Fácil
de ser encontrada a rola está sempre livre e disponível
Agapito Catingueiro dos Anjos era o nome verdadeiro do
mais famoso mentiroso de Abrolhos, povoado onde nasceram quase todas as pessoas
do Município de Guaiúba, que vive esperando ser incluído na Região
Metropolitana de Fortaleza – sonhando, também, com a instalação e funcionamento
de uma concessão de VLT. Coisa dúbia, porque prometida por políticos em
campanha.
Mas, na localidade, se alguém o procurasse pelo nome
verdadeiro, ninguém saberia indicar. Mas, quem procurasse por “Rôla”, era mais fácil ter na mão – as informações,
claro!
A mulher de Agapito, digo, Rôla fora à pia batismal e
de lá saiu com o nome pomposo de “Emerenciana”. Mas ninguém a chamava de Memé,
Cici ou Ciana. Vivendo o dia todo com “Rôla”, claro, só podia ser “Rolinha”.
E o dia-a-dia no verdadeiro pombal de Rôla mais parecia
um quintal de pobre, cagado de bosta de rola da entrada da casa até os
parapeitos da cacimba, no quintal. Claro, tinha sempre mais rola que bosta.
O casal pusera apenas dois ovos, digo, tivera apenas
dois filhos. Gustavo, mais conhecido como Gugu de Rôla e Naej, de atitudes
muito estranhas para a tenra idade. Gostava de ficar horas e horas com um
espelhinho na mão, espremendo espinhas, “acertando” as sobrancelhas com a pinça.
Cedo, deixou crescer as unhas, que logo esmaltou com um esmalte róseo e
transparente. Gostava de ficar também com a serrinha de unhas, limando,
limando.
Certo dia, com o bode no leite de coco já pronto para
ser comido, Rolinha se dirigiu ao filho Naej da seguinte:
- Naej, se alevante daí e vá procurar Rôla!
O filho foi, encontrou Rôla. Tanto encontrou que
demorou além da conta a voltar para casa.
2
Muito distantes da Vila Invernada, os moradores da Vila
Outono passaram a usufruir de um exótico (para eles, desacostumados com a
novidade) meio de lazer nos feriados e fins de semana. Um “Pesque e não Pague”!
Era para lá, que muitos levavam seus isopores com duas
cervejas Kaiser, meio quilo de asa de frango, uma bacia com carvão e um fogareiro
– a festa estava garantida a baixo custo. E, quando as duas cervejas acabavam,
saíam catando trocados de uns e de outros para fazer a vaquinha e comprar o
famoso litrão de cervejas dominantes no lugar.
Enquanto uns levavam rede para armar na árvore que
produzia sombra, outros preferiam levar bronzeador para aproveitar o sol
causticante sem prejudicar muito a pele. E se danavam a pescar. Uns, pescavam
fácil e, outros, até adormeciam na beirada do lago com caniço na mão, por conta
do “grode” da noite anterior. Ressaca da braba!
Mas, entre tantos, quem mais chamava a atenção era
Erinaldo, cabra cheio de trejeitos, funcionário aposentado da EBCT
(Empresa Brasileira de Cornos e
Transexuais), que conduzia uma cesta de cipó amazônico enfeitada com flores plásticas
compradas na feira de Caruaru na última visita turística.
A linha do anzol de Erinaldo mais parecia um colar
baiano, cheio de nós, pela frente e pelas costas. Cada nó representava uma
conquista, um bofe da colorida vida dele. Eis que, dois detalhes chamavam mais
ainda a atenção dos olhares mil dos demais pescadores: os óculos diferentemente
coloridos de Erinaldo e a isca transportada para a pesca, muito mais de bofes
que de peixes.
Claro que, colocar aquele minhocão n´água, só se fosse
para pescar o boto cor-de-rosa da Amazônia!
No fundo, o que Erinaldo queria mesmo era mostrar o seu
novo objeto de prazer. Não de pesca!
3
Aquele feriado de 19 de março prometia. Dia de
glorificar mais uma vez o milagroso São José, santo que carregava um surrão
cheio de água para transformar em chuva e garantir a boa safra agrícola dos
cearenses. A festa arrumada pelos representantes do BNB (Banco do Nordeste do
Brasil) para apresentação de insumos e implementos agrícolas, mais parecia uma
festa de fim de quermesses na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de
Timbaúba, município efervescentemente agrícola e mandioqueiro do Ceará. É ali
que se planta mandioca. Timbaúba é o mais novo Eldorado brasileiro. Terra que
cresceu a partir da descoberta da mandioca como principal riqueza brasileira. E
os idiotas dos ladrões brasileiros ficaram se preocupando em roubar a Petrobras
e transportar pedras preciosas nos Santos do Pau-Ôco, ou surrupiar nióbio por
saídas de vias desconhecidas.
Bem que podiam ter ficado mais ricos ainda, roubando
mandioca e transportando para a Europa para transformar em bebida (o
experimento europeu existe no Maranhão há mais de 400 anos, e recebe o nome de
Tiquira) ou metanol para aviões e naves que viajam regularmente para a lua, na
recém- inaugurada linha de VLT, de propriedade da empresa Maluf & Sarney
Ltd.
A mandioca é o produto Top-Ten do Brasil depois da
desvalorização da Petrobras e do envio do pré-sal para a lista enorme dos
produtos e riquezas chinfrins.
E a festa solene, evidentemente, além dos financiadores
do implementos e insumos, contaria também, com a presença dos “Reis da
Mandioca” de Goiás, Brasília, São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro, sem esquecer
Minas Gerais.
Fora da lista de “autoridades e convidados especiais”
que receberiam as benesses financeiras da nova descoberta do governo petista,
estava Dona Mundiquinha, usando um vestido com dois bolsos laterais – um para o
cachimbo de barro e canudo de mamona e outro para um naco de fumo de rolo e um
canivete feito com uma banda de gilete Blue Blade.
Inocente e sem tanta visão de agronegócio, Dona
Mundiquinha armou sua tenda na sombra de uma mangueira, de cujo alto, vez por
outra se escutava o canto das pipiras azuis.
Com vários sacos velhos de estopa, cobria o produto que imaginava ser
capaz de chamar a atenção e garantir a sua única reivindicação: o uso dos
chocalhos nos pescoços dos jumentos que transportavam sua pequena – mas
importante – produção de farinha seca para o comércio da sede do município. A
colocação dos chocalhos nos pescoços dos jumentos fora proibida pelo Ibama.
Durma-se com um barulho desse tamanho feito pelos chocalhos.
E, acreditem, logo na semana seguinte que umanta sem
chocalho descobrira que a mandioca é a nossa maior riqueza.
Na missa de Ação de Graças para o bom destino da festa,
quase que o Padre beatificou a mandioca e quem a descobriu como nossa maior
riqueza. Enquanto isso, debaixo da mangueira passarinheira, Dona Mundiquinha,
sem nenhuma maldade, via o “seu produto” ser fotografado pelos celulares,
tablets e câmeras dos televisivos.
Alguns até detalhavam a curiosidade mostrada na mandioca: uma pajaraca
maior que o produto que, a partir de agora é obrigatoriamente, parte da nossa
bandeira.
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