segunda-feira, 27 de abril de 2015

“Meu fiu, o disingano da vista é furar os zóios”





Seis miões e mais um pedacim

Ali prasbandas da Guaiúba, povoado motivo de eterna litigância entre os municípios de Pacajus e Pacatuba, estado do Ceará, “morava” um homem que não tinha endereço (casa, lar, residência, esconderijo, tampouco código de endereçamento postal). Era muito conhecido pela alcunha de Zé do Saco, apetrecho que, para quem o conhecia, era considerado como seu endereço e identificação mais certos.

Zé do Saco não tinha também telefone celular, e-mail, twitter e muito menos zap-zap. Mas, era mais fácil de ser encontrado que o Governador do Estado, o Papa, e muito mais acessível que Barak Obama. Tinha uma vantagem “indescartável” (existe, essa palavra?): sabia o nome de todos os serviçais que trabalham como executores das barbaridades cometidas pelos “doentes mentais” islâmicos.

Muitas vezes, Zé do Saco era encontrado com o “saco cheio” de nada e, quase nunca, com o saco cheio de muita coisa. Vagava e, provavelmente por conta disso, divagava.

Havia sempre um engraçadinho para bulir com Zé do Saco, quando passava por ele, cabisbaixo, em alguma vereda em direção ao não fazer nada, onde todos os dias batia ponto, tomava café e, dando meia volta, caminhava para a labuta diária do ócio.

Heráclito, jovem galanteador e metido a bonitão, um dia cruzou com Zé do Saco e atirou:

- Tá contando as ações da Petrobras, Zé?

- Só os “fiotes”. As véias pararo de parir, siô!

A Guaiúba parou. Literalmente parou, ainda que não existisse lá nenhuma rodovia federal para ser interditada por protestos, quando alguém descobriu do lado de dentro de uma cerca de arame farpado de um roçado dos Nogueira, o corpo jazido do Coronel Mamede Santos, com uma faca peixeira de 12 polegadas cravada no meio do peito, mais chegando para o lado esquerdo.

Altamente especializada, com formação internacional e treinamento prático e emocional garantidos nas agências dos EUA, da Alemanha, França, Espanha e até da nossa competentíssima Polícia Federal, sem esquecer, evidentemente, os Serviços de Inteligência da Polícia Militar do Estado e da Guarda Municipal de Pacatuba, a guarnição policial não precisou muito para “desvendar por completo” aquele latrocínio.

E nem foi preciso gastar combustível custeado pelo Município, pois o latrocida estava dormindo a poucos 30 metros dali, com o saco cheio do produto do roubo (vento). As algemas tilintaram, e, minutos depois, Zé do Saco adentrava na Delegacia Municipal de Guaiúba, sem nenhuma toalha de marca cobrindo as algemas. Também não havia sequer um “lambe-lambe” para registrar o furo do jornalístico.

Se não aconteceu sequer julgamento – e ninguém era besta de achar que era necessário, pois só um bostinha daqueles, sem eira nem beira, podia ter a petulância de matar um homem de bem daqueles.

Entretanto, alguns dias após o acontecido e por obrigação constitucional e para que a Justiça determinasse a equanimidade da partilha de bens do falecido, a Perícia Médica encontrou nos exames cadavéricos uma resposta: a ferida contusa não fora tão profunda, o que evidenciava que não fora feita por ser humano.

Os peritos voltaram ao local do acontecido, e, examinando bastante o local, encontraram marcas de sangue no arame farpado da cerca que, depois de feito o exame de DNA, ficou constatado que era sangue da vítima. Poucos metros dali encontraram pedaços de uma jiboia em adiantado estado de putrefação. Tiveram a perspicácia de examinar os cascos do cavalo que conduzia Mamede Santos, encontrando também marcas de sangue. E, a conclusão de que não era sangue humano, levou à seguinte conclusão: o cavalo, trotando na estrada de areia, só observou uma jiboia quando já estava muito próximo dela. Assustou-se e jogou a montaria (Coronel Mamede Santos) por sobre a cerca de arame farpado.  Ao ir ao chão, o Coronel caiu sobre a faca peixeira que tinha o hábito de conduzir no cós das calças, enrolada apenas em papéis velhos. A faca, sem nenhuma mão humana, cravou-lhe o coração.

Apesar do laudo pericial ter sido enviado à Justiça, eximindo de culpa o até então criminoso Zé do Saco,  para que mexer num caso tão estarrecedor que já tinha sido concluído e, palmas, com o perverso latrocida preso e pagando pelo crime contra a sociedade?

Segundos, minutos, horas, dias, meses e anos depois foi descoberto que Zé do Saco tem mais de “seis miões” (entenda-se: milhos grandes, de bons e comestíveis caroços e sem agrotóxicos) de mais alguns “fiotes” guardados num cofre forte de um banco num paraíso fiscal e em nome de um laranja.

Servimos ao Exército Brasileiro por um tempo irregular. Além da conta, e do tempo determinado em Lei. O tempo determinado – naquela época -  era de 10 meses. Servimos 18 meses, nos anos de 1961/62. Servimos como “praça” no CPOR de Fortaleza, então sob o comando do Coronel Celestino Nunes de Oliveira, um baixinho que teve tudo para nos “prender”, mas foi mordido pela mosca azul, e preferiu nos entender e liberar.

A geração que nos sucedeu foi insuficiente no Estado para atender a demanda das unidades. Pelo tempo que permanecemos engajados, acabamos ganhando confiança e ficamos “quase” especializados em alguns serviços. Eu mesmo (é necessário usar a primeira pessoa) fui “Sargenteante” por oito meses, pois, todos os primeiros, segundos e terceiros sargentos que podiam ocupar a função, eram Monitores dos Cursos de Especialização do CPOR. Eu, soldado antigo, e estudante do Curso Científico, fui “guindado” ao cargo que, via de regra, cabe a um Sargento.

Pois, foi ali, na caserna, que aprendi muita coisa que ainda hoje me serve como cidadão e me dá norte na vida. Aprendi a lavar minhas cuecas (nenhuma mulher jamais lavou minhas cuecas ou meias). Mas aprendi também outras coisas.

Aprendi que, quando o soldado que está na “hora” de Sentinela, se fizer alguma bobagem contrária à disciplina, vai pagar caro por isso. Mas, não ficam isentos de “pagar” também, o Cabo da Guarda, o Sargento da Guarda e o Oficial de Dia e, se a bobagem for muito grande, até o Comandante da unidade militar pega “mijada”.

Inacreditavelmente, longe do CPOR e certamente de outras unidades – na Petrobras, por exemplo, a maior estatal brasileira – se algum funcionário for pego comendo queijo na hora do expediente ou bebendo uma dose de Sanhaçu nas reuniões decisórias, o (a) Presidente não tem nada com isso, nem responde por nada. E, como tem sido, sequer sabe de alguma coisa.

Seria por isso que tantos ratos resolvem comer queijo aos bandos para dificultar que seja encontrado o líder?

MORAL DA HISTÓRIA: Não existe nenhuma dificuldade para ser encontrado o criminoso e descoberto o crime de um “Coroné”, ainda que ele não tenha sido cometido por um Zé do Saco qualquer.  Mas é sempre muito difícil encontrar o dono e o responsável pelos “bilhões” depositados como “fiotes” nalgum banco do exterior.

Vovó tinha mesmo razão, quando nos dizia: “meu fiu, o disingano da vista é furar os zóios”!

 

 

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