Por Ricardo Flaitt (Alemão)
O futebol brasileiro orbita em uma
circularidade decadente. Em colapso, o sistema formado clubes, Seleção,
empresários, patrocínios, cotas, instituições, jogadores e público, tenta
encontrar alternativas para não ser atropelado pela roda da história e do Capital,
que transforma os homens e seus talentos em mais valia para as benesses de uma
minoria.
Sob esse contexto de buscar pela
reinvenção de nós mesmos, durante a votação da MP 671 do futebol, no Congresso
Nacional, em Brasília, encontrei o craque Afonsinho (Afonso Celso Garcia Reis),
o meia-direita que encantou os torcedores do Santos e do Botafogo-RJ, entre
outros.
O mundo do futebol não o impediu de
se formar em medicina. Inteligente, polêmico, mas, sobretudo, craque de bola,
Afonsinho, revolucionou o mercado da bola em 1971, quando conquistou o direito
ao passe livre, em uma ação baseada no Caso Bosman, jogador que moveu ação
contra a Federação Belga, tornando-se um atleta livre para negociar com outros
clubes.
Nessa entrevista, concedida pela
grandeza dos foras de série, dono de uma simplicidade que assusta nesses tempos
de molecada estrelinha e de laboratório, Afonsinho fala sobre a atual situação
do futebol brasileiro, o conceito de craque, os reflexos da administração do
esporte, entre outros.
Craque com a bola e as palavras,
Afonsinho já foi cantado em verso e prosa, como na música “Meio Campo”, de
Gilberto Gil. Música de 1973, que parece ter sido escrita para os dias atuais
do futebol brasileiro…
MEIO CAMPO
Prezado amigo Afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé nem nada
Se muito for, eu sou um Tostão
Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão
Prezado amigo Afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé nem nada
Se muito for, eu sou um Tostão
Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão
Nesses tempos nebulosos, é sempre bom
ouvir Afonsinho. Confira:
Você foi o primeiro jogador a
conquistar o passe livre no Brasil, em 1971, como vê a situação?
Afonsinho – Sem dúvida foi um grande avanço para os atletas. Muita gente pensa que o fim do passe promoveu um desequilíbrio, no entanto, os clubes ainda mantém um sistema de gerenciamento feudal, o que acarreta em uma série de outros problemas. O problema do futebol não está no passe. Observe que não muda nunca o núcleo de poder e esse sistema atual do futebol interessa a quem? É evidente que uma parte envolvida no futebol está ganhando muito, mas em prejuízo de outros.
Afonsinho – Sem dúvida foi um grande avanço para os atletas. Muita gente pensa que o fim do passe promoveu um desequilíbrio, no entanto, os clubes ainda mantém um sistema de gerenciamento feudal, o que acarreta em uma série de outros problemas. O problema do futebol não está no passe. Observe que não muda nunca o núcleo de poder e esse sistema atual do futebol interessa a quem? É evidente que uma parte envolvida no futebol está ganhando muito, mas em prejuízo de outros.
A Seleção Brasileira é o reflexo da
falência da estrutura do futebol?
Afonsinho – É, é isso aí. Não há como esconder que chegamos ao fundo do poço. Tivemos a Copa do Mundo em nossa casa, que acabou da forma que acabou; os campeonatos não têm público; os investimentos estão desaparecendo e tornou-se recorrente os aficionados pelo futebol dizerem que não conseguem mais ver mais que 15 minutos de uma partida dos nossos torneios. Vivemos uma situação de caos.
Afonsinho – É, é isso aí. Não há como esconder que chegamos ao fundo do poço. Tivemos a Copa do Mundo em nossa casa, que acabou da forma que acabou; os campeonatos não têm público; os investimentos estão desaparecendo e tornou-se recorrente os aficionados pelo futebol dizerem que não conseguem mais ver mais que 15 minutos de uma partida dos nossos torneios. Vivemos uma situação de caos.
Qual a diferença do jogar bola da sua
época para os tempos atuais?
Afonsinho – Ah… mudou muito, principalmente quanto ao espetáculo. Antes você preparava um time para um jogo, dependendo quase que exclusivamente da arrecadação do público, depois as fontes de financiamento foram aumentando, principalmente com a televisão e as marcas. Assim, o esporte futebol se tornou um dos maiores negócios do mundo e é por isso que está acontecendo essa crise da FIFA. A razão é essa. Os americanos não têm como ficar fora de um negócio desse tamanho e não há como funcionar de uma maneira feudal.
Afonsinho – Ah… mudou muito, principalmente quanto ao espetáculo. Antes você preparava um time para um jogo, dependendo quase que exclusivamente da arrecadação do público, depois as fontes de financiamento foram aumentando, principalmente com a televisão e as marcas. Assim, o esporte futebol se tornou um dos maiores negócios do mundo e é por isso que está acontecendo essa crise da FIFA. A razão é essa. Os americanos não têm como ficar fora de um negócio desse tamanho e não há como funcionar de uma maneira feudal.
Antigamente a Seleção Brasileira
possuía 6, 7 até 8 craques e o restante era formado por bons jogadores. Hoje
temos um craque (Neymar) e os demais jogadores podem até ser considerados
comuns. Como vê essa situação?
Afonsinho – É a consequência da estrutura do futebol, que há muito tempo está se deteriorando. E não foi só na Copa do Mundo que ficou evidenciado o nosso descompasso. O Santos, na final do Mundial Interclubes, já perdeu feio para o Barcelona. Quanto ao público, só para citar um, não dá para conceber uma partida do Flamengo, maior torcida do Brasil, com público de 600 pessoas. Vivemos um desequilíbrio total.
Afonsinho – É a consequência da estrutura do futebol, que há muito tempo está se deteriorando. E não foi só na Copa do Mundo que ficou evidenciado o nosso descompasso. O Santos, na final do Mundial Interclubes, já perdeu feio para o Barcelona. Quanto ao público, só para citar um, não dá para conceber uma partida do Flamengo, maior torcida do Brasil, com público de 600 pessoas. Vivemos um desequilíbrio total.
O conceito de craque se perdeu?
Afonsinho – Sim. Vemos que na Seleção, o único extraordinário é o Neymar, que serve de biombo para esconder problemas maiores. É uma violência colocar um peso enorme sobre um garoto de 23 anos. É muita carga sobre ele. Mas, a situação é tão delicada que, se tirarmos o Neymar, o que nos sobra?
Afonsinho – Sim. Vemos que na Seleção, o único extraordinário é o Neymar, que serve de biombo para esconder problemas maiores. É uma violência colocar um peso enorme sobre um garoto de 23 anos. É muita carga sobre ele. Mas, a situação é tão delicada que, se tirarmos o Neymar, o que nos sobra?
Muito se discute sobre a evolução
tática, porém, antigamente, o Brasil nunca dependeu tanto da tática para
superar as outras Seleções do exterior. Guardiola, que montou o supertime do
Barcelona, disse que absorveu muito do estilo antigo do Brasil, então, até que
ponto é válido esse desejo de assimilar as táticas europeias?
Afonsinho – É isso que aconteceu. Nós perdemos a nossa identidade. Viramos um macaco de imitação, tomamos um caminho errado, o qual precisa ser retomado. Historicamente nós somos a melhor escola que o mundo já viu. Contraditoriamente, hoje vivemos o pior momento da história. Temos de estar atento a isso para retomarmos a nossa identidade.
Afonsinho – É isso que aconteceu. Nós perdemos a nossa identidade. Viramos um macaco de imitação, tomamos um caminho errado, o qual precisa ser retomado. Historicamente nós somos a melhor escola que o mundo já viu. Contraditoriamente, hoje vivemos o pior momento da história. Temos de estar atento a isso para retomarmos a nossa identidade.
A Alemanha estabeleceu um esquema em
que todos atacam e defendem em bloco. Você pensa que esse é um dos caminhos
para a “modernidade” ou temos que buscar novamente a nossa tradição, com meias
habilidosos, ainda que sob uma nova dinâmica?
Afonsinho – Evidente que as coisas mudam com o tempo, mas nós tomamos um caminho equivocado. Fomos imitar os outros e demos com os burros n’água. Diante disso, fica a pergunta: – Ninguém é responsável por isso?
Afonsinho – Evidente que as coisas mudam com o tempo, mas nós tomamos um caminho equivocado. Fomos imitar os outros e demos com os burros n’água. Diante disso, fica a pergunta: – Ninguém é responsável por isso?
Como você avalia a reunião com os
técnicos, que aconteceu na CBF?
Afonsinho – Inseridos em um sistema feudal, acabam sendo também a prova viva do erro, do equívoco.
Afonsinho – Inseridos em um sistema feudal, acabam sendo também a prova viva do erro, do equívoco.
Se pudesse resumir o futebol
brasileiro em uma frase?
Afonsinho – Futebol brasileiro precisa encontrar o seu caminho, olhar-se no espelho e não ver outra imagem que não seja a do nosso povo, porque o futebol é uma forma de expressão.
Afonsinho – Futebol brasileiro precisa encontrar o seu caminho, olhar-se no espelho e não ver outra imagem que não seja a do nosso povo, porque o futebol é uma forma de expressão.
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