O juiz da Lava Jato acredita o sistema de corrupção também ocorreu em
hidrelétricas e usinas.
O juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações
penais da Operação Lava Jato, acredita que o mesmo modelo de corrupção e
propinas instalado na Petrobras foi adotado por algumas das maiores
empreiteiras do País em outras áreas de infraestrutura do governo, como
hidrelétricas e usinas. Por meio de informações ao Tribunal Regional Federal da
4.ª Região (TRF4), que examina pedido de habeas corpus para o executivo Elton
Negrão de Azevedo Júnior, da Andrade Gutierrez - preso pela Erga Omnes, a 14.ª
fase da Lava Jato, deflagrada em 19 de junho -, Sérgio Moro aponta para suposto
envolvimento das construtoras em empreendimentos bilionários, agora sob
suspeita a partir da delação premiada de um dos altos dirigentes da Camargo
Corrêa, desligado depois de ser preso.
"Além dos crimes, no âmbito da Petrobras,
terem perdurado por anos, foram depois reproduzidos na Setebrasil, empresa
criada para fabricação de sondas para exploração do petróleo na camada do
pré-sal", assinalou o magistrado da Lava Jato. "Como se não fosse o bastante,
o mesmo modus operandi, envolvendo número mais restrito de empreiteiras, mas
incluindo Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Odebrecht, foi utilizado, para
pagamento de propina, em contratos de construção da Hidrelétrica de Belo Monte,
como revelou recentemente ao Ministério Público Federal Dalton Avancini,
ex-presidente da Camargo Correa."
Avancini foi preso em novembro de 2014 pela Juízo
Final, etapa da Lava Jato que pegou o cartel de empreiteiras na Petrobras - são
citadas quase 20 empreiteira, entre elas a Andrade Gutierrez, a Camargo Corrêa
e a Odebrecht, cujo presidente foi preso dia 19 de junho pela Erga Omnès.
O ex-presidente da empreiteira fez delação premiada
e ganhou o benefício da prisão domiciliar, com tornozeleira. Seus relatos
abriram o leque da Lava Jato, tornando público o suposto conluio de grandes
empreiteiras em áreas estratégicas do governo.
Em seu despacho ao TRF4, em que sustenta a
necessidade da manutenção da prisão preventiva do executivo da Andrade
Gutierrez, Sérgio Moro usa o mesmo adjetivo que o chefe do Ministério Público
Federal, Rodrigo Janot, empregou para rotular o esquema de malfeitos na
Petrobras. "Os crimes de cartel, corrupção e lavagem havidos na Petrobras
têm dimensão descomunal, como recentemente os qualificou o procurador geral da
República."
Moro emendou: "Mais perturbadora a afirmação
do colaborador (Avancini) de que, em agosto de 2014, ou seja, quando as
investigações da Operação Lava Jato já haviam se tornado públicas e notórias,
as empreiteiras, entre elas a Andrade Gutierrez e a Odebrecht, reuniram-se para
discutir, entre outros assuntos, o pagamento de propinas a dirigentes da
Eletrobrás."
O juiz federal pondera que "essas declarações
quanto à Hidrelétrica de Belo Monte e Angra3 ainda precisam ser melhor apuradas".
Mas ele argumenta: "Elas (as revelações de Dalton Avancini) têm
plausibilidade considerando os fatos já provados nos contratos da Petrobras.
Além disso, são aqui invocadas, não como pressupostos da preventiva (prova de
autoria e materialidade de crimes), mas como indicativos do risco de reiteração
das práticas delitivas sem a preventiva, já que o esquema criminoso teria se
reproduzido em outras estatais e persistido mesmo após o início das
investigações."
O juiz da Lava Jato afirma que "há prova de
que o mesmo modus operandi, de cartel, ajuste de licitações e propinas, além de
ter gerado um grande prejuízo à Petrobras (estimado em mais de seis bilhões de
reais no balanço da estatal), foi reproduzido em outros âmbitos da
Administração Pública, inclusive com pagamentos de propinas no segundo semestre
de 2014, quando já notória a investigação sobre as empreiteiras".
Ele cita "indicativos de cooptação e corrupção
de diversos agentes públicos, diretores de empresas estatais, e que podem
incluir, conforma apuração em trâmite perante o Supremo Tribunal Federal,
outros agentes públicos de nível até mais alto, como parlamentares
federais".
Ao fazer menção ao termo de depoimento número 9 da
delação premiada de Dalton Avancini, o juiz salientou: "Como se não fosse
o bastante, o mesmo modus operandi, envolvendo número mais restrito de
empreiteiras, mas incluindo Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Odebrecht e UTC
Engenharia, foi utilizado, para ajustar duas licitações em obras de Angra 3
(Angra03 e UNA03) e ainda para o pagamento de propinas a empregados da
Eletronuclear, que teriam colocado nas licitaçoes cláusulas restritivas à
concorrência para favorecer o cartel. O fato foi também revelado ao Ministério
Público Federal por Dalton Avancini."
Sérgio Moro rebate o argumento da defesa de Elton
Negrão. "Ao contrário do alegado pelo impetrante, a imposição da
preventiva é, no presente caso, aplicação pura e ortodoxa da lei, pois a medida
mais grave é, infelizmente, necessária para interromper o ciclo delitivo e interromper
a sangria aos cofres públicos, sem olvidar ainda a corrupção de agentes
públicos, entre os quais, conforme apuração em trâmite perante o Supremo
Tribunal Federal, podem até estar parlamentares federais."
"Quer sejam crimes violentos ou crimes graves
de corrupção, ajuste de licitações e lavagem, como é o caso, a prisão cautelar
justifica-se para interrompê-los, já que reiterados e sistematizados, e para
proteger a sociedade e outros indivíduos de sua renovação", alerta Sérgio
Moro.
Defesa - As empreiteiras
Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa foram contatas pela reportagem,
mas não mandaram seus posicionamentos até o fechamento desta matéria.
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