sexta-feira, 31 de julho de 2015

Coçando pereba na perna e papoca d´água na sola do pé

 

Uma distância que podia chegar no máximo a 8 léguas, separava a tapera dos Buretama, emoldurada por um roçado muito bem cuidado – cheio de plantações de mandioca, milho, feijão e, num local mais úmido, duas grandes covas plantadas de bata doce e quiabo, além de um canteiro com coentro, pimentão, cebolinha e tomate – do Açude Novo.

Era no Açude Novo que nos encontrávamos para pescar piaus, tilápias, curimatás, piaba gorda, camarão sossego, cangatis, muçuns, jacundás e traíras. Era ali, também, que tomávamos nosso banho diário, banhávamos os animais e, onde as mulheres lavavam as roupas da família.

Mal comparando, o Açude Novo existia para nós, como existe hoje o play-ground nos shoppings centers. Era ali que, durante o banho nos divertíamos. Nadava quem não sabia nadar e acabava aprendendo.

Sebastião Luciano, nadador exímio sem nunca ter frequentado uma Escola de Natação, era o eterno campeão do jogo “Galinha d´Água” (Sebastião trabalhou alguns anos como Salva-Vidas na piscina do Clube de Regatas do Flamengo, no Rio de Janeiro. Nunca precisou entrar na piscina para “salvar” alguém. Certa vez teve que fazer isso para “ajudar” uma criança que estava se afogando e, quando saiu da água, estava literalmente nu, haja vista que seu calção não era de Salva Vidas, mas de Jogador de Futebol – Foi demitido no dia seguinte). Esse jogo consistia em fazer saltar o maior número de vezes sobre o espelho d´água, uma pedra escolhida e aprovada pelos jogadores.

Quem fosse e voltasse mais rápido da margem do açude até uma árvore que servia de pouso e poleiro das andorinhas – ficava cerca de 80 metros, conquistava o direito de voltar para casa montando um dos animais. Quem não vencesse nenhum desafio, tinha que voltar para casa andando.

E, o pior castigo para quem voltava andando, era aturar as ferroadas das mutucas e, se o caminho estivesse escuro, correr o risco de ser picado por cobra. A necessidade fazia com que ninguém perdesse todas as disputas.

A volta para casa acontecia sempre ao cair da noite, e, quando chegávamos o “de comer” já estava botado na mesa – o jantar era peixe cozido na “água grande” com um bom pirão. Depois era beber o caldo, sentar na latada frontal da casa e ficar matando muriçoca e coçando as perebas das pernas ou as papocas d´água na sola dos pés.

Muitas vezes, a consciência do trabalhar na roça no dia seguinte, nos obrigava a dormir sem qualquer preocupação com a crise grega, a vida animalesca do Iraque ou as decapitações dos fanáticos religiosos. O que nos interessava mesmo era limpar cinco ou seis linhas de roça, colher o milho que já tinha sido virado ou apanhar o feijão que já havia secado.

Esse continua sendo o segredo da longevidade no interior de muitos estados.

 

 

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