O sertanejo é rico em sabedoria. Ainda que pouco tenha
estudado ou não tenha frequentado a escola. O cabo da enxada, para alguns, é
uma universidade – é trabalhando com esse instrumento da agricultura, que o
sertanejo tem chances de “pensar”. E, quem “pensa” tem oportunidade de escolher
e acertar.
Da mesma forma que na roça o sertanejo aprende que “uma
galinha só bota um ovo por dia”, é ali que ele aprende, também, que pessoas
mentem ou falam a verdade com os olhos. Não é de bom alvitre confiar em quem
conversa com você sem fitar os olhos.
Quem não olha nos olhos, com certeza está escondendo
alguma coisa. E, isso, nenhuma universidade ensina. Só a vida.
Foi na roça, convivendo, que aprendi que a seca mata.
Foi ali também que aprendi que a seca não produz apenas o êxodo, como querem
alguns. A seca produz a fome, e a fome mata.
Não há como “acabar” com a seca, um fenômeno da Natureza.
O homem jamais conseguirá isso. O homem apenas terá o direito de “minimizar os
efeitos” da seca nos seres humanos e nos animais e aves.
Este cronista tinha 14 anos de idade quando aconteceu a
maior e pior seca no nordeste e, especialmente, no Ceará: a seca de 1957.
“Seca no Brasil refere-se aos fenômenos de estiagem que ocorrem esporádica ou sazonalmente, em suas várias regiões.
Na região
Nordeste existe a região do semiárido que é delimitada pela região chamada de Polígono
das Secas, criada em 1951 pelo governo federal para
combater as secas e diminuir seus efeitos sobre a população sertaneja,
compreendendo partes de quase todos estados da região, sendo exceção o estado
do Maranhão (por possuir regularidade de chuvas, em relação aos outros estados da
mesma região, podendo ainda ser atingido pela seca), além do norte de Minas
Gerais.
Causas - Desde 1605, a região já
enfrentou dezenas de períodos de seca, algumas de gravidade tão elevada que
geraram aceleração do êxodo rural para outras regiões. O fenômeno se dá por
causas naturais, uma região que apresenta alta variabilidade climática,
ocorrendo quando a chamada zona de
convergência intertropical (ZCIT) não consegue se
deslocar até a região Nordeste no período verão-outono no Hemisfério Sul, sobretudo nos períodos de El Niño. A ZCIT, responsável pelo período chuvoso no Nordeste Setentrional,
apresenta um movimento meridional sazonal, com uma posição média anual junto à
latitude 5 graus Norte, atingindo 5 graus Sul no mês de abril.
A seca não é somente um fenômeno ambiental com
consequências negativas, como a realização de uma alea (evento) natural sobre uma população vulnerável, mas um
fenômeno de dimensões econômicas, sociais e políticas secularmente presente na
vida da população do Nordeste brasileiro. Trata-se de um problema de
distribuição dos recursos naturais, sobretudo da água. A seca permite uma
medida do quanto a água e a terra encontram-se pouco disponíveis para a porção
mais pobre da população rural nordestina. A região não é desértica, como se
poderia pensar numa primeira abordagem, mas apresenta um clima
semiárido. A precipitação anual em Paris (França) é
similar em sua quantidade à precipitação sobre partes do Nordeste. Mas é claro
que a distribuição da precipitação e a quantidade de evapotranspiração são
diferentes entre essas regiões. No Nordeste a distribuição da precipitação
apresenta-se altamente variável de um ano para outro (associada ao fenômeno de
variabilidade climática). Por outro lado a evapotranspiração potencial no Nordeste
também é relativamente maior devido a maior incidência de radiação solar.
Assim, a seca nordestina do Brasil é um problema bastante complexo. Ao longo da
história brasileira a manutenção das regras sociais, do status quo da elite dominante (oligarquia nordestina) jogou contra uma
democratização e distribuição dos recursos ambientais, assim estabelecendo os
limites da ação das classes sociais, subordinando uma à outra diretamente.
Problemas identificados - O governo do Brasil, muitas vezes tentou combater
os efeitos das secas incentivando e construindo grandes açudes, (Exemplo típico o Açude de
Orós), a perfuração de poços tubulares, a construção de cacimbas, e a criação das chamadas
"frentes de trabalho".
Estas atitudes têm sido paliativas, pois
movimentam capital, geram sub-empregos e evitam, de certa forma, a migração e o êxodo rural. Porém, a corrupção, o coronelismo e a chamada indústria da seca, têm impossibilitado a resolução
definitiva do problema a ser dada não somente com sobreposição de rios e
construção de canais para a perenização dos cursos de água, irrigação e fixação
do nordestino em seu território, mas também incrementando a democracia, a
participação política e a mobilidade social.
Indústria das secas - Indústria da seca é um termo utilizado no Brasil para designar a
estratégia de certos segmentos das classes dominantes que se beneficiam
indevidamente de subsídios e vantagens oferecidos pelo governo a partir do
discurso político da seca. O termo começou a ser usado na década de 60 por Antônio
Callado, que denunciava no Correio da
Manhã os problemas da região do semi-árido
brasileiro.
O Governo
Federal Brasileiro dispõe de alguns programas, como a Operação
Carro-pipa desenvolvida pelo Ministério da Integração Nacional, por meio da
Secretaria Nacional de Defesa Civil, com o Exército
Brasileiro, que buscam contornar os efeitos da seca e
minimizar a falta de investimento em infra-estrutura básica em determinadas
regiões do país.” (Transcrito do Wikipédia)
Agora, seca – seca mesmo! –
para os cearenses foi a de 1957. O matuto não está acostumado com alguém que
lhe dê as coisas – ele gosta de conquista-las, de se fazer merecer com o suor
correndo na testa. E era bobagem das grandes, imaginar que o governo teria
obrigação de dar tudo. Quem tira a condição de sobrevivência do homem da roça
do nordeste, não é o governo. É a Natureza.
Meu pai fora punido por ser
comunista quando da ilegalidade. Ficou sem emprego e sem condições de alimentar
a família e praticmente vivia de favores de alguns amigos – e o mais generoso
lhe ofereceu um emprego de “Cobrador” na linha de ônibus intermunicipal.
Mas, isso não tinha nada com a
seca. Mas foi pelo desemprego momentâneo do meu pai que, em 1957 fomos
obrigados a morar com a minha Avó (a mesma que alguns amigos já leram as
peripécias) em Queimadas. Só havia a garantia do teto, pois a comida, escassa –
quase nenhuma – precisava atender pelo menos 10 pessoas.
Nossas baladeiras eram nossas
auxiliares da caça. Saíamos para o mato para pegar (e matar) qualquer animal
que pudéssemos comer. Qualquer ave, qualquer coisa que fosse considerada caça.
Certo dia essa procurava se
repetiria contando também com a participação do Avô, João Buretama. Vovô
observou, correu atrás e conseguiu pegar e matar nas varas da cerca, uma mucura
(alguns conhecem também como “cassaco”) e, de tanto bater no animal, acabou
matando. Levamos para casa.
Em casa a Avó, abriu um largo
sorriso, dizendo:
- Finalmente! Faz tanto tempo
que não como carne!
Atônito e desconfiado sem
conhecer que “bicho” era aquele tão parecido com rato, indaguei:
- Vó, a gente come isso?!
No que ela, ainda com o rosto
iluminado pela alegria do sorriso proporcionado pela caça, respondeu:
- Meu fiim, se a gente num
cumê isso, vamo ter que cumê fulô de carrapicho!
É assim mesmo a seca e a vida
na roça, quando a fome aperta e chega sombria.
“Capim carrapicho - Nome científico: Cenchrus echinatus L. (CCHEC). O capim carrapicho é uma planta daninha que
apresenta sementes grandes, sendo que cada fruto contém 2 ou 3 sementes. O
capim carrapicho germina a grande profundidade, quando comparado com as demais
plantas daninhas, e por isso é muito difícil de ser controlado por herbicidas
residuais.
Uso
medicinal – o capim carrapicho não tem qualquer uso medicinal. O carrapicho de
serventia medicinal é outro. É o desmodium adscendens conhecido como “picão
preto”.
Chá de carrapicho
(Picão preto) - Desmodium adscendens é uma erva mais conhecida no Brasil como
carrapicho ou picão preto. Ela é tradicionalmente usada para uma ampla
variedade de condições, incluindo hepatite, proteção do fígado com cirrose,
para dores nos músculos, tendões, e na coluna, reumatismo, asma, sintomas
alérgicos e eczema. Acredita-se que seu uso já tem milhares de anos pelos
povos nativos às áreas onde cresce.
É uma planta perene, sendo suas folhas e
caules as partes medicinais. Os fitoquímicos terapêuticos em incluem alcaloides
da família dos indólicos. A planta contém 4 mg / kg de alcalpides expressos em
triptamina. Os ácidos graxos estão presentes numa concentração de até 3%,
sendo relativamente rica em ácidos graxos insaturados.
INDICAÇÃO: O Chá de Carrapicho é muito indicado em casos de: abscessos,
cólicas, conjuntivite, diabetes, dor de cabeça, dor de dente, Afecções
cutâneas, Cura aftas, amigdalite, disenteria, hemorróida, Auxilia na
cicatrização, hipertensão, indigestão, Mata vermes.
COMO FAZER: Em um litro de água fervente, coloque 2 colheres de sopa da erva e
deixe levantar fervura. Desligue o fogo e abafe por dez minutos. COMO BEBER:
Tomar 1 xícara de 3 a 4 vezes ao dia.” (Transcrito do Wikipédia).
Não imagino que seja necessário escrever muito a
respeito dessa aberração. Apareceu por aí e eu resolvi mostrar para o enorme
mundo fubânico. Uma mangueira que, de
forma rara ou não, “pariu” também um caju.
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