Rede
é o símbolo do repouso nordestino
Sempre haverá quem afirme que, “a saudade nunca matou
ninguém”, só ajudou a viver. Pode ser verdade. Não tão imediatamente, o dia
seguinte pode ser também prejudicial. E, pelo que se sabe, nunca se ouviu dizer
que alguém sentisse saudade de algo que não foi bom.
Na biblioteca da saudade, as boas brincadeiras das
férias no interior têm espaço destacado. Banhos nas cachoeiras, passeios
ecológicos, jogos e comida farta emolduram as boas lembranças.
Há pessoas, como nós, de lembranças mil, ainda que em
espaços limitados. O cafuné da Vovó; as peraltices com os animais domésticos;
as brincadeiras noturnas com os parentes – estarão sempre nas nossas boas
lembranças.
E, naquelas paragens, tudo ficava diferente quando,
depois de muita dinâmica durante o dia, a escuridão do lugar onde não existia
energia elétrica, anunciava e impunha a chegada com a noite.
O banho funcionava como anestésico do corpo, trazendo
no pacote o sono e a necessidade de dormir. Mas, criança saudável sempre terá
demandas na dinâmica das brincadeiras. E, a “ordem para deitar e dormir” vinha
no mesmo pacote da boa e cheirosa rede armada em algum lugar da casa.
Avós, tias e mães sempre tinham estórias para contar.
Estórias de palácios, príncipes, reis e rainhas – o objetivo era fazer a
criança dormir. E muitas dormiam. Mas, a regra tinha suas exceções. Tem criança
que não dorme.
- “Era uma vez, um menino que nasceu muito pobre no
reino dos Caetés. Certo dia, vagando pelas veredas e sombras da casa onde vivia
com os pais, sonhou que seria um homem muito rico! – Dorme menino, dorme logo!
Foi em algum lugar do interior que surgiu o ditado
popular “conversa (ou estória) para boi dormir”. Boi em alguns casos, e,
crianças em outros. E, convenhamos,
aquela estória de criança pobre nascida no reino dos Caetés que queria ser
rica, era muito mais uma estória que uma conversa para fazer dormir. Ninguém –
ou nenhuma criança – dormiria mesmo, ouvindo aquela estória, ainda que tivesse
tido um dia atribulado e muito cansativo.
E a tia, aflita para não perder mais um capítulo da
novela, dava novos tons cinzentos à estória:
- “A criança foi tangida pela seca para o sudeste,
acompanhando os pais. Ali, adolescente, conseguiu um emprego no então famoso
ABC. Tempos depois, mostrando muita esperteza, acidentou-se e, mais esperto
ainda, conseguiu aposentadoria por invalidez!”
- Como “invalidez” Tia? Ele não era bastante jovem?
Indaga a criança, que, em vez de dormir, ficou foi mais desperta.
- É. Ele era jovem, mas também era muito esperto. Dorme
menino, dorme!
- Tia, invalidez é o que? Quis saber a criança, cuja
estória não a fazia dormir.
- Menino, vai dormir! Dorme logo! Ralhou a Tia, aflita
com a pergunta.
Em vez de dormir, a criança ficava cada vez mais
desperta e interessada pela estória de fazer “boi (e criança) dormir”. Sentou
na beirada de rede, e perguntou?
- Tia, como ele queria ser rico, se era aposentado por
invalidez?
Atarentada pela indagação do menino, a Tia apenas
respondeu, parando também de embalar a rede:
- Eu nem sei!
Além de ser uma das primeiras pessoas a usar o “não
sabia” para não responder perguntas que todos sabem a resposta, a Tia mergulhou
num silêncio profundo. Quando olhou para dentro da rede, percebeu que,
finalmente, a criança adormecera.
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