domingo, 20 de março de 2016

Fulô de carrapicho e mangueira “parindo” caju

 

O sertanejo é rico em sabedoria. Ainda que pouco tenha estudado ou não tenha frequentado a escola. O cabo da enxada, para alguns, é uma universidade – é trabalhando com esse instrumento da agricultura, que o sertanejo tem chances de “pensar”. E, quem “pensa” tem oportunidade de escolher e acertar.

Da mesma forma que na roça o sertanejo aprende que “uma galinha só bota um ovo por dia”, é ali que ele aprende, também, que pessoas mentem ou falam a verdade com os olhos. Não é de bom alvitre confiar em quem conversa com você sem fitar os olhos.

Quem não olha nos olhos, com certeza está escondendo alguma coisa. E, isso, nenhuma universidade ensina. Só a vida.

Foi na roça, convivendo, que aprendi que a seca mata. Foi ali também que aprendi que a seca não produz apenas o êxodo, como querem alguns. A seca produz a fome, e a fome mata.

Não há como “acabar” com a seca, um fenômeno da Natureza. O homem jamais conseguirá isso. O homem apenas terá o direito de “minimizar os efeitos” da seca nos seres humanos e nos animais e aves.

Este cronista tinha 14 anos de idade quando aconteceu a maior e pior seca no nordeste e, especialmente, no Ceará: a seca de 1957.

Seca no Brasil refere-se aos fenômenos de estiagem que ocorrem esporádica ou sazonalmente, em suas várias regiões.

Na região Nordeste existe a região do semiárido que é delimitada pela região chamada de Polígono das Secas, criada em 1951 pelo governo federal para combater as secas e diminuir seus efeitos sobre a população sertaneja, compreendendo partes de quase todos estados da região, sendo exceção o estado do Maranhão (por possuir regularidade de chuvas, em relação aos outros estados da mesma região, podendo ainda ser atingido pela seca), além do norte de Minas Gerais.

Causas - Desde 1605, a região já enfrentou dezenas de períodos de seca, algumas de gravidade tão elevada que geraram aceleração do êxodo rural para outras regiões. O fenômeno se dá por causas naturais, uma região que apresenta alta variabilidade climática, ocorrendo quando a chamada zona de convergência intertropical (ZCIT) não consegue se deslocar até a região Nordeste no período verão-outono no Hemisfério Sul, sobretudo nos períodos de El Niño. A ZCIT, responsável pelo período chuvoso no Nordeste Setentrional, apresenta um movimento meridional sazonal, com uma posição média anual junto à latitude 5 graus Norte, atingindo 5 graus Sul no mês de abril.

A seca não é somente um fenômeno ambiental com consequências negativas, como a realização de uma alea (evento) natural sobre uma população vulnerável, mas um fenômeno de dimensões econômicas, sociais e políticas secularmente presente na vida da população do Nordeste brasileiro. Trata-se de um problema de distribuição dos recursos naturais, sobretudo da água. A seca permite uma medida do quanto a água e a terra encontram-se pouco disponíveis para a porção mais pobre da população rural nordestina. A região não é desértica, como se poderia pensar numa primeira abordagem, mas apresenta um clima semiárido. A precipitação anual em Paris (França) é similar em sua quantidade à precipitação sobre partes do Nordeste. Mas é claro que a distribuição da precipitação e a quantidade de evapotranspiração são diferentes entre essas regiões. No Nordeste a distribuição da precipitação apresenta-se altamente variável de um ano para outro (associada ao fenômeno de variabilidade climática). Por outro lado a evapotranspiração potencial no Nordeste também é relativamente maior devido a maior incidência de radiação solar. Assim, a seca nordestina do Brasil é um problema bastante complexo. Ao longo da história brasileira a manutenção das regras sociais, do status quo da elite dominante (oligarquia nordestina) jogou contra uma democratização e distribuição dos recursos ambientais, assim estabelecendo os limites da ação das classes sociais, subordinando uma à outra diretamente.

Problemas identificados - O governo do Brasil, muitas vezes tentou combater os efeitos das secas incentivando e construindo grandes açudes, (Exemplo típico o Açude de Orós), a perfuração de poços tubulares, a construção de cacimbas, e a criação das chamadas "frentes de trabalho".

Estas atitudes têm sido paliativas, pois movimentam capital, geram sub-empregos e evitam, de certa forma, a migração e o êxodo rural. Porém, a corrupção, o coronelismo e a chamada indústria da seca, têm impossibilitado a resolução definitiva do problema a ser dada não somente com sobreposição de rios e construção de canais para a perenização dos cursos de água, irrigação e fixação do nordestino em seu território, mas também incrementando a democracia, a participação política e a mobilidade social.

Indústria das secas - Indústria da seca é um termo utilizado no Brasil para designar a estratégia de certos segmentos das classes dominantes que se beneficiam indevidamente de subsídios e vantagens oferecidos pelo governo a partir do discurso político da seca. O termo começou a ser usado na década de 60 por Antônio Callado, que denunciava no Correio da Manhã os problemas da região do semi-árido brasileiro.

O Governo Federal Brasileiro dispõe de alguns programas, como a Operação Carro-pipa desenvolvida pelo Ministério da Integração Nacional, por meio da Secretaria Nacional de Defesa Civil, com o Exército Brasileiro, que buscam contornar os efeitos da seca e minimizar a falta de investimento em infra-estrutura básica em determinadas regiões do país.” (Transcrito do Wikipédia)

Agora, seca – seca mesmo! – para os cearenses foi a de 1957. O matuto não está acostumado com alguém que lhe dê as coisas – ele gosta de conquista-las, de se fazer merecer com o suor correndo na testa. E era bobagem das grandes, imaginar que o governo teria obrigação de dar tudo. Quem tira a condição de sobrevivência do homem da roça do nordeste, não é o governo. É a Natureza.

Meu pai fora punido por ser comunista quando da ilegalidade. Ficou sem emprego e sem condições de alimentar a família e praticmente vivia de favores de alguns amigos – e o mais generoso lhe ofereceu um emprego de “Cobrador” na linha de ônibus intermunicipal.

Mas, isso não tinha nada com a seca. Mas foi pelo desemprego momentâneo do meu pai que, em 1957 fomos obrigados a morar com a minha Avó (a mesma que alguns amigos já leram as peripécias) em Queimadas. Só havia a garantia do teto, pois a comida, escassa – quase nenhuma – precisava atender pelo menos 10 pessoas.

Nossas baladeiras eram nossas auxiliares da caça. Saíamos para o mato para pegar (e matar) qualquer animal que pudéssemos comer. Qualquer ave, qualquer coisa que fosse considerada caça.

Certo dia essa procurava se repetiria contando também com a participação do Avô, João Buretama. Vovô observou, correu atrás e conseguiu pegar e matar nas varas da cerca, uma mucura (alguns conhecem também como “cassaco”) e, de tanto bater no animal, acabou matando. Levamos para casa.

Em casa a Avó, abriu um largo sorriso, dizendo:

- Finalmente! Faz tanto tempo que não como carne!

Atônito e desconfiado sem conhecer que “bicho” era aquele tão parecido com rato, indaguei:

- Vó, a gente come isso?!

No que ela, ainda com o rosto iluminado pela alegria do sorriso proporcionado pela caça, respondeu:

- Meu fiim, se a gente num cumê isso, vamo ter que cumê fulô de carrapicho!

É assim mesmo a seca e a vida na roça, quando a fome aperta e chega sombria.

 “Capim carrapicho - Nome científico: Cenchrus echinatus L. (CCHEC).  O capim carrapicho é uma planta daninha que apresenta sementes grandes, sendo que cada fruto contém 2 ou 3 sementes. O capim carrapicho germina a grande profundidade, quando comparado com as demais plantas daninhas, e por isso é muito difícil de ser controlado por herbicidas residuais.

Uso medicinal – o capim carrapicho não tem qualquer uso medicinal. O carrapicho de serventia medicinal é outro. É o desmodium adscendens conhecido como “picão preto”.

Chá de carrapicho (Picão preto) - Desmodium adscendens é uma erva mais conhecida no Brasil como carrapicho ou picão preto. Ela é tradicionalmente usada para uma ampla variedade de condições, incluindo hepatite, proteção do fígado com cirrose, para dores nos músculos, tendões, e na coluna, reumatismo, asma, sintomas alérgicos e eczema. Acredita-se que seu uso já tem milhares de anos pelos povos nativos às áreas onde cresce.

É uma planta perene, sendo suas folhas e caules as partes medicinais. Os fitoquímicos terapêuticos em incluem alcaloides da família dos indólicos. A planta contém 4 mg / kg de alcalpides expressos em triptamina. Os ácidos graxos estão presentes numa concentração de até 3%, sendo relativamente rica em ácidos graxos insaturados.

INDICAÇÃO: O Chá de Carrapicho é muito indicado em casos de: abscessos, cólicas, conjuntivite, diabetes, dor de cabeça, dor de dente, Afecções cutâneas, Cura aftas, amigdalite, disenteria, hemorróida, Auxilia na cicatrização, hipertensão, indigestão, Mata vermes.



COMO FAZER: Em um litro de água fervente, coloque 2 colheres de sopa da erva e deixe levantar fervura. Desligue o fogo e abafe por dez minutos. COMO BEBER: Tomar 1 xícara de 3 a 4 vezes ao dia.” (Transcrito do Wikipédia).



Não imagino que seja necessário escrever muito a respeito dessa aberração. Apareceu por aí e eu resolvi mostrar para o enorme mundo fubânico.  Uma mangueira que, de forma rara ou não, “pariu” também um caju.


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