semana seguinte que umanta sem chocalho descobrira que a mandioca é a nossa maior riqueza.

Na missa de Ação de Graças para o bom destino da festa, quase que o Padre beatificou a mandioca e quem a descobriu como nossa maior riqueza. Enquanto isso, debaixo da mangueira passarinheira, Dona Mundiquinha, sem nenhuma maldade, via o “seu produto” ser fotografado pelos celulares, tablets e câmeras dos televisivos.  Alguns até detalhavam a curiosidade mostrada na mandioca: uma pajaraca maior que o produto que, a partir de agora é obrigatoriamente, parte da nossa bandeira.

 

 

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